Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas Dicionário do amor

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Lícito

Lícito: adj. Aquilo que, por vezes, o amor não é; não é necessário todos os amores serem foras da lei, sim – mas é necessário que todos os amores te deixem fora de ti.
12 de junho de 2017 às 09:47
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Lícito
Não somos o que nascemos; somos o que nos fazemos.

Era uma vez dois irmãos que seriam absolutamente iguais a todos os irmãos, não fosse dar-se o caso de um deles não conseguir ouvir e o outro deles não conseguir ver.

Não somos o que vemos nem o que ouvimos; somos o que sentimos.

Como seria natural, os dois irmãos tornaram-se grandes amigos à medida em que foram crescendo, verdadeiramente inseparáveis, o que fez com que, por pena ou apenas porque gostavam mesmo deles, ganhassem muitos amigos na escola e por onde quer que passassem.

Não somos o que não somos capazes de fazer; somos o que somos capazes de gerar.

Para além de muito inteligentes, os dois meninos, agora já jovens adolescentes, tinham um sentido de humor muito apurado – o que, aliado ao facto de terem ambos uma insuficiência marcada e marcante, fazia com que tivessem diálogos muito interessantes:

- Só vês o que te interessa.

- E tu só ouves o que queres.

- Estava-se mesmo a ver que ias por aí.

- Se me ouvisses não teria de ir.

- É sempre a mesma coisa, vês?

- Vou fazer orelhas moucas a isso.

- Está tudo visto.

Não temos de ser o drama que podemos ser; temos de ser a comédia que devíamos viver.

Com tamanho talento humorístico, não tardaram a ser descobertos e começaram, de forma precoce, a ser grandes estrelas do panorama artístico do seu país, onde granjearam elogios e ganharam muitos amigos, sempre presentes e prontos para tudo.

Não somos amigos dos que admiramos; somos amigos dos que amamos.

Casaram-se e separaram-se várias vezes. Acabaram por perceber que não conseguiam viver um sem o outro, por mais que tentassem. Sentiam-se incompletos, incapazes, infelizes, amputados, até.

- É como se nos faltasse um sentido. Literalmente.

Não somos inteiros quando temos tudo; somos inteiros quando sentimos tudo.

Especializaram-se, com o decorrer dos anos, em fazer o outro sentir o sentido que lhe faltava sentir. Em todos os momentos, a todas as horas, um era os ouvidos do outro e o outro era os olhos do um: eram os narradores perfeitos para ambas as vidas.

- Juntos não fazemos um inteiro; juntos somos os dois inteiros.

Não somos amados quando nos dão o que nos falta; somos amados quando nem damos por qualquer falta.

Um dia, um deles distraiu-se e esqueceu-se de narrar o carro que via à frente, o outro distraiu-se e esqueceu-se de narrar a buzinadela que ouvira de frente, e quando acordaram estavam estendidos na cama de um hospital, com os pais, sempre os pais, a olharem-nos com restos de lágrimas nos olhos.

- Nem o amor mais cúmplice resiste à distração.

Não somos obrigados a sacrificar-nos por amor; somos capazes de sacrifícios que não custam nada por amor.

Ficaram paralíticos e pobres ao longo de dois anos, menos do que isso, em que foram penando, lentamente, junto dos pais e um do outro.

- O amor às vezes magoa mas também distrai do que dói.

Não somos pobres quando não temos dinheiro; somos pobres quando só temos dinheiro.

No funeral, os pais fizeram uma grande cerimónia, perfeita para acolher os choros sofridos que esperavam ouvir de todos os amigos dos dois defuntos. Mas ninguém os viu.

Lícito: adj. O mesmo que humano; só o desumano é criminoso – o resto é apenas falível.

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