Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

Um outro futuro

O meu bairro deixou de ser triste, tornou-se alegre, depois festivo, finalmente histérico, por isso fugi. Fugi do progresso, do bulício, da confusão. Fugi das ruas encardidas, do ruído incessante dos prédios em reconstrução, da cidade que se tornou insone e voltei para a minha casa de escritora com vista para o mar.

Trinta mil cavalos

A adolescência da geração os filhos do 25 de Abril foi a última a dançar slow e a gravar cassetes inteiras com músicas para namorar, curtir, andar na marmelada, e claro, para dançar agarradinhos, muitas vezes em festas de garagem, com papel celofane encarnado a embrulhar os abat-jours e rondas policiais regulares de um ou dois adultos pelo perímetro para verificar se a malta não se estava a esticar. É claro que a malta se esticava, mas não era ali. Era dentro dos carros num lugar sossegado com vista para o mar, ou em casas onde os pais não estavam.

Nunca é tarde

Agora a miss Abba vive em Estocolmo e ele está de novo sentado a jantar comigo como se o tempo não tivesse passado, a falar dos filhos e do presente, das vinhas e do jardim, do solar e da mãe que sempre lhe disse que se devia ter casado comigo.

Como esquecer

Se queres mesmo esquecer alguém, treina o dom de perdão. Perdia tudo, porque quem te amou nunca quererá o teu mal. Quem te amou saberá guardar o vosso amor numa caixa azul que ninguém sabe que existe e que é do vossa para sempre.

Vestidos compridos e outros fantasmas

O problema com a beleza é que nos tolda em relação à verdadeira essência humana. Nunca ninguém conseguiu provar cientificamente que as pessoas bonitas são boas pessoas. Pelo contrário, a vida vai, não raro, mostrando que o oposto prevalece. Conheço verdadeiros diabretes com cara de anjo, cabelos ondulados à princesa da Disney e sorrisos cândidos próprios de quem não parte um prato.

Somos sempre os mesmos 300

O Tinder, essa aplicação que aproxima ainda mais quem já esta na área. Há quem diga que já se casou, que fez amizades para a vida, tanto oiço histórias da carochinha como de engates manhosos. Nunca vou saber como funciona, mas parece que anda meio mundo por ali, a navegar no pastel de nata virtual, à procura de sexo gratuito porque não imagino que marquem encontros para ir ao Arco ver arte contemporânea.

Régua e esquadro

Na vida há coisas que podem e devem ser desenhadas a régua e esquadro, mas há outras que não. Uma casa sim, uma árvore não. Um trabalho sim, um sonho não. Uma amizade sim, uma paixão não. Nem tudo cabe numa caixa, num plano, num estereótipo. Na verdade, quase nada cabe, porque a vida é sempre outra coisa.

Coração preguiçoso

Quando o teu coração ficou surdo, o meu ficou preguiçoso. Foi o primeiro pensamento que atravessou o meu espírito aquietado pelo sono profundo que só acontece quando o espírito se encaixa no lugar físico onde se encontra.

Não me deixes cair

Quando tropeçámos um no outro, senti-me tão viva que o presente ganhou o primeiro lugar de todas as corridas sem sair do lugar da partida. Em menos de poucas horas e sem termos ido aos treinos, tu já estavas na 'pole position', eu só tinha de te dar o sinal de partida.

Um amor feliz

Convidaram-me para ir jantar, simpatia que declinei por ausência de fome e vontade de voltar para casa onde o silêncio me envolve como um manto sempre que meto a chave à porta. Durante meses senti-me sufocada por ele, até o domar como um cão de circo e agora sabe-me bem o sossego.

Lenta é a combustão

A lua começou a trepar pelo firmamento, de um amarelo impertinente, como uma bola de ténis gigante lançada por um canhão, atrasada por uma imagem em câmara muito lenta. Lenta é a combustão, lembro-me de ter pensado, antes que o meu cérebro, aparentemente atento e desperto, se ia desligando nas suas funções, uma a uma, como um edifício de muito andares onde a luz vai falhando por sucessivos curto-circuitos e a escuridão galgando a fachada até ao último andar.

Ir e ficar

Sempre acreditei que são as mulheres que escolhem os homens, mas agora já não vejo o mundo assim. Tu não escolhes o amor, o amor é que te escolhe. Se existir uma semente de amor, eles mexem-se. Caso contrário, deixam-se ficar onde estão, árvores que morrem de pé sem ninguém saber.

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