Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas como nós

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Os palhaços também dormem

Aquele sorriso cola-se ao meu, enquanto vou dizendo sempre mais disparates e quando damos por isso estamos os dois enlaçados nas memórias de pai e filha que sempre se amaram.
05 de janeiro de 2018 às 14:44
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Os palhaços também dormem

- Lembro-me muitas vezes do dia em que nasceste, vinhas toda direitinha, como se tivesse sido de cesariana – diz o meu pai deitado na cama articulada, a sua residência mais permanente. Às vezes consegue caminhar sem andarilho, cada passo é uma viagem e cada viagem a outra divisão é uma odisseia. Existe também uma cadeira de rodas onde passa algumas horas por dia, mas fica tão pequeno, como se o fundo o engolisse, que às vezes entro no quarto e nem o vejo.

O meu pai vive tapado por mantas e por memórias, a doença isolou-o do mundo, perdeu a boleia dos computadores e o passaporte da internet. Em vez disso ouve música, vê documentários e filmes, canais noticiosos ingleses e assiste a concertos e a óperas no Mezzo.

- Quando já não consigo ler, conto histórias a mim próprio – desabafa, com o olhar distante dos doentes crónicos. Nem sempre é fácil apanhar esse olhar esquecido da vida, mas como falhei uma vocação de comediante de ocasião, consigo quase sempre fazer magia: basta fixar o olhar nas duas luzes verdes durante alguns segundos e sorrir como se estivesse a ser filmada para uma campanha de pasta dentífrica para resgatar o sorriso mais querido de todos os homens do mundo.

Foi um homem tão bonito, o meu pai. Parecia um ator de cinema, entre o James Stewart e o Cary Grant. Alto, magro, sempre bem penteado, ainda hoje tem cabelo, os brancos não o visitaram, mas está cansado da doença, o corpo vai acumulando a fadiga crónica, a imobilidade tomou-lhe os dias, pernas e braços são agora finas estacas de osso cobertas de pele. Mas aquele sorriso desperta a luz dos faróis verdes, e assim que inicia o seu desenho de meia lua pela cara acima, não mais se cansa de executar o seu próprio desenho e nele se sustém como um equilibrista que atravessa o arame sem vara nem rede e no entanto, sem nunca sentir a vertigem da queda. Aquele sorriso cola-se ao meu, enquanto vou dizendo sempre mais disparates e quando damos por isso estamos os dois enlaçados nas memórias de pai e filha que sempre se amaram.

O meu pai a dar-me a mão para atravessar a estrada, o meu pai a sentar-me no seu colo para me fazer ouvir 'A Dança da Horas', de Ponchielli, quando eu sonhava ser bailarina, o meu pai a limpar-me as lágrimas da minha primeira decepção amorosa, o meu pai a dar-me o braço para me levar ao altar, o meu pai a passear na quinta enquanto mostrava e explicava as constelações aos filhos e netos, o meu pai a levar-me ao Museu da Marinha e ao Planetário, a tirar-me as rodas da bicicletas e a dizer, "tu consegues, tu consegues".

O meu pai a dançar a valsa no meu baile de debute – é verdade, nos anos 90 as meninas ainda debutavam em Lisboa – o meu pai a explicar-me como funciona o mecanismo de um relógio, sabe o nome de todas as peças, quem é que sabe o nome de todas as peças de um relógio sem ser um relojoeiro? O meu pai, claro, o Google privado de toda a família 'avant la lettre', o homem de fato e gravata que guiava carros desportivos como se fosse o Fitipaldi, que abraçava todos os dias a minha mãe, que lhe comprava flores e presentes porque sim, que lhe tirava o guardanapo à mesa na brincadeira, com quem dançava tango com paixão e entrega nas noites de festa.

Há tantas coisas importantes na vida que não podemos escolher, a família onde nascemos é uma delas, mas se Deus ou o Destino me dessem essa possibilidade, escolheria de novo o meu pai, por ser tão sábio, tão querido, tão sensível, tão atento, tão inteligente, tão generoso, tão divertido, tão subtil, tão belo.

Por detrás dos óculos de massa pesada brilham os faróis verdes, tão parecidos com os meus e dizem aqueles que nos conhecem de perto que o sorriso é igual. Talvez por isso quando sorrimos os dois no sentimos um só, como uma fita de seda feita de duas entrelaçadas de amor e carinho nos seus estados mais puros. Depois eu falo de assuntos sérios, o meu pai dá a sua opinião ponderada e instala-se-me no corpo um cansaço repentino de não poder ajudar mais quem tanto me ajudou sempre ao longo da vida. Dou-lhe dez ou vinte beijos na testa, enquanto agarro uma das suas mãos, e digo:

- Vou para casa, tive um dia longo e amanhã vai ser outra vez a correr, preciso de descansar.

O meu pai responde com o sorriso que paira como uma andorinha feliz e livre:

- Vai filha, os palhaços também dormem.

Sempre fui a mais divertida, a mais irreverente, a mais fora da caixa, o meu pai nunca me cobrou isso. Conseguia sempre desarmá-lo, acredito que vou conseguir sempre. Aquele sorriso adormece e acorda comigo, é um sopro de vida no meu eterno coração de filha mais nova que queria ser bailarina e depois escritora e depois mãe, e que será sempre a filha querida de seu pai.

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