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Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Para ti Rita B

Sonho mais com lugares que já conheço do que com destinos que nunca visitei. Não tenho talento para esquecer. Quem me dera, mas nunca tive.
08 de julho de 2017 às 13:37
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Para ti Rita B
Foto: Getty Images

Fecho os olhos e vejo o recreio do Colégio de São José com os seus baloiços, escorregas e recantos, as saias da Madre Patrocínio com o terço de contas de madeira dançar em frente aos meus olhos, os aparelhos no ginásio imenso com o palco ao fundo, oiço a voz terrível da Cló, a terrífica professora de ginástica de quem ninguém gostava. Fecho os olhos e vejo o seu fato de treino azul-escuro brilhante, a cara feia e rude, o cabelo curto, cinzento e crespo. Nunca soube se se chamava Clotilde, a minha cabeça ouvia Cló e eu pensava em pão-de-ló, aquele com recheio de doce de ovos de Alfeizerão.

Não visito o meu colégio da infância há mais de 20 anos e lembro-me de tudo: do refeitório com duas portas cheio de janelas, do xadrez estampado nos termos, dos caracóis da Rita B, das suas calças encarnadas à boca-de-sino com bolinhas brancas em estampado azul nos machos em baixo. A Rita tinha uma mãe moderna e um pai galã, de melena e bigode, olhar sedutor e penetrante, e era a miúda mais popular do meu ano. Hoje somos amigas no Facebook e ela sabe que vive no meu coração para sempre.

As memórias são isto, monstros bons e maus que te invadem os dias quando não te consegues concentrar no presente.

Sinto que estou cada dia melhor, vais-me saindo debaixo da pele, o tempo talvez consiga dar um jeito a isto. A ciência aponta o número sete para a renovação celular total, portanto se estiveres sete anos sem me abraçar, talvez eu seja a mesma, apenas com células diferentes, o que não sei se fará de mim a mesma pessoa ou não, porque nunca nos sentimos a mudar, só quem está de fora é que vê, e mesmo assim é melhor que esteja longe e que só nos veja de vez em quando.

Vejo-te sempre ao longe e sempre exausto, a barba cada vez mais branca, mas sei que se entrasses pela porta para me agarrar eu ia ver-te exactamente como há três anos, quando nunca estavas cansado, quando jantávamos fora e nos sentávamos em bancos de jardim. Na verdade o tempo nunca me assustou, acredito que é muito mais cíclico do que linear, as coisas e as pessoas vão e voltam, é a teoria do boomerang, semeia e colherás, nada se perde, tudo se transforma e renova, a não ser quando a morte te leva a tua metade num tempo em que sentes que tinham uma vida inteira para viver. Esta história hoje não é para ti mas para a Rita B, que ainda tem caracóis e com certeza se lembra de mim magra e malandra, de óculos graduados, aparelhos nos dentes e uma vontade incontrolável de inventar histórias.

Tenho a certeza que também se lembra daquela terça-feira em que levei um maço de SG Mentol e pus a turma inteira da segunda classe a fumar na casa de banho. Éramos tão inexperientes que nem sabíamos que era preciso inalar o cigarro para o acender.

Já não me lembro se fui suspensa, talvez a Rita se lembre, tal como não esqueceu o Senhor António, mago e careca, que guiava a camioneta do colégio, beije às riscas verdes. Quando passámos pela mata de Monsanto, não percebíamos o que faziam à beira da estrada aquelas mulheres desgrenhadas, empoleiradas em saltos altos e saias curtas, agarradas à incerteza e a uma carteira de mão barata e gasta como elas, onde talvez guardassem lenços de papel, preservativos e uma arma branca, caso os clientes demonstrassem outras vontades para lá das lúdicas da praxe.

Às vezes acho que o tempo não leva tudo, que é ao contrário: o tempo é um disco rígido sem limite de terabites e a arte de viver está em sabe arrumar as memórias como se tivesses um Ph.D. em Arquivologia. Saber arrumar, sem peso nem culpa, guardar o que vale a pena e mandar para o lixo o que se transformou em lixo.

Sinto inveja das pessoas que possuem coração e memória de hotel, que esquecem com facilidade a paixão, o perfume a laranjas, o toque suave da pele, os beijos imbatíveis em sabor e prazer, as palavras dos outros. Não sei se és dessas pessoas, mas tenho a certeza que a Rita B não é, e por isso hoje as minha palavras vão para ela, onde quer que esteja.

Espero que já consiga estar no presente, porque o passado é um país estranho onde não vive ninguém, e o futuro a Deus pertence.

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