Margarida Rebelo Pinto
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Sem olhar para trás

Tenho medo de passar a rebentação, não sei mergulhar por debaixo das coisas, nunca soube, e o que me acontece se depois não conseguir voltar?
09 de junho de 2017 às 07:00
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Sem olhar para trás

Ela estava sempre a sorrir. Lembro-me disso muito bem. Sorria com os olhos, com as mãos, com o corpo todo. E sempre que nos separávamos, ficava com cara de ponto de interrogação, como quem pergunta, quando voltamos a estar juntos ?

Parece-me que tudo isto já foi há muito tempo, meses, talvez anos, mas também pode ter sido apenas há algumas semanas. Ou noutra vida. 

Ao longo da vida vivemos várias, não é? A infância das avós meigas e dos pomares perfumados. A adolescência das bebedeiras inconsequentes e do sexo atrapalhado. A vida de adulto, o fim do curso e a conquista do primeiro emprego, a vida de casado com a rotina, as crianças, as papas e as fraldas, a vida de divorciado quando decidimos que queremos mudar de vida. Nem sempre resultam todas estas vidas, por isso saltamos de umas para as outras, às vezes voltamos atrás, outras vezes, nunca mais olhamos para trás. 

Foi o que fiz. Fiz tudo até conseguir ficar parado no tempo e no espaço, uma sala secreta dentro da minha cabeça onde tudo se desliga, até o coração. 

Na verdade pouco importam o tempo e o espaço, já que a imagem das coisas é sempre mais forte do que as próprias coisas. Guardamos os perfumes, o toque, os beijos, os dois sinais do lado esquerdo do peito, a cor do verniz, o toque de seda dos caracóis despenteados. E o riso claro, as mãos irrequietas, os dias de sol passados na casa de praia sem nunca pôr os pés na areia. 

A Carrapateira é um lugar lindo, selvagem e sossegado, longe de tudo como compete aos ninhos do amor transgressores . Fui tão feliz lá que nunca mais quis voltar.  Lembro o quarto branco imaculado, com apenas uma parede azul, as redes no alpendre, as saladas cheias de imaginação e de amor, as sestas debaixo das oliveiras numa cama de ferro comprada num lugar de velharias à beira da estrada, os dois enroscados em conforto e prazer, uma paz que a vida levou e o tempo apagou. 

Quando lhe perguntava se não queria ir à praia, a minha amada que gostava de passear à beira-mar mas quase nunca mergulhava, respondeu: 

- Tenho medo de passar a rebentação, não sei mergulhar por debaixo das coisas, nunca soube, e o que me acontece se depois não conseguir voltar ?

Não sei quando a vi a sorrir a última vez, quando senti o seu coração impaciente a bater contra o meu. Cansei-me de chocar de frente com a vida por causa dela e de a sentir a invadir-me como uma onda imensa que parecia nunca ter fim. Não sei se o tempo resolve os mistérios da vida, acho que não, parece que só agudiza a solidão e o desentendimento, só sei que não quero voltar à Carrapateira, ao quarto imaculado enfeitado a azul, à cama de ferro onde fomos um e uno. 

Quem sabe numa outra vida, as ondas me levem de novo aquele lugar onde fui inteiro e feliz. Ou talvez a minha amada, cansada de me esperar, encontre outro ninho nos braços de outro amor, e nunca mais olhe para trás. 

Nunca sabemos até quando vivemos nem quantas vidas já gastámos, e esse é um dos maiores mistérios da condição humana, frágeis seres de existência errática, na busca de uma paz possível, a meio caminho entre a realidade e o sonho, o desejo e o dever, a razão e o coração.

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