Margarida Rebelo Pinto
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Miss Kevlar

Eu e a minha imaginação galopante. Às vezes penso que tenho uma fábrica de ideias dentro da cabeça que funciona 365 dias por ano e nunca desliga. Coração blindado. Quem me dera ter ouvido isto há uns anos, talvez o meu coração estivesse menos amolgado.
17 de novembro de 2017 às 07:00
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Miss Kevlar

- Sabes o que é kevlar? – Pergunto à minha amiga Inês, enquanto guio em direção ao aeroporto, terminal 1, partidas internacionais, destino Salvador. A Inês gosta de correr atrás do Verão, tem tempo e dinheiro para isso. Sofre do tédio dos ricos para quem viajar é visto como um remédio, embora actue quase sempre como um placebo.

-Não faco ideia. Parece nome de uma marca de um detergente. Ou de xarope para a tosse.

- Nada disso. Kevlar é um material usado para forrar os coletes anti-bala. Se levares um tiro, safas-te, percebes?

- E se o tiro for na cabeça? Ou também existem gorros forrados a kevlar?

Fiquei sem saber o que responder. Posso ir ao Google procurar gorros forrados a kevlar, porque o Google sabe tudo. Ou quase. Um dos problemas do Google é só saber o que já passou. Não possui artes de adivinhação. Se já aconteceu, está lá com certeza. Mas se ainda não sucedeu, nada feito.

- O Google não percebe nada do futuro – deixo escapar baixinho.

- Estás outra vez a falar sozinha? – a Inês acha que só os malucos é que falam sozinhos. Apesar de sermos amigas há vinte anos ainda não percebeu que falar sozinho é uma prática de quem pensa muito e não de quem tem os miolos desarranjados.

- Estava só a pensar que se fores ao Google, estão lá as respostas práticas da vida, mas as mais profundas, não.

- Tu é que dizes que as respostas estão todas dentro de nós. Tu é que fazes meditação e és profunda e sabes coisas originais como essa cena do kevlar. Porque é que te lembraste disso agora, que vou a caminho do paraíso?

- Porque quando tens um desgosto de amor é como se te tivessem entrado cem balas pelo peito. E não há proteção possível.

- Claro que há. A solução é teres o coração blindado.

Estamos a entrar no parque de estacionamento. Sinto-me momentaneamente perplexa. Afinal a Inês consegue fazer metáforas. Coração blindado, que grande ideia. Até se podia montar um rede de franchising como as das unhas de gel com corners em centro comerciais de norte a sul do território para blindar corações.

Eu e a minha imaginação galopante. Às vezes penso que tenho uma fábrica de ideias dentro da cabeça que funciona 365 dias por ano e nunca desliga. Coração blindado. Quem me dera ter ouvido isto há uns anos, talvez o meu coração estivesse menos amolgado.

- Explica lá isso.

- Não se explica, é assim. Quando somos miúdas e nos apaixonamos, sofremos imenso, mas tudo passa muito depressa. Lá para os 30, vives grandes paixões, mas ainda com medo. Chegas aos 40 e rebentas todas as escalas, partes-te toda. Quando recuperas, tens dois caminhos: ou continuas a acreditar na merda do amor e dás o corpo às balas, ou te retiras do teatro de guerra e ficas com o coração blindado.

Não consigo fechar a boca. Ou a Inês anda a ler muitos livros, ou então ficou inteligente de repente, sofreu um up-grade cognitivo qualquer. Esperemos que seja irreversível.

- Nesse caso, não precisas de kevlar para nada.

- Não, porque se tiveres o coração blindado já é a Miss Kevlar, percebes?

Fico a pensar naquilo. Bebemos um café em silêncio, damos um abraço e ela sorri, com a mesma cara de miúda que conheci há vinte anos.

- Quando voltas?

- Quando me cansar do calor. Já me conheces. Aborreço-me com facilidade.

É o que dá teres o coração blindado, penso mas não digo. Afinal, cada um defende-se como pode.

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