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Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Por um triz

Beatriz, o meu sétimo céu, que não é de éter nem de loiça como canta a Ana Carolina, mas que é loucura e que talvez chore num quarto de hotel, foi a minha maior aventura e o meu maior desastre. Com ela aprendi que não há limites e como é perigoso ser feliz.
16 de junho de 2017 às 07:00
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Por um triz

Uma ilha é sempre um sonho para quem a vista e uma desolação para quem lá fica. Mesmo na ilha onde nasceu o conceito moderno europeu de amor livre, porque esse, o amor no seu estado selvagem e puro, sempre existiu nos corações mais apaixonados. Foste tu quem me citaste José Agostinho Batista , 'tudo o que existe, só existe por dentro.'

A ilha é Ibiza , a quem os locais chamam Eivissa. As praias são de areia branca e muito fina e a água é tépida e azul-turquesa. Refúgio dos hippies de todo o mundo, transformou-se num destino turístico quase obrigatório para quem gosta da boa vida moderna, considerando que a chamada boa vida moderna inclui restaurantes onde na mesa ao lado está sentado o Karl Lagerfield, discotecas animadas por DJ famosos com direito a jacto próprio, roupas pretensamente descontraídas, muito álcool e muita droga.

Mas existe outra Ibiza, a dos lugares tranquilos, dos hotéis antigos, dos passeios pela muralha imensa que enfeita a localidade com dignidade e altivez, lançando sobre o ruído e bulício do porto a sua calma ancestral. 

Foi para esta Ibiza que a Beatriz fugiu. Beatriz, a melhor aluna do meu ano, a mais atrevida, a que namoriscou quem lhe apeteceu e se casou com o melhor aluno do ano acima. Beatriz, a quem os anos não pesam nas ancas nem nos traços, que me abria a porta com as suas túnicas bordadas e as suas botas claras e leves de cano curto, onde dançavam pelo longo corredor as suas pernas torneadas e bronzeadas, o seu sorriso malandro e a sua gargalhada fresca e cheia. 

Beatriz, o meu sétimo céu, que não é de éter nem de loiça como canta a Ana Carolina, mas que é loucura e que talvez chore num quarto de hotel, foi a minha maior aventura e o meu maior desastre. Com ela aprendi que não há limites e como é perigoso ser feliz. 

Podíamos ter ficado juntos? Talvez, se a vida não se tivesse metido pelo meio, se um arcanjo passasse com um chapéu, como na canção que oiço com fones, enquanto faço alongamentos sob as sombras apaziguadoras no jardim da Gulbenkian onde vou correr pela manhã enquanto Lisboa dorme.

Beatriz, que me ensinaste que que para sempre é sempre por um triz, borboleta inquieta com asas de mil cores e coração de mil palavras, que voas agora sobre a ilha dos hippies, o que fazes nesse lugar, tu que quase nunca bebes álcool nem te interessas por drogas?

Beatriz que o tempo irá cristalizar em forma de um sonho perdido, fazes-me falta. Porque é que tantas vezes o que sonhamos que é para sempre é quase sempre por um triz? Quem me dera ter as minhas e as tuas respostas 

Mas sou um ilha no meio do jardim, em meu redor brincam crianças felizes, os meus fones isolam -me do resto do mundo para onde regresso, apanhado pelo vida que se meteu no meio .

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