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Francisco Moita Flores: "Os piores canalhas que conheci estão na política "

O antigo agente da Polícia Judiciária Moita Flores está desiludido com a política e com a ficção que atualmente se faz em Portugal, principalmente na RTP.
Por Paulo Abreu | 24 de junho de 2017 às 11:36
Francisco Moita Flores recorda com má memória a política Francisco Moita Flores recorda com má memória a política Francisco Moita Flores recorda com má memória a política Francisco Moita Flores recorda com má memória a política Francisco Moita Flores recorda com má memória a política Francisco Moita Flores recorda com má memória a política Francisco Moita Flores recorda com má memória a política Francisco Moita Flores recorda com má memória a política Francisco Moita Flores recorda com má memória a política Francisco Moita Flores recorda com má memória a política Francisco Moita Flores recorda com má memória a política
Francisco Moita Flores recorda com má memória a política

Assinou talvez as melhores séries portuguesas e não escreve nada para televisão desde 2012. Não o convidam e ele também não quer. Afinal, recusa-se a dobrar a coluna, principalmente  à RTP, cujo seu administrador, Nuno Artur Silva, prefere coisas ao "estilo das Produções Fictícias". Pai de três filhos e avô de três netos, eis a entrevista a um homem, de 64 anos, hoje comentador da CMTV, que ama as palavras e que viveu a vida, tal como Pablo Neruda.

Leia na íntegra a entrevista na TV Guia, está sexta-feira nas bancas. 

Está a comemorar 35 anos de carreira e já não escreve para televisão desde 2012, quando a TVI transmitiu a série O Bairro. Está de castigo?
Não posso dizer que esteja de castigo. Eu próprio me castiguei, porque não me interessa escrever para televisão este tipo de formatos e de coisas que já foram vistas há 20 anos.

Refere-se à TVI?
Não, não. Refiro-me à televisão pública.

À RTP?
As privadas produzem o que entenderem, e como entenderem. São privadas, têm dono e os donos é que sabem. Na RTP é outra coisa. Somos nós que a pagamos. Portanto, na verdade, não posso dizer que seja castigo, porque nunca procurei ninguém da actual direcção.

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Francisco Moita Flores

Porquê?
São pessoas com uma visão diferente da minha. O administrador [Nuno Artur Silva] está muito ligado ao tipo de ficção que é aquele das Produções Fictícias e é isso que, do ponto de vista afectivo, o atrai. É um estilo no qual não me revejo.

É uma ficção ridícula?
Não, é diferente daquela que eu faço. Não é ridícula. Não é melhor nem pior. É diferente. É uma opção, um estilo. E, depois, quem está à frente dos programas também não tem grande interesse no meu trabalho. E, assim sendo, não estou disponível para mostrar o meu trabalho a quem não tem interesse por ele. Estou bem com os meus romances e com as minhas peças de teatro.

A TVI e a SIC não o seduzem?
[Acende um cigarro] Não tenho insistido, não tenho feito propostas... Afinal, os formatos, hoje, estão reduzidos às novelas, que continuam a ser feitas como há 20 anos. A nossa ficção é muito fraca, e as audiências mostram isso.

Mostram? Desculpe, mas são os programas mais vistos em Portugal.
Mas todos os anos perdem audiência.

As novelas são vistas, em média, por um milhão e 400 mil espectadores…
Repare: há canais por cabo, como a CMTV, que ultrapassam, vários dias, a RTP1. É caso para pensar. De que ficção é que estamos a falar quando a RTP1 é esmagada por um canal de cabo? Sou fã do Netflix, porque me traz o que de novo se faz. Coisa que as várias administrações da RTP nunca procuraram saber. Caíram sempre no chavão do comodismo do conforto. Enfim...

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Francisco Moita Flores

Como caracteriza a ficção nacional?
É o que é: uma ficção fraca.

Em termos de representação?
Temos excelentes actores, mas, para se ser bom, é preciso que lhes peçam para representar e, na maioria dos casos, vejo-os a dizerem texto. Actores que já não fazem papel de actores, mas de locutores. De braços cruzados ou sentados no sofá. Não há transfiguração, aquilo que é a arte do actor. Temos excelentes actores para lhes pedirmos e exigirmos isso.

Os atores afirmam que a ficção nacional deu um salto enorme.
Não podem dizer outra coisa. Porque é a sua fonte de rendimento e compreendo isso. Agora, ao olhar à distância, e eu já ganhei distância, sabem que não é isso. E não digo isto com qualquer acidez. É constatar um facto: veja as séries produzidas nos canais  Netflix, TV Series, Fox Crime e verá uma dimensão e uma alteração qualitativa naquilo que é a ficção dos últimos quatro ou cinco anos.

Sim, com orçamentos megalómanos…
O prolema não é só dinheiro, é a novidade ao nível do argumento, da realização. Olhe, vou dar-lhe um exemplo de 'Chicago Clinics', uma série com poucos recursos, é extraordinária no que respeita à realização. E é feita num décor só.

José Eduardo Moniz é uma pessoa que percebe de ficção, certo?
Claro que percebe. Mas o Zé Eduardo tem um papel a cumprir: dar audiência e publicidade à TVI. E, enquanto este formato servir nos privados, é assim, quer com a SIC quer com a TVI. Enquanto servirem para rentabilizar as antenas, a fórmula mantém-se. Quem está obrigado à experimentação, à novidade e à exigência é a RTP.

Viu Ministério do Tempo, por exemplo?
[Pausa] Vi um pouco de Ministério do Tempo, sim, de Vidago Palace...

E então?
Vi umas coisinhas... Mas o que me agrada é ver novidade.

Há algum colega seu, desta nova geração, que o surpreenda a escrever?
Não sei o nome de nenhum e julgo que a maioria deles nem são autores. São meros adaptadores de texto. Sinto uma incapacidade dramatúrgica. Não conheço nenhum. Teria a obra que me chamar a atenção para ir à procura do autor.

É um homem desiludido?
Não, pelo amor de Deus. Sou um homem realizado. Escrevo há 35 anos! Tenho perto de 20 romances, perto de 20 séries. Tenho três telenovelas, muitas delas ainda hoje marcam as pessoas. Escrevi nove filmes, oito peças de teatro. Enfim, o meu percurso pela estrada das palavras tem sido em vários formatos para vários suportes e que granjearam muito prestígio.

Mas a TV deixa sempre saudade…
Não diria que tenho saudades... Gosto de ver actores a representarem e não apenas a dizerem texto. Se aparecer uma oportunidade, não ponho de lado a hipótese de pensar nela.

E só com uma nova direcção na RTP?
[Acende outro cigarro] Não, necessariamente. Mas já não me submeto à ditadura do capricho do director.

Não precisa de dinheiro?
Não é esse o caso, porque precisamos do dinheiro para viver. Mas não estou é com idade de fazer o que não gosto. Cheguei a um estado de conforto espiritual e intelectual e, portanto, só faço o que gosto. Se aparecesse um director a dizer que tinha um desafio para mim e se me agradasse, faria de bom grado e com muita paixão. Agora, se é algo que não me agrada, digo não. E, por isso, não há nenhum divórcio consumado. Há um tempo de espera, de passagem, até haver condições objectivas para que se possa produzir.

Apesar da ausência de convites, sente-se reconhecido?
Então não sinto! A ausência de convites não fala sobre mim, porque quem fala sobre mim é a minha obra. O que escrevi para a televisão, salvo algumas excepções, foram êxitos que marcaram a vida das pessoas. Tenho a minha consciência tranquila e muito bem afagada no que respeita ao meu contributo. Não sou eu que estou em causa, nem a minha obra. Aliás, estão sempre repetir as minhas séries.

Isso é tudo muito estranho.
Se calhar, é melhor perguntar a quem é director a razão de não me convidarem. Mas compreendo que a RTP não me convide, tem outra abordagem, outro estilo, outra forma de entender a ficção.

O senhor não se vende?
Não faz parte do meu território de afectos. Se é para ter alguma visibilidade apenas, não preciso disso. Nunca precisei. Quero, sim, é ser reconhecido pelo rigor e pela qualidade que invisto no meu trabalho. Quero que os actores se transfigurem com os meus textos, quero retirar sempre deles aquilo que podem dar. E quero, ainda, que os meus textos levem essa marca de rigor e de qualidade. Se não for assim, não me interessa.

O seu novo livro, O Mensageiro do Rei, pode ser adaptado para TV?
Deu-me imenso prazer escrevê-lo e reconheço que nem pensei em televisão, porque era uma fortuna. Imagine o que não seria preciso gastar em carruagens, canhões e figurantes... Nem é possível pensar numa adaptação para TV. Não há dinheiro! Nem eu me atreveria a propor tal coisa. O livro tem a vantagem de abrimos a imaginação ao infinito. 

OS "CANALHAS" DA POLÍTICA
Francisco Moita Flores, de 64 anos, foi presidente da Câmara de Santarém durante dois mandatos
e aceitou, depois, concorrer à de Oeiras, também pelo PSD. Mas as suas recordações sobre a vida partidária são um inferno: "Os piores canalhas que conheci estão ali. E não é deste ou daquele partido, é de todos. E isso é que é mais arrepiante. Alguns são verdadeiros escroques. Também há gente boa, mas os piores estão dentro dos partidos. Fazem as coisas mais horríveis às pessoas para salvarem os seus pequenos poderes, e isso repugna-me", remata.

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Comentários

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Anónimo Há 1 semana

M. Flores diz que os piores canalhas que encontrou estão na política. E em todos os partidos. Eu direi que canalhas os há em todos os setores da sociedade. Na política estão mais expostos. Os mais detestáveis são os que manobram na sombra. O M.Flores tem que apontar casos. Se não fica tudo na mesma.

Anónimo Há 1 semana

M. Flores diz que os piores canalhas que encontrou estão na política. E em todos os partidos. Eu direi que canalhas os há em todos os setores da sociedade. Na política estão mais expostos. Os mais detestáveis são os que manobram na sombra. O M.Flores tem que apontar casos. Se não fica tudo na mesma.


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