Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas como nós

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Correio Azul

Agora que a estação dos correios vai fechar, como vou fazer para continuar a partilhar contigo o meu mundo? Não acredito na magia do mundo virtual, não dá seriedade às missivas. Fica tudo numa nuvem, parece que o mundo está todo lá, incluindo tu e eu, perdidos para sempre num labirinto de desencontros e de indecisões.
26 de janeiro de 2018 às 07:00
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Correio Azul

Gosto tanto de escrever cartas que nem acredito que a estação dos correios vai fechar aqui na vila. Não tenho idade para ir buscar a pensão como a maior parte da população de Riba d'Ave, anestesiada pelo tempo e diminuída por maleitas de saúde de origem vária: elas com varizes, bicos de papagaio e artroses, eles com gota, diabetes e demências mais ou menos notórias.

A vida de uma vila tão é sempre uma grande pasmaceira, a emoção mais forte é saber o que se passa na casa de todos os vizinhos da rua e ver as novelas de todos os canais porque estas pessoas não sabem o que é Netflix e pensam que Narcos é o nome de um remédio para dormir.

Vim cá parar porque estava cansada da confusão da cidade. Consegui ser colocada na escola primária, os meus alunos são desatentos, alguns sofrem de obesidade, mas no geral são bons miúdos, com bom coração. E não o somos todos se recebermos amor, carinho e proteção dos nossos pais ou de quem nos educa? Eu era uma miúda alegre, estava sempre a subir às árvores e a imitar a Madonna, até andei a cortar dedos às luvas e a fazer buracos em collants de mousse, mas a minha mãe que não era para graças, enfiou-me um bofetão daqueles puxados atrás como uma granada e disse:

- Se não queres que os rapazes pensem que és uma puta, não te vistas como elas.

Elas foram em tempos o bode expiatório da vila quando um galego decidiu montar um casa de meninas brasileiras em Braga, desequilibrando para sempre as estruturas familiares. Houve tipos de meia idade e até mais velhos que largaram as famílias para se juntarem às profissionais importadas do Recife que tinham peitos postiços, beiços inchados e longos cabelos falsos, nos quais despenteavam com longas unhas de gel de cores berrantes. Como se isso não bastasse, todas sabiam pendurar-se no varão e aquilo de andar a rodopiar pelos ares dava a volta à cabeça dos homens. O meu pai finou-se em cima de uma, a Rosângela, foi uma vergonha tão grande para a minha mãe que pensou vender tudo o que tinha depois do enterro e ir viver comigo para o Porto. Desistiu depois de passar uns dias comigo, não aguentava o barulho, o movimento das ruas dava-lhe cabo dos nervos. Acabou por voltar e o tempo apagou o escândalo.

Não sei porque me deu na cabeça vir para aqui, isto é frio e longe de tudo, mas na verdade, se vivemos cada vez mais sós, dentro dos smatphones e dos tablets a ver séries, e se há carros e autoestradas para todos os lados, viver numa vila não é tão diferente do que viver numa cidade. E não há nada que se compare a regressar a casa. Os cozinhados da minha mãe, o peso dos cobertores debaixo da colcha de croché, o saco de água quente e os chás de ervas do quintal, as maçãs e as pêras do pomar, os marmelos que se transformam em marmelada e geleia, é tudo irresistível quando deixaste o coração ao relento durante demasiado tempo.

Quis ser uma rapariga emancipada, atirei-me à cidade, apaixonei-me pelo Porto e pela Foz, namorisquei um arquiteto pretensioso e um músico bonito. O arquiteto trocou-me por uma colega do curso dele e o músico afinal gostava mais de homens do que de mim. Acontece. Não se pode ter sorte em tudo. Formei-me e dei aulas durante alguns anos, depois a minha mãe caiu das escadas e pediu que regressasse por um tempo.

- Tens de vir para a minha beira filha, que isto sem ti é um desgoverno.

O Porto está cada vez mais caro e barulhento, são tantos turistas de tantas cores e etnias que mais parece o metro em Londres, deu-me a nostalgia da infância e voltei.

Durante todos estes meses, nunca deixei de te escrever cartas, sempre enviadas e envelopes de correio azul, para chegarem um ou dois dias mais cedo, como se isso fizesse diferença. Agora que a estação dos correios vai fechar, como vou fazer para continuar a partilhar contigo o meu mundo? Não acredito na magia do mundo virtual, não dá seriedade às missivas. Fica tudo numa nuvem, parece que o mundo está todo lá, incluindo tu e eu, perdidos para sempre num labirinto de desencontros e de indecisõesAs minhas cartas fazem-me companhia quando as escrevo e sei que são estimadas e guardadas numa caixa azul, no fundo de uma gaveta e perto do teu coração. Não quero perder esse lugar secreto e mágico, é a único que me resta neste mundo.

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