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Francisco Moita Flores
Francisco Moita Flores Piquete de Polícia

Notícia

O nome dos mortos

Posso estar enganado mas julgo que a verdade não andará muito longe dos números divulgados. Já teríamos ouvido familiares de outros infelizes a reclamar os seus mortos e, por outro lado, mesmo com funerais apressados, vizinhos e amigos teriam dado conta de mais óbitos.
29 de julho de 2017 às 00:00

Enquanto escrevo este artigo, vai na praça pública uma algazarra medonha sobre o número de vítimas da tragédia de Pedrógão Grande. Parece que os números oficiais não estão certos ao afirmar que foram 64 vítimas. Mais uma que terá sido atropelada quando fugia do fogo. Posso estar enganado mas julgo que a verdade não andará muito longe dos números divulgados. Já teríamos ouvido familiares de outros infelizes a reclamar os seus mortos e, por outro lado, mesmo com funerais apressados, vizinhos e amigos teriam dado conta de mais óbitos. Porém, não descarto a possibilidade da contagem estar mal feita.

Os dois grandes protagonistas deste debate é uma criatura chamada Hugo Soares, um boy que agora foi promovido a presidente do grupo parlamentar do PSD e, do outro lado, o governo. A verdade é que não compreendo como a disputa político-partidária pode chegar a este nível de desrespeito, de verdadeira imundície moral, de hesitações próprias de gente sem rumo, nem orientação. Manipular tragédias é um território que só acrescenta sofrimento ao sofrimento. Que magoa ainda mais quem já está magoado. Para a coisa ainda ser de maior mau gosto, o Ministério Público meteu-se pelo meio a invocar o segredo de justiça para não revelar os nomes das vítimas, alegando que é um caso em investigação. Nada mais disparatado. Nenhuma lei, nenhum dispositivo legal pode determinar a recusa do direito ao nome de vítimas. Ainda por cima, vítimas mortais. Compreende-se que a investigação esteja em segredo de justiça mas incluir nomes de vítimas? É apenas acrescentar ruído ao ruído que vai por aí.

É pelo nome que se guarda a memória de quem faleceu. Fica gravado no coração daqueles que amavam o defunto, na memória dos outros que o estimavam, no nosso património colectivo de solidariedades. Não é por acaso que as lápides cemiteriais, com mais ou menos evocações, registem sempre o nome de quem ali está depositado. É a expressão vocal e escrita da nossa identidade. O nome é um património sem vínculo. O nome é cada uma de nós. Se continuarmos a viver numa sociedade civilizada, claro. Coisa que, por vezes, duvido.

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