Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

Um amor feliz

Convidaram-me para ir jantar, simpatia que declinei por ausência de fome e vontade de voltar para casa onde o silêncio me envolve como um manto sempre que meto a chave à porta. Durante meses senti-me sufocada por ele, até o domar como um cão de circo e agora sabe-me bem o sossego.

Lenta é a combustão

A lua começou a trepar pelo firmamento, de um amarelo impertinente, como uma bola de ténis gigante lançada por um canhão, atrasada por uma imagem em câmara muito lenta. Lenta é a combustão, lembro-me de ter pensado, antes que o meu cérebro, aparentemente atento e desperto, se ia desligando nas suas funções, uma a uma, como um edifício de muito andares onde a luz vai falhando por sucessivos curto-circuitos e a escuridão galgando a fachada até ao último andar.

Ir e ficar

Sempre acreditei que são as mulheres que escolhem os homens, mas agora já não vejo o mundo assim. Tu não escolhes o amor, o amor é que te escolhe. Se existir uma semente de amor, eles mexem-se. Caso contrário, deixam-se ficar onde estão, árvores que morrem de pé sem ninguém saber.

Trocar de coração

Antes de a conhecer não lia poesia nem tal me passava pela cabeça, mas as mulheres que são importantes são as que nos mudam por dentro.

Carrinhos de choque

Perante o ambiente tenso, decidi imediatamente começar a fazer o que sei melhor: dizer disparates para desviar a conversa. Entrei a pés juntos com perguntas disparadas como balas em todas as direções para provocar a confusão e semear o caos. A minha irmã percebeu imediatamente a minha manobra, seguida pelo meu irmão que alinhou de imediato na tropelia.

Navegar à vista

Há mais de trinta anos que se senta do outro lado da mesa para me ajudar a arrumar a cabeça e a limpar o coração. Podia ser meu irmão e tem o nome próprio mais bonito do mundo cuja sonoridade rima com esse laço fraterno.

A máquina dos disparates

Esta é a história de um amor feliz que acabou quando tinha de acabar, depois de seis meses de muita alegria e uma tarde de desentendimentos.

Febre amarela

Estar longe não é só um conceito geográfico, também uma construção emocional. Fui viajar porque me sentia longe de mim mesma, ou longe da pessoa que já fora. "Deixe-me ir preciso andar, vou por aí a procurar, rir pra não chorar", como canta a Marisa Monte.

Eu quero que tu sejas a minha mãe

Vou ali e já venho, não demoro nada, umas semanas, duas ou três, vais ver que passa num instante, digo ao Ramsés enquanto lhe faço festas na cabeça. O Ramsés foi uma herança da minha irmã Isabel que se apaixonou por um surfista e trocou as Avenidas Novas pelo Havai.

Fios e chocolates

O pior é o tempo que nos rouba tudo. Há meia hora os nossos filhos andavam de bibe e agora andam na universidade. Há três dias o meu pai dançava comigo na sala e agora está numa cadeira de rodas. Há cinco minutos estavas aqui e afinal passou um ano. O tempo anda sempre a pregar-nos partidas, é o Deus mais inteligente e manipulador do Universo.

Outra vez

Tenho saudades tuas, ou saudades de tudo o que fomos, não sei bem, já é tão difícil não misturar o passado com o presente e destrinçar a realidade da ficção que demoro algum tempo a sair da cama, só abandono o estado de sonho lúcido quando sinto força suficiente nas pernas para pisar firme o chão que me leva de volta ao mundo.

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