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Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas Dicionário do amor

Notícia

Pedro Chagas Freitas: Lei

Lei: s.f. A grande adversária do amor no que à cegueira diz respeito; ainda assim, entre a cegueira do amor e a cegueira da lei, prefere a primeira: o amor é cego mas também abre tanto os olhos.
15 de maio de 2017 às 06:00
Pedro Chagas Freitas: Lei

(Manual de amor para totós)

 "- Queres um conselho?

- Não, já tenho muitos e não os uso." 

  1.       O grande poder é recusar.

É esse o poder que nunca deves perder na vida – que é apenas, felizmente todos o sabemos, outra maneira de dizer amor. Quando não é o que queres, quando não sentes o que queres sentir, quando não ouves o que queres ouvir, quando não te dá o que queres receber (o que te julgas absolutamente merecedor de receber), então não temas dizer que não. Há vidas que se perderam porque um não ficou por dizer, há também amores que se estenderam mesmo quando não eram amores nenhuns – e que assim impediram os amores de verdade de aparecerem e de florescerem. Se não sabes dizer que não então não sabes amar, não. Nascemos com a faculdade de recusar o que não nos encanta, o que não nos envolve, o que não nos arrebata. Nasceste com a faculdade de escolher. Não a desperdices só porque é mais fácil, só porque é mais seguro, só porque está garantido. Se há algo que o amor não é, nunca é, é seguro; se há algo que o amor não oferece, nunca oferece, é garantias. E é também por isso, por te tirar de ti e te fazer estar vivo, alerta, sempre atento, que o amor é o amor e nada se lhe compara. Quando te quiserem impingir um sub-amor recusa. Não existe amor pela metade. Se não é inteiro – e se não te faz sentir inteiro – não é amor. Se não vale por tudo é tudo menos amor.

"- E sobre o pescoço: cachecol ou lenço?

- Cérebro."  

  1.       Alguns amores – e algumas pessoas – são como algum pão: falta-lhes miolo.

O amor de qualidade é como o pão de qualidade: tem de ter miolo. É claro que sabe bem – sabe tão bem - o exterior, aquela camada de pele que nos excita, que nos dá adrenalina, que nos dá tesão. Mas essa é a parte de fora porque efectivamente é a parte de fora: é aquela que mais depressa fica de fora. Quando chega a queda não é a beleza que nos agarra – é o que sobra dela. O amor é o que sobra da beleza – e é assim a própria beleza toda. Amamos o belo mas o belo vai amadurecendo em nós. Amamos o que nos faz sentir belos, o que sabemos que nos vai acompanhar. Amamos o que nos apaixona, e raramente o que nos apaixona depende dos olhos. Os olhos servem para amar, mas o resto serve para solidificar. Para enraizar, para edificar. Não há amor sem substância. Existe, no limite, uma cumplicidade com prazer incluído. Mas o prazer só físico é só finito, como tudo o que só físico é só finito. Só o que nos completa não acaba. Ama-se o que nos faz ficar mais belos -  e isto, parecendo que não, nada tem que ver com corpo ou pele.  Ama o que te faz olhar com outros olhos, o que te faz amar com outros olhos. Ama o que se transforma em ti. Ama o que te transforma em ti.

 "- Acabou tudo entre nós.

- Quando?

- Antes de começar." 

  1.       Só deixa de ser teu o que nunca foi teu.

Se acabou nunca começou. O amor é eterno e não é apenas enquanto dura: é belo também porque dura. Amar é ceder, amar é conceder, amar é dobrar. Se amo a cor preta e a pessoa que eu amo ama a cor branca eu amarei até a cor branca se for necessário, e a pessoa que eu amo vai amar a cor preta se for necessário, e no fim das contas estamos os dois a amar o que o outro ama mesmo que no começo amássemos o contrário do que o outro ama. É assim – e também com o corpo, mas dessa forma todos já sabem como é – que se faz amor. Fazer amor é conceder amor, é dar amor. É saber que nem sempre vai ser como queríamos, saber que ambos vamos falhar, que ambos vamos dizer o que não devíamos, fazer o que não devíamos, decidir o que não devíamos – e que mesmo assim, no final do dia, tudo o que dissemos, fizemos ou decidimos se pode diluir no interior do que somos. O amor dissolve as diferenças, queima-as se for necessário. E todas as diferenças vão bem ao lume quando se ama. Se acabou porque não dava, porque havia incompatibilidade (que palavra tão chata, tão técnica, tão fria, para se falar de amor), então nunca na verdade começou. Nunca se perde um amor que nunca se ganhou. No amor tudo o que se faz é ganhar, e quando não é não é amor.

Lei: s.f. Aquilo que tem prevalência sobre tudo – excepto sobre o amor; no amor não há juízes nem advogados – apenas vítimas indefesas, e ainda assim felizes. No amor não há culpados, só inocentes.

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