Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas Dicionário do amor

Notícia

Líder

Líder: s.m. Aquele que mais ama; qualquer um sabe dar ordens que são obedecidas – mas só um grande líder sabe dar ordens que são amadas. Liderar é apaixonar, só um mau líder não o vê (porque, lá está, só um apaixonado reconhece outro).
19 de junho de 2017 às 07:00
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Líder
Foto: iStock

- Sou viciado em borboletas na barriga.

- Então porquê?

- Preciso de sentir que é tão bom que vai acabar, que é tão bom que tem de acabar. O eterno dura para sempre mas parece-me uma seca.

- Uma felicidade que vai acabar é a única felicidade possível. Uma felicidade que se estende já não é felicidade nenhuma. É apenas uma espécie mais fraca de felicidade, uma felicidade em saldos, uma felicidade dos pequeninos.

- É para isso que existe a morte: para nos fazer sentir mais longe, sentir mais forte.

- Como se fosse acabar.

- E depois acaba mesmo.

- Temos de viver como se viver fosse acabar, só isso. Às vezes vivemos como se fôssemos imortais, deixamos para depois o que se for depois já vai saber a depois. Cada felicidade tem o seu momento. Adiar uma felicidade é perder uma felicidade. Só os infelizes não vêem isso.

- Sou viciado em gambuzinos na barriga.

- Os gambuzinos não existem, são uma invenção que nasceu para fazer rir.

- É nisso que sou viciado: no que não existe e que inventamos, todos os dias, para nos fazer rir. No limite é isso o amor: algo que não existe e que foi inventado para nos fazer rir.

- Mas às vezes faz chorar.

- Isso só acontece quando é mal usado. Quando alguém mata alguém com uma faca a culpa não é da faca; é de quem a usou mal. Tendemos a culpar o mensageiro e não quem escreve a mensagem. O amor existe para fazer rir, por mais que na verdade não exista. Sou viciado em gambuzinos na barriga, em criaturas que me habitam e que na realidade não existem. São elas que me fazem real. A realidade é o que sentimos, o que nos toca. Precisamos de inventar o que nos faz bem. Se não encontras a felicidade tens de a inventar.

- Inventar a felicidade não será viver uma ilusão?

- A ilusão é a única forma de degustação. Saboreamos aquilo que imaginamos estar a provar. É o que imaginas aquilo que vives, não mais. Alguém que só vive a realidade é internado em dois ou três dias. Ninguém resiste à realidade por inteiro. Ninguém resiste, até, a meia realidade. Precisamos de nevoeiros, de neblinas, para que não possamos ver tudo o que nos rodeia. E quanto mais damos mais temos. O amor multiplica-se quando se dá.

- Somos mágicos do dia a dia.

- Temos de ser ilusionistas do tédio, transformar o que magoa no que faz sonhar. Os mais felizes são os mais criativos, os que desenham, os que escrevem, os que pintam, os que fazem música. E, mais ainda, os que amam.

- Amar é a criação suprema.

- Amar é a criação. O resto são derivações. Todas as obras nasceram por amor. Não existe nenhum génio que não esteja apaixonado. A paixão é, aliás, o principal motivo para a genialidade. Só alguém ridiculamente apaixonado cria obras ridiculamente apaixonantes. O que nos apaixona tem de estar apaixonado.

- Estás apaixonado por mim.

- Como se existisses, e depois existes mesmo.

- Criei-te para me salvar.

- Fizeste bem. O amor é o que nos salva. Antes de me criares já cá estava mas não existia. É isso o que amar nos faz: existir.

- Por mais que não exista.

- Sobretudo por não existir.

- Os gambuzinos.

- Sim: sou viciado em gambuzinos na barriga.

Líder: s.m. Aquele que nem sempre chefia mas que está sempre na liderança; estudar a História é estudar os seus líderes, o que muitas vezes é bem diferente de estudar quem deu as ordens. O erro dos fracos líderes é pensar que liderar é mandar: já muitos foram escravos pensando ser senhores. Qualquer burro consegue resultados, mas só um líder os consegue sentir. Mudar o mundo não é alterar o que acontece – é alterar o que as pessoas sentem com o que acontece. Todas as tragédias são interiores – e todas as felicidades também.

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