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Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas como nós

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Há mais vida

Há muito que não ouvia Water Boys, nem Smiths, nem outras bandas do tempo em que os smartphones só apareciam em filmes de ficção científica. Não sou dada a nostalgias, gosto de descobrir bandas novas, mas há músicas que são como certos amores, quando nos entram para o coração, nunca mais saem. Ninguém tem culpa, é uma coisa que pode acontecer.
28 de julho de 2017 às 06:00
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Há mais vida

Eu vinha no último Alfa, estoirada depois de dois dias de reuniões de apresentação da empresa. Entrei em Campanhã e rezei para fazer uma viagem sossegada, mas a sorte não estava de feição, porque em Gaia entraram duas Manuelas de vestidos justos, cabeleiras volumosas e unhas de gel de cores fluorescentes. 

Uma Manuela chamava-se Joana e a outra, Jessica. Não deviam ter mais de 25 anos. A Joana tinha um piercing na sobrancelha direita e a Jessica uma tatuagem da Betty Boop no ombro esquerdo. Talvez fosse ao contrário, mas para o caso não interessa. Ambas mexiam freneticamente nos smartphones enquanto folheavam uma revista cor de rosa. 

Fiquei perplexa quando percebi que falavam das pessoas que apareciam nas fotografias como se a conhecessem, misturando pormenores das vidas dos chamados famosos com as suas vidas e das suas amigas, talvez essas da mesma criação.

Olha a Fernanda, tão elegante, estão sempre a dizer que se separa, mas afinal... e a Judite, que magra, mas o bikini é top, tenho um igual que comprei nos saldos da Acessorizze, e por aí fora.

Não podia mudar de lugar porque o último Alfa vem sempre cheio, restava-me pôr os fones e refugiar-me no Spotify. 

Tropecei numa play list de oldies e deixei-me levar pelos Water Boys. Spirit leaves when man dies. É verdade. O homem é uma coisa, o seu espírito é outa. 

Gosto de pensar que o espírito é eterno e intemporal, que vence tudo aquilo que o homem não vence. Talvez pese 21 gramas, quando o corpo de desliga perde essas gramas, não é? 

Imagino o espírito a voar como um espectro, enfim livre, a caminho de uma dimensão qualquer onde as almas livres da geringonça física se abraçam e se amam, comunicando na paz da telepatia, sem precisarem de usar palavras. 

Há muito que não ouvia Water Boys, nem Smiths, nem outras bandas do tempo em que os smartphones só apareciam em filmes de ficção científica. Não sou dada a nostalgias, gosto de descobrir bandas novas, mas há músicas que são como certos amores, quando nos entram para o coração, nunca mais saem. Ninguém tem culpa, é uma coisa que pode acontecer. 

As miúdas continuam a agitar-se entre as comunicações virtuais e as folhas coloridas da revista . Se não me engano, já estão a folhear o mesmo exemplar pela terceira vez seguida, mas talvez não tenha contado bem. 

Viajo no tempo e lembro-me de ti há muitos anos, sem barba nem canudo, o cabelo sempre despenteado e algum mau gosto nas indumentárias da tua fase neo-punk. 

Vinte anos depois vestes fatos escuros e falas de forma pausada, mas lá a voz que oiço é daquele miúdo que me dava os melhores beijos do mundo.

Dizias que um dia podíamos ir à Irlanda, quem sabe para ver os Water Boys. Entretanto o vocalista morreu e o nosso amor foi sofrendo vários embates, como é clássico nas grandes paixões. 

Namorámos em segredo muito tempo antes de casarmos e só Deus e nós sabemos quanto mais depois dos respectivos enlaces. Há sempre um lado obscuro no amor, quando a paixão te devora o juízo e te desliga a razão. 

Abro o whatsapp e apetece-me enviar-te uma mensagem a dizer: quero que tu te lixes, mas tenho saudades tuas. 

Só isto. Tenho a certeza que irias sorrir. Há mais de 20 anos que te ris dos meus disparates, sempre foi assim e sempre será. 

Afinal tive sorte. As Manuelas abandonaram o Alfa em Coimbra e vim até Lisboa mergulhada no sossego e nas saudades que cresciam no meu peito como crescem os monstros nos filmes de ficção científica. 

Estás debaixo da minha pele, tenho quase a certeza que se te mandasse uma mensagem a perguntar se ainda queres ir à Irlanda, ficavas a olhar para o visor, ainda e sempre  a imaginar aquela viagem que nunca fizemos.

Existem dois tipos de pessoas: aquelas para quem é sempre tarde e as outras, que acreditam que vão sempre a tempo. Talvez as segundas tenham um espírito mais forte. É provável. Gosto de pensar que faço parte do segundo grupo. Viver para sempre, numa outra dimensão, e regressar um dia contigo para vivermos tudo o que não conseguimos nesta vida. 

Há mais vida, tenho a certeza. Há mais vida.

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