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Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas como nós

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O factor esfregona

Há três anos conheci o Paulo no refeitório do laboratório. Trabalha noutro edifício, naquele dia tinha ido à administração. Avancei sem pensar. Sentei-me à frente dele com o tabuleiro e meti conversa. A mãe dele também se chamava Isabel...
29 de setembro de 2017 às 22:02
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O factor esfregona

Tenho de acabar com isto quanto antes. Limpar o Paulo do meu sistema. Esquecer que existe. Andar para a frente. Como se fosse possível. No meu mundo ideal, metiam-me dentro de um cilindro e criogenizavam-me até me passar a Paulite. Entrava em elipse, saltava as etapas chatas, faziam-me uma transfusão emocional e quando acordasse já estava curada. Mas como a vida não é um filme de ficção científica, tenho de fingir que não me afectou, que sou forte, que está tudo bem. Fingir cansa, acho que estou a fingir cada vez pior.

Se tivesse os miúdos a viver comigo era tudo mais fácil. Olho para o quarto vazio que eles só ocupam ao fim-de-semana e penso no absurdo que é ter filhos e viver longe deles. Mas não podia continuar a viver na Aroeira e trabalhar em Cascais. E o mercado de trabalho não está para graças. Cansei-me de fazer cinquenta quilómetros por dia, do trânsito na ponte, da sensação e apátrida cada vez que ficava em Lisboa para ir jantar fora ou beber um copo. Era tudo muito longe.

E há ainda outro quarto vazio. O quarto que imaginei com uma cama branca, uma colcha cor-de-rosa e uma casa de bonecas. O quarto da minha enteada se tivesse outra vida, a vida que projectei. Nunca teve a cama branca, nem a colcha, nem a casa de bonecas. Tem dois charriots com a roupa da estação anterior, material de desporto, skis e botas de neve, caixas de arrumação e tralhas. É um lugar horrível, porque não serve propósito nenhum, falhou o seu destino. Ou então fui eu que falhei nas minhas projeções.

Há três anos conheci o Paulo no refeitório do laboratório. Trabalha noutro edifício, naquele dia tinha ido à administração. Avancei sem pensar. Sentei-me à frente dele com o tabuleiro e meti conversa. A mãe dele também se chamava Isabel.

Aquilo pegou como o fogo em dias de vento e de calor. Poucos dias depois estávamos a caminho do Alentejo para o nosso primeiro fim-de-semana românico. Eu no meu melhor, armada em sonhadora temerária, tipo princesa da Disney, a acreditar no Dumbo e no Príncipe Filipe. O meu nome do meio não devia ser Andrade, devia ser Otária. Isabel Otária Andrade Marques

Isto aconteceu-me seis meses depois de a minha melhor amiga ter conhecido o Gonçalo. Ambos tinham outra vida, nenhum largou a primeira vida para ficar com a segunda. Tão parecidos que podiam ser gémeos.

A Maria avisou-me. "Abre os olhos, senão lixas-te. Se passares mais de seis meses nessa embrulhada, vais ficar presa durante anos. E depois é sempre a piorar. No primeiro ano és um cão, no segundo és uma esfregona. E quando pensas que não pode piorar, piora sempre. Eles não voltam a ter respeito por ti. Podem adorar-te, mas há coisas que se perdem para sempre. Olha para mim. Não queiras esta vida."

Claro que a Maria estava certa. Já não lhe abro as pernas, mas não consigo ignorar as mensagens. Se me aparecesse à porta de repente, não lhe resistia.

O grande problema não é uma pessoa ser mal tratada, o grande problema é habituar-se. É o Factor Esfregona. Só o tempo pode apagar tanto disparate.

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