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Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Ó gente da minha terra

Eu sei que o meu mundo é feito de palavras com as quais construo histórias, romances, crónicas e ficções e que as palavras não têm a capacidade de resolver tudo. Sempre disse que um médico faz muito mais falta do que um escritor, e agora acrescento e um bombeiro também faz, mas já aprendi que cada um de nós pode fazer a diferença se não ficar calado.
20 de outubro de 2017 às 15:47
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Ó gente da minha terra
Foto: Lusa
Quando enfim a chuva começou a cair, ajudando a apagar as brasas do flagelo que destruiu 493 casas, matou mais de 100 pessoas e 84 mil animais, quando enfim o Presidente falou, quando enfim a Ministra incompetente se demitiu e o primeiro-ministro sem empatia pediu desculpa ao país, quando enfim a Assembleia da República fez um minuto de silêncio, aos poucos, fomos sossegando o coração. Aqueles que o podem fazer, a quem a casa não ardeu, os familiares não morreram ou perderam o trabalho de uma vida.

Mas é impossível não pensar nos que não escaparam ao fogo e à inércia e desorganização do Estado e dos meios que devia ter lá estado a lutar e não estavam. É impossível não pensar em todos os bombeiros e cidadãos anónimos que arriscaram a vida a combater a chamas, a levar os vizinhos idosos para lugares mais seguros, a fazer tudo o que puderam para salvar o próximo. É impossível não pensar como é que num só dia, o mais perigoso do ano, por ser o
mais quente e com o vento mais forte, num golpe de magia negra estavam 500 fogos ativos ao mesmo tempo. Quem anda a brincar com Portugal?

A ausência de empatia não é apenas o grau mais elevado do egoísmo, é um sintoma de uma patologia profunda. Quem não é capaz de entender o sofrimento alheio, não é capaz de fazer nada decente na vida. Quem não sabe pedir desculpa, quem não sabe ouvir o coração, quem não quer ver as lágrimas dos outros, quem só consegue pensar nos seus interesses e no seu bem-estar, não merece o respeito do mundo, porque não respeita o mundo.

Eu sei que o meu mundo é feito de palavras com as quais construo histórias, romances, crónicas e ficções e que as palavras não têm a capacidade de resolver tudo. Sempre disse que um médico faz muito mais falta do que um escritor, e agora acrescento e um bombeiro também faz, mas já aprendi que cada um de nós pode fazer a diferença se não ficar calado. O silêncio é de quem consente, de quem não enfrenta, de quem não tem coragem, de quem não tem força. O silêncio por opção é sempre sinal de fraqueza. As palavras servem para ser ditas, por mais que doam a quem as diz e a quem as ouve. E não pense quem as ouve que quem as diz não sofre.

Esta semana as minhas palavras não contam uma história de amor, em vez disso uso-as para um manifesto contra o desamor. O desamor instalado que se manifesta na apatia, na indiferença, na nossa capacidade de tantas vezes desculpar o indesculpável. A nossa maior qualidade enquanto povo é a brandura, não podemos deixar que seja também o nosso maior defeito. Não podemos deixar-nos ir no deixa andar. Temos de ser mais fortes, honrando os resilientes, os heróis nacionais do Norte e do Centro, os anónimos que aguentaram o Inferno e continuam a viver nele.

O que está a acontecer em Portugal é muito grave. Quando o poder político está mais preocupado em manter a Geringonça de pé do que em governar o país, está na hora de gritar "Basta". Não é a minha cor política que me faz escrever palavras duras, é a minha revolta enquanto cidadã e a meu orgulho em ser portuguesa, é o amor imenso e incondicional que tenho pelo meu país no qual pude crescer em paz e realizar os meus sonhos, o Portugal que apaixona o mundo e que não se sabe proteger. O país dos pastéis de nata, do CR7, da Mariza e do Siza Vieira, do Salvador e dos abraços. Não somos melhores nem piores do que os outros,
somos únicos.

Não posso calar-me quando as grandes tragédias assolam a gente da minha terra, da terra que é afinal de todos nós, e não de quem não a sabe proteger. Portugal é de todos, cada um deve pensar o que sabe fazer melhor para que Portugal não se cale.

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