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Olho que vê, mão que pilha

Num momento estamos sentadas num bar a beber Pisco Sours e a observar o ambiente, no momento seguinte ela pode fazer um disparate qualquer que muda o rumo da noite, e, quem sabe, o seu destino. É uma repentista nata...
03 de novembro de 2017 às 07:00
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Olho que vê, mão que pilha

Nem me apetecia sair naquela sexta-feira. As aulas tinham começado há pouco, os miúdos andavam excitados com a escola nova e eu exausta de dar conta do recado das três alminhas logo pelas sete da manhã com pequeno-almoço, mochilas completas com livros, cadernos, equipamentos desportivos e as lancheiras do costume.

Quem gosta de fritar hambúrgueres à hora de beber café e comer torradas com queijo fresco e mel que se acuse, porque não é o meu caso. Vida de mãe solteira é isto, uma pessoa nunca descansa, sobretudo quando o progenitor que contribuiu com metade dos seus genes para que as crianças viessem ao mundo desapareceu do mapa nacional e virtual há tanto tempo que nem sei se em tempos existiu. Tenho alguma dificuldade em lembrar-me que fui de facto casada com ele.

Não sei se é o tempo que apaga tudo, talvez seja a vida. É o que diz a Patrícia, que já tem os filhos criados. Enquanto tal incumbência não estava cumprida, contou sempre com o apoio do ex-marido, uma jóia de rapaz, Vasco de seu nome, a quem ele chama Vasquinho como se ele tivesse cinco anos e andasse na Sala dos Golfinhos com a minha mais nova.

Nunca percebi porque se separou do Vasquinho, ela alega que ele nunca foi a chama olímpica e que estar casada aborrecia-a tanto que temia morrer de tédio encarcerada na vidinha. A Patrícia não e dada a nada morno, para ela é sempre tudo ou nada, e quando é tudo, é sempre tudo muito. Apaixona-se com pouca facilidade, mas entusiasma-se de repente, como um atleta que está sempre na linha da partida. Num momento estamos sentadas num bar a beber Pisco Sours e a observar o ambiente, no momento seguinte ela pode fazer um disparate qualquer que muda o rumo da noite, e, quem sabe, o seu destino. É uma repentista nata, como a própria diz: "sou como a Raposa do Aquilino Ribeiro, olho que vê, mão que pilha".

Foi tudo muito rápido, como uma ofensiva militar de surpresa. Agarrou-me o braço e disse olha o DJ, que giro! Eu não achei o DJ nada de especial, mas como temos gostos diferentes nas roupas, nos carros e nos homens, disse-lhe que sim para reforçar o seu entusiasmo, longe de imaginar o que se passaria a seguir.

- Vou meter-me com ele.

- Como?

Olhou para o balcão. Como tinha pedido uma tosta mista, pegou no papel do bar que servia de individual e começou a dobra-lo de várias formas.

- O que estás a fazer?

- Um avião de papel.

- Para quê?

- Para enviar ao DJ.

- Só podes estar a brincar.

- Pois estou. Mas como sabes, levo as brincadeiras muito a sério.

Quando terminou a sua peça de origami ocidental, retocou o batom, muito vermelho, e pespegou um beijo numa das asas do avião.

- Espera aí que já volto.

Voltou dez segundos depois, sem o projétil ultraleve e com aquele sorriso que rato que comeu um queijo espetacular.

- Já está. Ele adorou. Daqui a dois minutos e avança, vai uma aposta?

Não passou um minuto. Foi tudo muito rápido. Quando dei por mim, tinham-me virado as costas. Voltei para casa a matutar na minha vida e na dela.

São as mulheres que escolhem os homens e o resto é conversa. A ver se no próximo fim-de-semana saímos outra vez, entretanto vou ao Google ver como se fazem aviões de papel e treinar em casa, antes que a vida me passe por cima.

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