Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas como Nós

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Amigo não empata amigo

O Paulo é fixe, não tem muito jeito para a coisa mas gosta de ver filmes lamechas como eu e não se importa de me passear o cão todas as manhãs. Quem eu não gramo é o palerma do Jorge, que anda sempre pendurado em nós, porque não há gaja que lhe pegue.
27 de outubro de 2017 às 11:10
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Amigo não empata amigo

O meu namorado cismou que quer levar o melhor amigo de férias para Marrocos. Fiquei furiosa. A última coisa que me apetecia era passar férias com o Júlio, que tem halitose, cabelo de rato e uma barriga que não é normal para um tipo de 32 anos.

O palhaço podia ter arranjado uma namorada pelo menos para os feriados, ou então alugar uma tipa qualquer. Sei que há miúdas que se deixam alugar à semana, ou se os velhos têm muito guito, ao mês, como a Lisete, filha da Gertrudes, aquela gorda do quarto andar frente em Santo António dos Cavaleiros onde moram os meus pais desde que viemos de Angola.

A Gertrudes passa a vida a dizer que ainda somos parentes, que a minha avó Noémia era prima da mãe dela, mas eu acho que é tudo tanga, a velha que é promover-se à conta da minha mãe e passear no Mercedes que o meu pai lhe deu há dois anos quando descobriu que ele andava metido com a secretária da empresa de tintas. Deve ter sido para mostrar que não se estava nas tintas. A minha mãe engoliu a traição com um cabriolet de luxo e nunca mais se falou no assunto.

A Lisete tem um grande corpo, desde miúda que se orienta bem com os gajos que vai conhecendo, deve ter sido a mãe que lhe ensinou uma ou duas coisas. Já eu, que saio ao meu pai e tenho um rabo pequeno, não podia pôr o corpo a render nem que quisesse, porque ninguém quer aviar uma carga de ossos.

Voltando ao assunto que me lixa, o meu namorado que também trabalha nos armazéns espanhóis onde eu vendo cremes anti-rugas a senhoras desocupadas e muito feias convidou-me para ir uma semana a Marrocos. Convidou não é bem assim. Pagamos tudo a meias e às prestações, como somos funcionários dos armazéns, fazem-nos descontos e um crédito fixe, descontam em dez vezes dos ordenados sem tocar no subsídio de férias nem do décimo terceiro.

O Paulo é fixe, não tem muito jeito para a coisa mas gosta de ver filmes lamechas como eu e não se importa de me passear o cão todas as manhãs. Quem eu não gramo é o palerma do Jorge, que anda sempre pendurado em nós, porque não há gaja que lhe pegue.

E o pior é que o Paulo convidou o desocupado do amigo sem me perguntar se eu achava bem ou mal e depois ainda teve a lata de dizer que nem lhe tinha passado pela cabeça que eu me importasse, porque o Jorge era o melhor amigo dele.

"Amigo não empata amigo", respondi-lhe entre dentes, mas depois arrependi-me, não fosse ele chatear-se e responder-me "se não queres vir, não venhas".

É que antes do Paulo já não tinha um namorado decente desde o décimo segundo. Só me calharam na rifa atrasados mentais com jeito para me pedir dinheiro emprestado e ainda mais jeito para nunca me pagar o que deviam.

O Paulo até é porreiro, não me vai ao cartão multibanco nem se mete com as miúdas dos armazéns, o que me chateia é ter de levar com o Jorge nas férias.

Pode ser que quando lá chegarmos, algum tuaregue gay o troque por um bando de camelos e eu me veja livre dele para sempre. Parece que se diz Cáfila a um bando de camelos. É o que penso quando vamos sair à noite a andamos de bar em bar na Rua Cor de Rosa do Cais do Sodré. A única diferença é que os camelos em Lisboa bebem cerveja, como o Jorge.

 

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