Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto pessoas como nós

Bolas de Berlim

Era uma senhora típica do Estado Novo: para fora vivia para o marido, a casa e os filhos, por dentro implodia de tédio, sem a capacidade de entender porque sentia tanta neura. Na época usava-se o termo neurasténica, uma espécie de genérico para as maleitas do espírito e do coração femininos.

És tu e tu e tu

Quando alguém desiste de nós, não vale a pena correr atrás, fazer piruetas, acenar com um isco, não vale a pena fazer nada a não ser aceitar e esperar. Aceitar sem culpa, esperar sem expectativas. E depois, é deixar a vida correr, ficar atento aos sinais, descansar o corpo e o coração, respeitar o luto e o pousio, até a vida dar a volta à vida.

Diretora do meu coração

Continuei a pedalar e a cogitar como podemos treinar o cérebro e o coração para pensar mais naqueles que nos fazem bem do que naqueles que nos magoam. O cidadão ordeiro que durante tanto tempo ocupou o meu coração nunca me deu nenhum presente além de chocolates comprados na estação de serviço quando vinha ter comigo a voar baixinho, louco por estar ao meu lado num Verão mais azul do que todos os que já vivi. Depois a vida levou-nos por caminhos diferentes.

Um outro futuro

O meu bairro deixou de ser triste, tornou-se alegre, depois festivo, finalmente histérico, por isso fugi. Fugi do progresso, do bulício, da confusão. Fugi das ruas encardidas, do ruído incessante dos prédios em reconstrução, da cidade que se tornou insone e voltei para a minha casa de escritora com vista para o mar.

Trinta mil cavalos

A adolescência da geração os filhos do 25 de Abril foi a última a dançar slow e a gravar cassetes inteiras com músicas para namorar, curtir, andar na marmelada, e claro, para dançar agarradinhos, muitas vezes em festas de garagem, com papel celofane encarnado a embrulhar os abat-jours e rondas policiais regulares de um ou dois adultos pelo perímetro para verificar se a malta não se estava a esticar. É claro que a malta se esticava, mas não era ali. Era dentro dos carros num lugar sossegado com vista para o mar, ou em casas onde os pais não estavam.

Nunca é tarde

Agora a miss Abba vive em Estocolmo e ele está de novo sentado a jantar comigo como se o tempo não tivesse passado, a falar dos filhos e do presente, das vinhas e do jardim, do solar e da mãe que sempre lhe disse que se devia ter casado comigo.

Como esquecer

Se queres mesmo esquecer alguém, treina o dom de perdão. Perdia tudo, porque quem te amou nunca quererá o teu mal. Quem te amou saberá guardar o vosso amor numa caixa azul que ninguém sabe que existe e que é do vossa para sempre.

Vestidos compridos e outros fantasmas

O problema com a beleza é que nos tolda em relação à verdadeira essência humana. Nunca ninguém conseguiu provar cientificamente que as pessoas bonitas são boas pessoas. Pelo contrário, a vida vai, não raro, mostrando que o oposto prevalece. Conheço verdadeiros diabretes com cara de anjo, cabelos ondulados à princesa da Disney e sorrisos cândidos próprios de quem não parte um prato.

Somos sempre os mesmos 300

O Tinder, essa aplicação que aproxima ainda mais quem já esta na área. Há quem diga que já se casou, que fez amizades para a vida, tanto oiço histórias da carochinha como de engates manhosos. Nunca vou saber como funciona, mas parece que anda meio mundo por ali, a navegar no pastel de nata virtual, à procura de sexo gratuito porque não imagino que marquem encontros para ir ao Arco ver arte contemporânea.

Régua e esquadro

Na vida há coisas que podem e devem ser desenhadas a régua e esquadro, mas há outras que não. Uma casa sim, uma árvore não. Um trabalho sim, um sonho não. Uma amizade sim, uma paixão não. Nem tudo cabe numa caixa, num plano, num estereótipo. Na verdade, quase nada cabe, porque a vida é sempre outra coisa.

Coração preguiçoso

Quando o teu coração ficou surdo, o meu ficou preguiçoso. Foi o primeiro pensamento que atravessou o meu espírito aquietado pelo sono profundo que só acontece quando o espírito se encaixa no lugar físico onde se encontra.

Não me deixes cair

Quando tropeçámos um no outro, senti-me tão viva que o presente ganhou o primeiro lugar de todas as corridas sem sair do lugar da partida. Em menos de poucas horas e sem termos ido aos treinos, tu já estavas na 'pole position', eu só tinha de te dar o sinal de partida.

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