Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Um belo exemplar

Tu eras o miúdo mais esperto do ano, não necessariamente o mais brilhante nas notas das pautas. Aos 19 anos já sabias que a vida nunca se aprende na universidade e tinhas sempre mais que fazer. As miúdas ficavam loucas por ti.
12 de janeiro de 2018 às 10:02
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Um belo exemplar

Lembras-te do baile de debute em Sintra? Levei o vestido da tua mãe. Era lindo, tinha o decote em barco, todo bordado, parecia feito à medida para mim. Muito mais vistoso do que o do meu casamento, no qual também estavas presente, mas não foi contigo que dancei a segunda valsa.

No debute e no casamento dancei com o meu pai, como manda o figurino. A minha mãe deu-te aulas de valsa no sexto andar em Benfica. Era um apartamento que juntava dois, de um lado os quartos e a cozinha, do outro, a sala de estar e a de jantar, ligados por um corredor que parecia imenso quando era miúda. Dois mundos separados, o mundo do quotidiano e o mundo das festas. Era assim em muitos apartamentos antes da revolução dos cravos.

O meu pai dançava com a leveza do Nureyev e tu com o peso de um hipopótamo. Os teus pés arrastavam-se como se estivessem presos ao centro da terra por uma gravidade excessiva. Eu ria-me de ti, também com uma alegria excessiva, porque eras sempre tu quem se ria de mim, do meu andar incerto, da minha magreza de raio X, do meu olho direita vagamente estrábico, da minha expressão perplexa antes de conseguir formular uma resposta à altura das tuas provocações constantes, da minha falta de jeito para ter boas notas em Direito, do meu romantismo compulsivo.

Tu eras o miúdo mais esperto do ano, não necessariamente o mais brilhante nas notas das pautas. Aos 19 anos já sabias que a vida nunca se aprende na universidade e tinhas sempre mais que fazer. As miúdas ficavam loucas por ti, a tua conversa desconcertava-lhes sossego. Sabias toureá-las com grande estilo e afición, talvez fosse o teu desporto favorito, dar a volta à cabeça às ingénuas, às malandras, às sonsas e às parvas, e de todas te fartavas com demasiada rapidez. Às vezes ainda me pergunto o que te levou a interessares-te por mim, a mais magra e a mais inconveniente da turma, quase sem formas e sem peito, quando te via maravilhado com as curvas das outras. Dizias que eu era mais inteligente e que isso valia tudo. Mas não valeu. Enganaste-me pelo menos duas vezes, que eu saiba, e todos sabemos que quando assim é, houve muitas mais, só não vê a verdade quem foge dela, e eu cansei-me de fugir de tudo.

Passaram 30 anos e convidaste-me para jantar. Não estava à espera, fomos sempre falando ao longo da vida, eu tive um casamento que correu mal, pensava que o teu continuava a correr bem, mas afinal não, afinal estás separado, foi o que me disseste ao telefone quando sugeriste que nos encontrássemos. A tua mulher é simpática e divertida, lembro-me que vocês se riam muito, mas talvez seja uma memória romantizada. As memórias servem para forrar o passado a histórias inesquecíveis que exibimos como troféus e que tantas vezes se tornam um fardo, uma cruz que nunca mais queremos ou sabemos largar. Faz-me lembrar a história exemplar de um pecador que pede a Jesus que lhe troque a cruz, pois aquela que carrega é demasiado pesada. O Criador leva-o a um campo com cruzes tombadas pelo chão a perder de vista e diz ao pecador que experimente várias, mas nenhuma lhe assenta como ele quer. Finalmente escolhe uma, a única que sente que consegue aguentar e Jesus diz-lhe, era a tua.

E aqui estamos nós sentados à mesa, nunca foste nem alto nem baixo, nem gordo nem magro, nem bonito nem feio, vejo-te igual, porque as pessoas na verdade não mudam. A mesma voz bem colocada, o mesmo olhar arguto e crítico o mesmo meio-sorriso de quem sabe que nada nem ninguém deve ser levado demasiado a sério. Lembro-me das mãos, também não mudaram. Talvez tenhas endireitado ligeiramente os dentes, mas isso toca a todos, faz parte da evolução deste mundo ocidentalizado da qual nos tornámos escravos.

Enquanto escolhes o vinho imagino o pecador a experimentar outras cruzes para reconhecer qual era a sua. Talvez seja mesmo essa a lição: queremos aquilo que sempre tivemos, raramente mudamos. Dizes estou mais bonita agora, que me fiz um belo exemplar. Não me apetece explicar-te que tive sorte com a saúde e com a genética, nem sequer sei se o que dizes é verdade. A beleza está sempre nos olhos dos outros. Prefiro acreditar que vejas em mim a miúda inteligente e inconveniente que aprendeu a dar repostas ao mundo depois de me teres passado pelo coração. 

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