Margarida Rebelo Pinto
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Margarida Rebelo Pinto: A fábrica de sonhos

Nunca entendi a cabeça das mulheres, nem aos oito nem aos 40 anos, e quanto mais tempo passa, menos esperança tenho de perceber metade do que se passa naquele mundo misterioso.
14 de abril de 2017 às 06:00
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 Margarida Rebelo Pinto: A fábrica de sonhos

- Não me chames feiticeira se não te deixas levar pelos meus feitiços – escreveu-me a Inês numa das últimas mensagens. E depois fez uma birra de menina pequenina, como se tivesse a mesma idade da minha filha Amélia e bloqueou-me no Whatsapp durante dois dias.

Nunca entendi a cabeça das mulheres, nem aos oito nem aos 40 anos, e quanto mais tempo passa, menos esperança tenho de perceber metade do que se passa naquele mundo misterioso. Diz-se que o cérebro masculino está organizado por compartimentos e o das mulheres em open space, mas não concordo. Imagino o meu diferente, nem uma coisa nem outra. Gosto de saber que está arrumado, cada coisa no seu lugar, o coração por baixo dos miolos, de preferência a uma distância razoável, a chamada distância de segurança, e que o resto do meu corpo obedece a um General instalado nos meus neurónios que nunca se rende nem adormece no seu posto, sempre atento à sua missão de manter ordem nas tropas.

O problema é que se nem sempre tenho mão nos meus soldados, já se sabe que nenhum homem consegue ter mão nas tropas femininas quando elas decidem coisas. E elas decidem imensas coisas porque gostam de mandar. Estão habituadas a que lhe façam as vontades e quando são mimadas é o diabo, só fazem o que querem e moem-nos o juízo até conseguirem aquilo a que se propuseram.

A Amélia tem muita personalidade, desde dos quatro anos que chuta os gémeos para canto se se atrevem a tentar chateá-la, o que não deixa de ser interessante, considerando que os gémeos têm mais dois anos do que ela. Os gémeos simpatizam com a Inês, o Quico diz que é muito gira e o Pedro derrete-se todo quando ela aparece, mas é a Amélia que nos ganha aos pontos, porque põem-se as duas a brincar às cabeleireiras e aos desfiles de moda, e se tentamos meter conversa começam a fazer troça de nós.

Estou a pensar nisto tudo enquanto os três voam pelos ares, cheios de cintos de segurança e de vento nos cabelos na Montanha Russa do parque a Euro Disney que, como todo o parque, nos transporta para um mundo irreal tão bem feito que enquanto lá andamos, pensamos que é tudo verdade.

A Inês tem o dom de transformar tudo em fantasia. Desenha o futuro como se tudo fosse possível. Há pessoas que nasceram para construir a realidade e outras para construir sonhos. Se a Inês fosse uma fábrica, só podia ser uma fábrica de sonhos, por isso lhe chamo Feiticeira. E no entanto, apesar de todas as qualidades, não me consigo fazer à pista. Tenho medo que não ela não seja bem assim, que aquela alegria de viver, o sentido de humor mordaz e a energia tão esfuziante quanto o fogo-de-artifício dos espetáculos no parque, acabe depressa.

Ainda só chegámos há um dia e já tenho saudades dela. Não quis vir connosco, diz que já passou a fase de brincar ao faz-de-conta. Eu percebo que não lhe apeteça aturar os filhos dos outros, ainda que me tenha explicado, falando devagar e com os olhos muitos fixos nos meus, "eu não vou por falta de paciência para os miúdos, eu não vou porque tu não queres assumir a nossa relação e se não sou boa para apresentar à tua mãe, então também não estou para ser tua babysitter, ouviste bem o que te disse"?

Eu respondi sem um som, acenei com a cabeça e dei-lhe um beijo na cara e depois vários na boca, porque ela estava coberta de razão.

Já aprendi que discutir com mulheres inteligentes é o mesmo que tentar ganhar uma partida de xadrez ao Karpov, um tipo tem zero hipóteses de ganhar, portanto mais vale assumir que perde para não fazer figura de urso.

Assim que chegar a Lisboa deixo os miúdos com a minha mãe e levo a Inês a jantar fora, a um lugar que ela goste, a ver se me entendo com ela. As mulheres dão um trabalhão, todas diferentes e nenhuma sem livro de instruções, mas as que valem a pena são as que nos desarrumam as tropas e nos fazem repensar na vida, mesmo quando está tudo controlado pelo General interno. Estou a ponderar destitui-lo do comando e voltar a deixar o meu coração blindado bater outra vez, sem governo nem juízo. Talvez não seja má ideia. 

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