Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas Dicionário do amor

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Opinião: s.f. Aquilo que mais é oferecido sem ser necessitado — na minha opinião, claro.
05 de fevereiro de 2018 às 16:51
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Opinião

E a sua mãezinha, como está?,

a senhora da pastelaria pergunta,

como foste morrer e deixar-me amputado de respostas, mãe?,

as mães servem para nos responder, pouco mais, e para serem amadas, obviamente,

amei-te como devia, mãe, amei, amei, amei?,

saio a correr dali para fora, o mundo prossegue sem a minha mãe dentro,

que sentido tem isto, alguém me explica?,

a senhora da pastelaria sente-te a falta,

ias para lá e rias à entrada, os vizinhos a passarem e a cumprimentarem-te,

junto a mim não quero tristezas,

e rias,

há sempre um motivo para rir, por mais que esteja escondido,

seria possível não gostar de ti, mãe?,

chegar a casa e tu não estás,

nunca se chega a casa quando se chega lá e o amor não está,

as casas são feitas de amor, não de paredes,

o teu quarto intocado,

o pai não lhe consegue mexer, nem eu lhe consigo mexer,

há-de ficar assim até haver uma coragem que nenhum de nós conheceu ainda,

quando nos morre uma mãe talvez nos morra mais de metade da coragem, pelo menos,

as tuas roupas,

eras tão vaidosa, saías para a rua sempre bem vestida,

Deus me livre de sair de casa mal preparada, meu filho, quando saímos temos de sair mesmo, sair sem medo, Deus me livre de não sair para a rua no meu melhor,

eu saio, mãe, agora saio, mãe, todos os dias saio para a rua sem ti, levo-te no interior da saudade, no interior da precisão,

na pastelaria, no café, no supermercado,

e a sua mãezinha, como está?,

não está, não estás, foste-te e em mim ficou a tua presença,

a dor é estarmos com alguém que já não está, não é?,

sentamo-nos à mesa, o pai chora, eu choro,

a tua mãe era a melhor cozinheira da História da Humanidade,

no mínimo da História da Humanidade, porque acredito mesmo que de todas as Histórias da História também, velhote,

tenho de cuidar de ti agora, vou fazer-te o viúvo mais feliz de sempre,

ou menos infeliz de sempre,

não existe felicidade depois de o amor de uma vida nos sair da vida enquanto ainda estamos vivos,

vivos é uma maneira de dizer, dificilmente se vive depois de a mulher da nossa vida nos deixar antes da nossa vida,

era, pai, a mãe era a melhor cozinheira que o mundo conheceu, que todos os mundos conheceram, fechava-se na cozinha e em meia hora tinha um banquete pronto,

deixa que eu ajudo-te,

e não deixava,

pensas que estou velha ou quê?,

queria poupar-te, mãe, queria reservar-te para as coisas boas da vida, o cinema,

adoravas filmes de acção,

odeio estar parada a olhar para um ecrã parado, tenho de me mexer nem que seja por dentro,

os passeios com os meus filhos,

os meus netos têm de ser gente antes de serem espertos, há tantas pessoas inteligentes que valem tão pouco,

e passavas horas a ensinar-lhes o conteúdo da humanidade,

uma vez ficaste uma tarde a ensiná-los a respeitar, foste a um bairro pobre, puseste-os a falar com os amigos que tinhas por lá, deste-lhes amizades com crianças que não tinham nada e eram tão felizes,

viram como transformaram o que não têm em tudo o que os faz ir mais longe?,

eles chegaram a casa e puseram a mesa, contaram-nos tudo, riram-se, choraram quando se lembraram do momento em que saíram de lá e deixaram os novos amigos ali, numa espécie de barraca,

quando for grande quero ser gente,

disse um,

quando for grande quero amar,

disse outro,

foi isso que me ensinaste, por isso aqui estou, agora, junto a ti, junto ao pai, junto aos que amo, a celebrar a tua existência mesmo que não esteja cá o teu corpo,

e a sua mãezinha, como está?,

e eu respondo que está bem, obrigado,

está no nosso coração,

e é feliz, como não?

 

Opinião: s.f. Aquilo que toda a gente tem a obrigação de dar — e ao mesmo tempo aquilo que toda a gente tem a obrigação de não dar.

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