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Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas

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Pedro Chagas Freitas: Jogo

Jogo: s.m. O mesmo que realidade; somos todos, mais do que aquilo que somos, aquilo (em) que estamos. A vida é uma questão de sorte; mas tendem a ser os mais pessimistas os mais azarados.
17 de abril de 2017 às 06:00
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Pedro Chagas Freitas: Jogo
Foto: Getty Images

"Que merda de vida a minha", pensa o homem parado à chuva à espera do autocarro, "esta porcaria nunca chega a horas", o guarda-chuva, velho e frágil, treme com o vento, a chuva chega de frente e molha-o cada vez mais, "estava a ver que não, foda-se", fica de pé porque já não há lugares sentados, agarra-se como pode e onde pode para não cair ao chão em cada curva, ao lado está um adolescente perdido no seu mundo, "já não há respeito, é o que é, este mundo está perdido", olha de canto para o adolescente com os headphones nos ouvidos e a música no máximo, pouca gente naquele autocarro não ouve o que ele está a ouvir, uma gritaria tão desengonçada que nem Mozart conseguiria afinar, "era só o que me faltava", a avaria do autocarro parece ser grave, o motorista já avisou que pelo menos uma hora terão de esperar até que possam vir buscar os passageiros, "é suposto levar toda a gente nessas carripanas minúsculas", duas ou três pequenas carrinhas, não mais, para levar toda a gente daquele autocarro, "que calor do caralho, nem consigo respirar", as pessoas vão coladas umas nas outras, a carrinha onde ele vai está apinhada até não poder mais, "as putas das obras nunca mais acabam", o trânsito está caótico, são mais de quarenta minutos até chegar ao destino final, "até nunca", e é o primeiro a sair sem olhar para trás e a mergulhar no amontoado dos passeios da cidade em hora de ponta. 

"Que sorte de vida a minha", pensa a mulher parada à chuva à espera do autocarro, "espero bem que se atrase mais do que nunca", olha sempre que pode, sem dar muito nas vistas, para o homem que ama, que gostava de amar, ou pelo menos conhecer, e quando finalmente ganha coragem para o ajudar a abrigar-se no seu guarda-chuva porque o dele está a dar as últimas acontece o que ela não queria que acontecesse, "tinhas de chegar tão cedo, desgraçado, valha-me Deus", fica de pé porque ele ficou de pé, tenta estar próxima o suficiente para lhe sentir o cheiro e o poder ver bem, mas distante o suficiente para que ele não possa perceber que está a ser olhado, ou até amado, sabe-se lá, "é a minha música favorita, isto só pode ser um sinal", olha feliz para o adolescente com os headphones nos ouvidos e a música no máximo, depois olha para o homem que quer que seja o da sua vida e junta o som da música ao som do que sente, que momento maravilhoso, este, só quer que não passe, que nunca passe, "por vezes tem de avariar algo para nascer um algo ainda melhor", a avaria do autocarro parece ser grave, será pelo menos uma hora, segundo o motorista, para ela poder olhá-lo melhor, senti-lo melhor, passar mais um tempo com ele, nem que seja assim, quando se ama todos os motivos são válidos para amar, "assim vamos juntinhos, ainda mais juntinhos", duas ou três pequenas carrinhas, não mais, para levar toda a gente daquele autocarro, ela entra logo a seguir a ele, não quer deixar nada nas mãos no destino, felizmente o destino é aquilo que a acção faz, nada mais do que isso, "sinto o coração dele a bater, que loucura", as pessoas vão coladas umas nas outras, a carrinha onde ele vai está apinhada até não poder mais, ela vai apaixonada até não poder mais, "o progresso de uma cidade pode ser também o progresso de um amor", o trânsito está caótico, são mais de quarenta minutos até chegar ao destino final, quarenta minutos de cumplicidade, há mais química ali do que aquela que Lavoisier conseguiria um dia explicar, "até sempre", e é a segunda a sair, logo a sair a ele, sem lhe tirar os olhos de cima, a mergulhar no amontoado dos passeios da cidade em hora de ponta.

*só deve ler o que está entre parêntesis quem acredita no amor; os outros ficam por aqui.

("Que vida a minha", pensa o homem parado à chuva à espera do autocarro, "assim não vou a tempo de abrir a loja", está inquieto debaixo do guarda-chuva, à espera de que o tempo passe e boas notícias surjam no horizonte, "talvez ainda dê, talvez ainda dê", fica de pé porque quer estar perto da porta, assim quem sabe ainda chegue a tempo de não perder nenhum cliente, por mais que os clientes sejam dorminhocos há sempre que chega cedo quando ele chega tarde, isso é matemática, uma matemática tão profunda que nem Newton a conseguiria explicar, "a letra fala em perder oportunidades porque chegamos tarde a elas, isto só pode ser ironia, só pode ser", olha com um sorriso sarcástico para o adolescente com os headphones nos ouvidos e a música no máximo, depois olha para o relógio e pensa em quantas oportunidades poderá vir a perder, "agora é que não há volta a dar, já foste, Manel, já foste, só espero que o senhor Guedes não apareça por lá hoje", a avaria do autocarro parece ser grave, será pelo menos uma hora, segundo o motorista, até voltar a estar a caminho daquele que, pelo menos até hoje, era o seu emprego, e que pode muito bem vir a tornar-se o seu desemprego, "assim posso esconder-me melhor", duas ou três pequenas carrinhas, não mais, para levar toda a gente daquele autocarro, ele entra depois de metade das pessoas entrarem numa delas, quer passar invisível para ninguém perceber que está atrasado, irreversivelmente atrasado, "ao menos dá para pensar na vida", as pessoas vão coladas umas nas outras, a carrinha onde ele vai está apinhada até não poder mais, ele tenta brincar com o que pode não ser brincadeira nenhuma, "amanhã talvez tenha de ir para ali pedir trabalho, raios me partam se fico sem emprego", olha para os trabalhadores das obras, o trânsito está caótico, são mais de quarenta minutos até chegar ao destino final, e provavelmente ao seu dia final naquele ofício, "até já", e é o terceiro a sair, logo a sair ao casal que amanhã, ele ainda não sabe, vai atender lá na loja, "vínhamos à procura de anéis de noivado, por favor", e será o derradeiro pedido que ele vai atender na Joalharia do Guedes, não porque foi despedido mas porque se vai despedir, está farto de ver a felicidade dos outros sem lutar pela sua, que todos os santos o ajudem.) 

Jogo: s.m. Limbo enfeitiçador entre o que a emoção te faz sentir e o que a cabeça te faz pensar; ninguém ganha sempre - mas tendem a ser os menos trabalhadores os menos vencedores.

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