Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas Dicionário do amor

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Ópio

Ópio: s.m. Aquilo que serve para salvar os desapaixonados do tédio; só quem não ama se entedia.
15 de fevereiro de 2018 às 17:23
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Ópio

Estou farta disto. Este homem. Sempre este homem. Tão bom homem. Tão boa pessoa. E esta casa. Tão boazinha. E estou farta disto. E este miúdo. É o meu filho. Amo-o mais do que tudo. Morria por ele, aposto. Mas estou farta disto. Queria uma casa maior, um trabalho melhor, uma vida extraordinária. Queria a piscina, o carro de topo, o emprego multimilionário. E tenho isto. Uma casa banal, um emprego banal. Uma vida sem pitada de magia dentro.

— Está bom, amor, está?

Está. A comida está boa. E não passa disso. O máximo que consigo é o bom. E queria tanto o excelente, o magnífico, o maravilhoso, o espectacular. Resta-me isto, apenas isto, sempre isto: uma família vulgar numa casa vulgar, a jantar uma comida vulgar com palavras vulgares.

— E o teu dia: como foi?

Sim: o meu dia também foi isso: vulgar. Estou farta disto. Tão farta disto.

 

Estás estranha. Olhas-me distante, olhas-me tantas vezes distante, como se estivesse aqui sem estar. És a mulher mais absolutamente perfeita do Planeta todo, tenho a certeza disso muito mais do que quando nos casámos. Lembras-te? A igreja inteira para te ver passar, o teu vestido a cair-te como se a magia toda estivesse em ti e ele estivesse ali para te acompanhar. E estava. Ele só estava ali para te acompanhar, como eu às vezes penso que só estou aqui para te acompanhar. És a estrela da minha vida, a estrela da vida do nosso filho. Já olhaste bem para ele hoje? Olha-o. Eu olho-o todos os dias para o amar todos os dias, para lhe ver a maneira como a criança se torna em pessoa grande, mesmo que ele já seja, garanto-te, uma grande pessoa. Ontem assumiu um erro de um amigo só para ele não ser expulso, e foi ele expulso, claro. Mas ele podia, não estava quase a chumbar como o amigo: salvou-lhe a vida, entendes?

— Está bom, amor, está?

Espero que sim. Sei que te incomoda eu ainda estar em casa, sem trabalho, sem salário, mas juro por Deus que ando à procura. Enviei centenas, mesmo centenas, acredita, de currículos só esta tarde. Ontem passei a manhã a bater à porta das empresas da toda a cidade. Um dia chamam-me. Um dia respondem-me e serei um homem outra vez, o homem que tu queres, que eu bem sei que não gostas que eu esteja aqui, parado, à tua espera, mas a verdade é que vou estar sempre aqui parado à tua espera por mais empregos que tenha, por mais trabalhos que tenha. Vou ser sempre aquele que está sempre aqui à tua espera, é esse o sentido da minha vida, e da do teu filho também, que fique isso registado desde já.

— Como foi o teu dia hoje?

Maravilhoso, como todos os dias desde o dia em que te conheci, garanto-te, e amo-te, que isso fique registado desde já.

Sou tão feliz. Tão feliz. Os meus pais são tão lindos. São mesmo. Eu sei que todas as crianças e todos os filhos devem dizer isto. Mas eu sou mesmo feliz. E os meus pais são mesmo lindos. São mais lindos do que a Teresa, a menina que está à minha frente nas aulas de Ciências e que é de certeza a mulher mais bonita da escola, e suspeito bem que do mundo inteiro, pelo menos o mundo inteiro sem a minha mãe. A minha mãe não é deste mundo. Sorri pouco mas quando sorri a vida toda parece que se torna fácil. Sabem como é? Ela sorri e tudo parece fácil. Gostava que sorrisse mais vezes, mas ela lá terá os seus motivos, é assim que se diz, não é? Os adultos são complicados. O pai às vezes explica-me essas coisas sérias e tal, mas às tantas eu penso no sorriso da minha mãe e tudo passa.

— Está bom, amor, está?

Está sempre, o pai cozinha bem, e está apaixonado por nós. Não é possível não notar. Passa o dia todo a preparar o final do dia, quando me vai buscar à escola e quando a minha mãe chega a casa. É o pai mais espetacular de todo o sempre. Um daqueles pais-heróis que eu lia nas histórias dos mais novos. Sim, que eu agora já sou grande e já leio coisas de grande. Num dos livros que eu li até havia um beijo de língua, vejam só. Mas não disse aos meus pais, não quero que pensem que já sou crescido, percebem? Ainda gosto que me vejam como o menino deles, acho que isso os une, estão a ver? Eles gostam tanto um do outro como eu gosto deles, aposto. Só que às vezes há coisas que acontecem que podem magoar, coisas de adultos, sabem? Acho que já vos falei delas, não já? Mas como vos dizia sou tão feliz. Há uma magia qualquer nesta casa, nesta vida. A minha mãe é uma criatura mágica e se sorrisse mais vezes era ainda mais mágica. O meu pai é uma criatura mágica e se arranjasse um emprego era ainda mais mágico. No fundo eu já compreendi que há sempre qualquer coisa que falta para a magia ser completa nesta nossa vida, mas se calhar é mesmo assim que a magia acontece: quando por mais magia que nos falte conseguimos sempre ver magia naquilo que não nos falta.

— Como foi o teu dia hoje?

O melhor de sempre até agora, mas de certeza que muito pior do que o dia de amanhã, meus pais, vejam lá se dão um beijo um ao outro e outro a mim para ficar ainda melhor, sim?

Ópio: s.m. Meio que os fracos usam para encontrarem uma felicidade passageira, passe a redundância. Só o amor é um vício incurável.

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