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Francisco Moita Flores
Francisco Moita Flores Piquete de polícia

Notícia

Cova da Moura

Nada melhor do que um conflito entre polícias e um bairro problemático para emergirem todos os teóricos da República a apostrofar sem conhecer.
16 de julho de 2017 às 06:00

É recorrente o bairro da Cova da Moura ser notícia e, quase sempre, pelos piores motivos. Ou porque polícias são mortos e feridos ou porque a Polícia reagiu com maior firmeza a esta ou aquela situação de confronto com moradores. Desta vez, o Ministério Público não teve meia medida. Acusou uma esquadra inteira de uma caterva de crimes cometidos contra seis jovens que ali vivem. No cardápio de crimes imputados aos polícias vão coisas muito feias, tais como incitamento ao ódio, racismo, injúrias, ofensas corporais e por aí adiante.

Diz a comunicação social que um dos 18 polícias cometeu 21 crimes, e que aquele leva menos acusações cometeu seis. Saíram dos seus túmulos adiados os arautos da boa moral e todas as virtudes para zurzir os polícias de alto-a-baixo e, embora seja uma mera acusação, é dado como certo e como provado que de um lados estão os maus – os polícias – e do outro lado exemplares cidadãos espoliados dos seus direitos pela autoridade. Nada melhor do que um conflito entre polícias e um bairro problemático para emergirem todos os teóricos da Republica a apostrofar sem conhecer.

É preciso conhecer para se ser mais complacente do que um magistrado eufórico e não misturar alhos e bugalhos. A Cova da Moura é um bairro com sérios problemas de auto-exclusão e hétero-exclusão social. Habitado por uma população maioritariamente de etnia negra, muitos deles imigrantes clandestinos, vivendo em condições dificílimas, com níveis de pobreza muito acentuados, cresceu fora de todos os roteiros legais, no que respeita a urbanismo, transformando numa das várias ilhas marginais que cercam a cidade de Lisboa.

Deve dizer-se que a política ignorou esta comunidade, desprezou ou não quis saber dos destinos das suas gentes, escondeu-se sempre do bairro ou escondeu o bairro da política. A única solução que teve à mão foi criar uma linha de fronteira onde os múltiplos problemas e desafios têm como barreira as forças policiais. Não espanta, pois, o permanente conflito entre a ordem e a desordem que o próprio bairro consagra através da sua geografia urbana.

Há muito que esta mancha demográfica deveria ter outras soluções que não o gueto, com toda a violência que nele se gera. São problemas da política e não da polícia. 

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