Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas como nós

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Bolos e chapadas

Podes arrumar a casa, arrumar a vida, arrumar a cabeça, podes até arrumar o desejo, fechá-lo numa caixa e dizer-lhe fica aí quieto e sossegado, até podes arrumar o espírito, mas o coração Pedro Miguel, sabes que isso é impossível.
04 de agosto de 2017 às 11:40
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Bolos e chapadas

"Sofre-se em silêncio enquanto temos forças para tal e quando as forças nos faltam, falamos sem medir as palavras", escreveu Charlotte Bronte ao seu professor que, segunda consta, amava a sua mulher no mais inviolável estado de fidelidade.

Charlotte foi a irmã mais nova de Emily Bronte. A paixão não correspondida aconteceu em Bruxelas, cidade para a qual as irmãs foram enviadas para um curso de Verão do ano de 1844.

Para quem não estiver a localizar as irmãs Bronte, Emily escreveu 'O Monte dos Vendavais' que também foi adaptado para cinema.

Talvez nunca tenhas lido o livro, eu também não. Nunca foi dada a épicos dramáticos, mas a minha avó Henriqueta adorava ler tudo o que metesse sofrimento, sacrifício, abnegação e espera.

Cresci com ela a impingir-me livros grossos, pesados e chatos, e ducheses na Bénard e na Caravela que era na Avenida da República e foi extinta pela primeira invasão de
restaurantes de fast-food.

Com os livros nunca me dei bem, mas não se pode dizer o mesmo da doçaria, seja ela tradicional portuguesa ou de influência francesa. Tanto me faz se é uma tíbia ou um palmier, um papo de anjo ou uma bola de Berlim, eu é mais bolos, como dizia aquele personagem criado pelo Herman José, o Felisberto Lalande.

Seja como for, foi com a avó Henriqueta que ganhei a mania dos doces, bolos e bolinhos, de garfo ou de colher, miniatura e biscoitos, festivos ou nem por isso. Come um docinho filha,
senão ficas com boca de lacaio, dizia a avó que, para lá do seu peito volumoso, se fazia notar pelos cabelos loiros penteados em maravilhosos caracóis e pela elegância no vestir e no porte, sem nunca descurar pormenores como luvas, lenços, pregadeiras e chapéus.

Herdei essa tralha toda e mais de trinta anos depois ainda uso algumas preciosidades do seu guarda-roupa. Lembrei-me da avó Henriqueta e das palavras da Charlotte Bronte quando recebi o teu e-mail a anunciar o regresso a Lisboa depois de cinco anos em Bruxelas.

Não sei que bicho te mordeu para me dizeres que vais voltar daqui a uma semana e que vens para ficar. Durante três anos
envie-te várias missivas e nunca me respondeste. Soube pela tua irmã Paula que tinhas voltado a entender-te com a tua mulher, nem me apetece dizer o nome dela, não é o que não saiba, mas prefiro pensar que não me interessa e que, ao que parece, até passaram férias juntos, algo que há muito não fazias, pelo menos não durante os anos em que andaste comigo.

Fiquei por isso muito surpreendida em receber notícias tuas, tanto tempo depois, quando estava convencida de que nem tem lembravas de mim. As linhas escritas pareceram-me sinceras e articuladas, claras e ponderadas, como sempre
foste a escrever e a pensar. Só a sentir é que ninguém consegue ter tanta arrumação, não é?

Podes arrumar a casa, arrumar a vida, arrumar a cabeça, podes até arrumar o desejo, fechá-lo numa caixa e dizer-lhe, fica aí quieto e sossegado, até podes arrumar o espírito, mas o coração Pedro Miguel, sabes que isso é impossível. Eu que o diga, que ando há anos à deriva com o meu, a tentar soluções sem terra à vista.

Sou como um náufrago sem rumo: tentei nadar para
a margem mas estava muito longe, tentei que outros barcos me recolhessem mas depois desisti, tentei boiar para não sucumbir ao cansaço, aprendi a dormir em alto mar, aprendi a
aguentar o que pensava ser impossível aguentar, e um dia fui dar a terra e afinal sobrevivi.

Não penses que não tive vontade de te responder, desejar-te as boas vindas e celebrar o teu regresso. As tuas palavras não havia uma única referência à cunhada da Paula, falavas dos
miúdos e das escolas para onde vão estudar, da casa para onde vais voltar, mas da legítima nada, e fiquei a pensar que não será por acaso.

Decidi não te responder. O que queres que te diga? Que fiquei estes anos fechada numa arca congeladora, qual Branca de Neve na sua redoma de vidro à espera do beijo do Príncipe?

Já gastei todas as palavras e já aprendi que não são elas que nos tiram da solidão, portanto mais vale ficar calada. Se fosses o meu Príncipe tinhas-me escolhido quando estávamos apaixonados, quando adormecias extenuado e feliz nos meus braços, quando dizias que eu era a tua paixão e que nunca te sentiras tão feliz.

Se fosses o meu Príncipe eu não estava agora a caminho do Algarve na semana do teu regresso para fugir à tentação de te procurar. Se fosses quem eu sonhei para mim, não tinhas partido para Bruxelas sem me avisar.

Agora é tarde Pedro Miguel. Desejo-te boa sorte com ao regresso ao burgo e com a rapariga sem nome. E rezo a Deus para que não tenhas o meu número de telefone guardado, porque se me ligasses agora, eu saía no primeiro desvio da A2 e voltava para trás só para te enfiar um par de chapadas.

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