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Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Solistício de verão

No dia mais feliz do ano acho que sou tão feliz em Belém como na Sardenha. E nem sequer tenho de apanhar nenhum avião. Afinal, a felicidade nunca está num lugar, está sempre ou na cabeça ou no coração. E se estiver nos dois ao mesmo tempo, então é o pleno.
23 de junho de 2017 às 07:00
Solistício de verão
- Não se porquê, mas sou sempre feliz neste dia - disseste-me no final do jantar, ameijoas e percebes, jaquinzinhos e mousse, tudo bem regado a Planalto, que é aquele branco de valor seguro que nunca falha e cai sempre bem.

Também me estavas a cair bem na conversa, com o teu sorriso aberto e a tua camisa branca. Sempre gostei de te ver de fato escuro e de camisa branca, o cabelo curto e a barba aparada, acho que a partir dos 40 os homens devem andar quase sempre assim, fica-lhes bem a sobriedade, dá-lhes estilo, e às mulheres dá segurança.

Depois dos 40 já não temos paciência para tipos vestidos à putos, com a barba por fazer, o cabelo comprido, as calças de ganga largas e a t-shirts coçadas. Ficam com ar de mitras, ou de trolhas, e nenhuma mulher no seu perfeito juízo ambiciona a tal. Sempres foste giro, quando te conheci há uns anos já não estavas nada mal, mas parece que a idade cai bem aos homens que se fazem senhores, embora o bom caráter não se compre como um par de sapatos italianos. Personalidade e caráter não te faltam e uma coleção de namoradas também não.

Desde que te conheço já vi desfilarem quatro oficiais, porque das outras não reza a história, as aventuras das viagens, do acaso e das saídas tardias que a teu bom senso guarda na gaveta das mulheres esquecíveis.

Ao longo do jantar ainda tentaste agarrar-me a mão, mas em vez de a recolher, dei-te uma palmada e disse menos, e tu riste da minha atitude. Também te riste quando pus os óculos para escolher a sobremesa, chamaste-me professorinha e dobrei a língua para não te dizer tudo o que me apetecia ensinar-te se fosse tua namorada.

- Nunca me saíste da cabeça, és uma história mal resolvida. Há pessoas que passam na nossa vida e há outras que ficam. Nunca me esqueci de ti, depois de todos estes anos. Não te respondi porque não sei se foram dois ou quatro, o tempo nãos abe nada, o tempo não tem razão, lá diz o Jorge Palma e se alguém sabe dos assuntos do amor é com certeza ele. O sol já tinha posto, o rio demorou a escurecer, como se tivesse acumulado na superfície das águas toda a luz de muitos dias.

- Então e tu?

Podia dizer-te que o meu coração ainda estava mal colado, mas como sempre achaste que eu era uma pessoa forte, respondi:

- Eu estou ótima.

- E porque não tens ninguém?

- Porque não quero um esquema, um caso, uma aventura, um caminho sem saída, um namorado iô-iô, um sub-produto de uma relação. Se vier alguém, que seja para acrescentar valor. Se é para me cansar, de desgastar e me chatear, então o melhor é ficar quieto.

- Tu sabes que eu não vou ficar quieto, pois não?

- Vais fazer o que eu te disser para fazer, porque são as mulheres que mandam.

- E nós obedecemos.

E sorriste outra vez.

- Queres ir à Sardenha comigo? Água quente e cristalina, paisagens lindas, restaurantes e hotéis ótimos, um sossego que nem imaginas… já foste.

Nunca fui à Sardenha, toda a gente diz que é lindo. Penso duas vezes no assunto, e depois penso outra vez. E se eu disser que sim? E se me deixar ir e for feliz? E se o feitiço se quebrar a conseguir voltar a mim?

- Já estás a sorrir, isso quer dizer que sim?

Fiquei calada a olhar para o rio. Lisboa está cada vez mais bonita. No dia mais feliz do ano acho que sou tão feliz em Belém como na Sardenha. E nem sequer tenho de apanhar nenhum avião.

Afinal, a felicidade nunca está num lugar, está sempre ou na cabeça ou no coração. E se estiver nos dois ao mesmo tempo, então é o pleno.

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