Margarida Rebelo Pinto
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Quarta-feira de cinzas

Há momentos na vida em que pensas que o mundo à tua volta se vai transformar num desastre natural que te pode tirar de casa para sempre. Uma força superior e devastadora vai levar-te pelos ares como o ciclone fez à casa da Dorothy. E, no fim da tua história, só tens solidão, destruição e caos.
14 de julho de 2017 às 17:07
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Quarta-feira de cinzas

Foi numa quarta-feira que o impensável aconteceu. Uma desconhecida tocou à porta a seguir ao almoço. Devia conhecer o horário da minha mãe no Liceu Pedro Nunes onde deu aulas até se reformar. Aliás, conhecia tudo sobre a nossa vida. Eu estava em casa a estudar para um teste de matemática, fui eu quem lhe abriu a porta.

- Boa tarde menina, é a Luísa, não é? A sua mãezinha está?

Reparei no vestido curto, estampado de mau gosto, e nos sapatos de salto alto. E lembro-me do perfume, horrível, muito intenso, com cheiro a especiarias e madeira misturado com jasmim. Pensei que era a mãe de um miúdo que precisava de explicações de Português. A flausina entrou para a sala e quando a minha mãe entrou, pediu para falar com ela a sós.

Não se deve ter demorado mais de meia hora. Não sei ao certo, porque estava atrapalhada nas minhas equações, perdi a noção do tempo, que é que nos acontece sempre que estamos muito felizes, ou muito concentrados. A um dado momento ouvi um estrondo, era a porta da rua. A minha mãe fechou-se no quarto e não voltou a sair de lá o resto da tarde. A Esmeralda bateu à porta várias vezes, mas a minha mãe disse que estava com dores de cabeça e que precisava de descansar. No final da tarde, depois de a Esmeralda ter deixado a mesa posta na casa de jantar para os três como sempre fazia, por ordem expressa da minha mãe, apesar do meu pai quase nunca jantar, fui ao quero dos meus pais. A minha mãe estava irreconhecível. Deve ter chorado durante mais de duas horas. O cabelo encontrava-se num desalinho inédito e as rugas em redor dos olhos pareciam sulcos marcados a bisturi.

- O teu pai tem uma amante. Há mais de dez anos. É a lambisgoia ordinária que veio cá hoje. Chama-se Lurdes. E têm um filho. Um rapaz. Chama-se Luís Miguel, como ele. Igual ao teu pai. A mulher mostrou-me as fotografias. E moram aqui mesmo em Campo de Ourique, do outro lado do bairro. O teu pai tem outra família. Nunca foi bom jogador de bridge, andou todos estes anos a enganar-nos.

Há momentos na vida em que pensas que o mundo à tua volta se vai transformar num desastre natural que te pode tirar de casa para sempre. Como se tudo se erguesse e rodopiasse: os móveis, as cortinas, as cadeiras. Estás no centro do caos e não adianta nem fugir, nem ficar imóvel. Uma força superior e devastadora vai levar-te pelos ares como o ciclone fez à casa da Dorothy. Mas o caminho que te espera não é uma estrada de tijolos amarelos, nem tens como companhia um leão sem coragem, um homem de lata sem coração e um espantalho sem cabeça. O teu fiel amigo Totó não ladra a estranhos nem te protege das fadas más. E se pegares num balde de água para neutralizar a Bruxa Má do Oeste, ela não encolhe. Pelo contrário. Vai aumentando mais e mais a cada dia que passa. No fim da tua história só tens solidão, destruição e caos. Quando regressas à realidade, o que tens à tua frente é um muro do tamanho da muralha da china.

Foi o que senti nesse dia. E é o que sinto cada vez que penso que não vais voltar.

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