Luísa Jeremias
Luísa Jeremias Planeta cor de rosa

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Manifesto "pró-banho" nas tuc-tuc

Pessoal sério das tuc-tuc: vamos pôr ordem nisto! Chega de condutores desmazelados, com t-shirts a precisar de ser trocadas há três dias e a querer dar baile aos "camones" em carripanas emporcalhadas. Corram com os "carochos"! Tuc-tuc digna de Lisboa é limpinha e com condutor cheiroso.
21 de junho de 2017 às 20:02
Há uma nova profissão em expansão nas ruas de Lisboa: condutor de tuc-tuc. Ultimamente, para conseguir emprego nesse novo negócio em franco crescimento bastam poucas mas essenciais caracteristicas: arranhar inglês, ter aspecto de quem já trabalhou numa loja dos 300 e serviu copos no Bairro Alto, manter o cabelo despenteado, a t-shirt com pinta de não ser trocada há três dias e, claro, ter aquela ginga para lidar com os "camones" digna de um profissional de Albufeira em pleno Verão a tentar "put the cream". 

A par disto é indispensável manter a tuc-tuc a precisar de ser lavada, não arranjar os bancos entretanto rasgados com mochilas e beatas de cigarros pelos mesmos "camones" e fazer ultrapassagens à campeão nos circuitos percorridos. Tudo isto em nome da "couleur local", como dizem os franceses, ou seja, em nome daquela forma de ser "alfacinha" (algo totalmente diferente de ser "pintas", conceito que estes cromos ainda não conseguiram distinguir. 

Detalhe: eu adoro as tuc-tuc. Ou melhor: adorei quando surgiram em Portugal, diretamente importadas da Índia e da Índonésia, de países que inventam formas imaginativas e divertidas de sobrevivência para o turismo em expansão.

No inicio, as tuc-tuc eram um mimo! Pareciam brinquedos, carrinhos de bonecas para animar os turistas desejosos de entrar nas ruas de Alfama (sem gastar sola de sapato) onde carros e taxis não ousam sequer atrever-se a passar. As tuc-tuc, de todas as cores do arco-iris, com condutores que quase pareciam de Uber, educados e a dar explicações sobre dia-a-dia lisboeta e o património, eram o máximo. As condutoras, então, melhor ainda: umas queridas. 

Mas a festa durou pouco tempo. Ao perceber o negócio rentável, todo o "carocho" disponível no mercado, que perdeu o negócio de vender relógios falsificados na Praça do Comércio quando esta foi remodelada, candidatou-se a condutor do veículo. E, pior, foi aceite pelo patronato "tuc-tuquence", que quer é faturar enquanto dura! Resultado: minou o mercado, reinventou-o da pior forma e transformou uma ideia genial numa nova forma de "enganar o próximo" que, depois de uma experiência daquelas, tem sérias possibilidades de não querer repetir a dose. 

Por isso, aqui deixo o meu apelo ao pessoal sério das tuc-tuc, àqueles dos quais nos orgulhamos e que estão a fazer de Lisboa uma cidade gira que se farta, com alma própria e lugar no mapa. Pessoal: ponham ordem nessa selva! Mandem os gajos tomar banho e vestir t-shirts lavadas! Mandem-nos limpar as carripanas e não conduzir como se estivessem na montanha russa. Não deixem os porcalhões estragar isto tudo. Senão... perdemos todos.

Perde Lisboa, que fica mal-vista e a cheirar mal; perde o vosso negócio, que ganha mau nome entre a estrangeirada cliente e perdemos nós todos que passamos por chicos-espertos e porcalhões. E esse tempo já lá vai. Agora é hora de crescer, sermos lindos e termos uma cidade à maneira: com cheiro a manjericos, sabonete e perfuminho. Até em dias de calor abrasador alfacinha.

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