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Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas Dicionário do amor

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Pedro Chagas Freitas: Lua

Lua: s.f. O satélite que mais alegra; é necessário estares no escuro para saberes mesmo de onde vem a luz. O sol é a festa, a desoriginalidade, as palmadas nas costas, a amizade leviana, o amor fácil. De dia toda a gente é iluminada: qualquer um é visível no meio da luz. Agora experimenta lá ser claridade quando nada és capaz de ver. Amar não é só ver no escuro – é acender o escuro.
03 de julho de 2017 às 07:00
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Pedro Chagas Freitas: Lua
Foto: iStock
"Pediram-me um milagre e eu mostrei uma imagem nossa."

Não, não pode ser assim: demasiado lamechas, demasiado previsível. Ela não quer saber se somos um milagre, quer é que eu diga o que eu quero, quer é que eu diga que sou capaz de o fazer. Não posso ir nas cantigas dos filmes e dos livros românticos. Tenho de fazer a minha própria cantiga, o meu próprio filme, o meu próprio livro.

"No dia em que te despir pela primeira vez vou finalmente ver-me inteiro."

Chiça, que pirosice. Tens de conseguir melhor, pá. Raios, que amar é tão grande que nenhuma palavra lhe serve: todas as palavras são tão pequenas, apertam tanto, constringem tanto. Como é que só existe uma palavra para amor? Como? Quem inventou o alfabeto nunca esteve apaixonado, tenho acerteza.

"Quero o interior dos teus braços como a flor quer a primavera."

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Que horror, como se houvesse alguma estação, alguma construção meteorológica, que estivesse à tua altura, que pobre coitado sou, aqui há horas a querer escrever-te e tudo o que consigo são esboços do que és, esquiços defeituosos do que representas. Quando entrares por esta porta quero dar-te as melhores palavras de sempre, a carta de amor que Pessoa queria ter escrito, a junção de palavras mais feliz que o mundo algum dia conheceu, como eu e tu somos a junção de pessoas mais feliz que o mundo conheceu.

"Quem nunca leu os teus olhos é um analfabeto emocional."

Merda, que não me sai nada melhor do que isto, esta sucessão de frases pequeninas, banais, imóveis – quando o que tu és é grande, único, capaz de mexer tudo o que acontece no meio de mim. És a minha liturgia, uma oração na qual não peço e só recebo. Deus não está no meio de nós, Deus é nós.

"Ontem pediram-me que escrevesse os teus defeitos e hoje, ao fim de um dia a escrever, entreguei uma folha em branco."

E é mesmo isso tudo o que tenho para te dar. Estás quase a entrar e nada do que crio te recria, és irrecriável, irrepetível, nenhuma descrição produz algo que sequer se assemelhe a ti. Só peço por tudo a quem manda nisto tudo que nunca desapareças porque ninguém seria capaz de um retrato-robot de ti: és tão humana que não tens características, tens singularidades, irreproduzibilidades, geografias que não vêm nos mapas. Amo-te pelo que não consigo entender, pelo que não consigo ver, até. És um outono mais do que um verão, um mistério, uma parte de demónio no interior da alegria. No verão tudo é visível, que tristeza, no inverno tudo está escondido, que tristeza ainda maior. E a primavera é luz e tu és uma sombra altiva, uma harpa sem tocador e ainda assim com música, uma forma de poema que não necessita de poeta.

"Quando entrares por essa porta vou ficar sem palavras para te dizer tudo."

E ela entrou, e ouviu.

Lua: s.f. O lugar mais denso, e mais interessante, do sistema solar; nenhuma felicidade existe sem melancolia: é a saudade uma das partes mais belas de amar. Um amor sempre feliz é uma tristeza do catano. E é muito por culpa de quem vive na Lua que vale a pena viver na Terra.

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