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Entrevista exclusiva

Nuno Eiró: “Há sempre alguém que não gosta daquilo que faço ou da pessoa que sou”

Já foi casado mas não quer repetir a experiência. Admite que chora e que a família e alguns amigos são o seu maior pilar. Revelações de Nuno Eiró, despojado de qualquer máscara ou filtro.
Por Ana Cristina Esteveira | 04 de março de 2017 às 10:41

Trocou a TVI pela CMTV, canal que lhe deu a possibilidade de fazer um programa diário em ‘day time’. Nesta entrevista, o apresentador não fala apenas da nova fase da sua carreira profissional. Vai mais longe: faz revelações pessoais, embora admita que teve sempre muito cuidado para não "abrir a porta" da sua intimidade

Já está em pleno na CMTV. Começo por lhe perguntar se esta foi uma decisão difícil de tomar, ou seja, trocar a TVI pela CMTV?
Foi, essencialmente, muito pensada. Portanto, carregada de sensatez mas claramente foi uma decisão difícil.

O dinheiro pesou na sua decisão?
Não, de todo. Foi basicamente a aventura. Isso ficou sempre muito explícito quando me fizeram o convite. Chega-se a uma altura da vida em que se quer apenas aquilo que consideramos que é o melhor para nós. Neste caso, não teve nada a ver com dinheiro mas sim com a realização pessoal e profissional. Há muitos anos que já tinha assumido, em entrevistas e até perante os meus directores, que aquilo que realmente queria fazer era ‘day time’. Portanto, quando nos dão uma hipótese de fazer aquilo que queremos há que pesar os prós e contras, mas fi-lo com toda a tranquilidade.

Foi uma decisão solitária?
Tem mesmo de ser uma decisão solitária, porque quando há muitas cabeças a pensar acaba sempre por haver muitas sentenças. Há uma altura que a decisão só pode ser mesmo nossa.

O que é que os amigos e a família disseram? Alguém o tentou convencer a ficar na TVI?
Os amigos e a família, ou melhor: as poucas pessoas que souberam, conhecem-me bem e sabiam que se eu tomasse este passo seria corajoso, mas percebiam porque o estava a fazer. Isto para dizer que me apoiaram muito. É certo que é um aconchego perceber que alguém nos entende, mas mesmo que fossem contra, eu teria ido em frente. Fui o princípio e o fim desta decisão.

Passou-lhe pela cabeça que iria perder visibilidade, já que estamos a falar de um canal generalista e de um canal por cabo?
É óbvio, mas mais do que tudo o que gosto de fazer é televisão. O meu intuito não é aparecer, mas sim a técnica televisiva. Portanto, eu sempre trabalhei muito, embora haja coisas que não se trabalham pois nascem connosco, como é o caso da empatia e a facilidade em comunicar. Voltando à questão, gosto muito da técnica televisiva, de todo o processo de comunicação.

As audiências não são importantes?
Obviamente que estão na equação, mas não estão na minha. Se fosse por aí, então, nunca teria saído mas também não teria evoluído. Sim, eu sei, estamos no cabo e não estamos em todos os operados, ainda, e isso restringe o acesso de quem quer ver. Mas garanto que é uma questão que para já não me preocupa. Não se pode é comparar o espectro de pessoas que vêem uma generalista com o do cabo.

Ainda é cedo, ainda assim peço-lhe que me faça um balanço destes primeiros tempos na CMTV.
É um bom balanço. Não temos equipas extensas e isso não me assusta nada, confesso. Isso até ajuda o processo de integração. Fui muito bem recebido e já conheço as pessoas com quem trabalho.

Este é também um reencontro com a Maya.
É verdade, embora nunca tenha estado a apresentar com ela. Já trabalhei muitas vezes com ela fora da televisão e, mesmo que já tenham passado muitos anos, continuamos a ser os mesmos. Há uma fluidez entre mim e a Maya e acho que isso se nota.

Qual é o segredo da sua popularidade?
Empatia… será? Nunca medi isso e, como referi, faço televisão porque gosto. Essa popularidade de que fala vem com o tempo e com o trabalho. Há uma certeza, para este trabalho que estamos a fazer agora, como para os que já fiz, comunicar é estabelece ligações com as pessoas que nos vêem. Essa dita popularidade é o fruto desse trabalho.

O Nuno é mesmo assim: caloroso, simpático, bem-disposto… ou coloca uma máscara sempre que a luz da câmara se acende?
Naturalmente sou assim, mas tem dias em que não sou assim e já não escondo. Há alturas em que não estou tão bem disposto, em que não me apetece falar nem sorrir. No entanto, há uma coisa que temos de ter presente: isto é a coisa que nós fazemos e as pessoas não têm culpa dos nossos maus dias. Ser um apresentador tem a mesma responsabilidade que tem qualquer outra profissão que tem contacto direto com o público. Ninguém tem culpa que estejamos a ter um dia mais cinzento.

Nesses dias coloca-se a "máscara"?
Pode chamar-lhe máscara, educação ou, simplesmente, bom senso.

Em que momentos é que perde a capacidade de sorrir e se vai mais abaixo?
Não tenho um momento específico para isso acontecer, então nos últimos tempos não tenho mesmo razões para isso… felizmente. Quando isso acontece, isolo-me muito mais. Aquilo que a maturidade me foi dando, foi a capacidade de dar tudo quando tenho que trabalhar. Depois, guardo sempre tempo para mim.

Esse tempo é essencial?
Para mim tornou-se vital. Por exemplo, quando trabalhava aos domingos a segunda-feira era minha. Tem de haver um equilíbrio entre o público e o privado. Não é porque não somos exactamente iguais em privado do que somos na nossa vida pública, que estamos a ser falsos. Simplesmente, todos vamos alterando a nossa disposição ao longo do dia. Cada dia pode ser um dia de quatro estações para cada um de nós.

A ideia que se tem é que uma pessoa tão alegre quanto o Nuno…
… não tem o direito a estar mais introspetivo, mais calado? Há quem tenha essa ideia errada. Antes tinha a necessidade de prolongar o sonho, ou seja, acabava por ficar desconfortável se fosse abordado na rua num ângulo de visão que não estivesse a ver. Tentava sempre prolongar a persona televisiva para não defraudar as expectativas.

Algo muito exigente e desgastante.
Com o tempo percebe-se que não vale a pena. Não signifique que seja mal educado, mas é não me predispor a forçar. Resume-se tudo a bom senso.

Também chora?
Então não? Com uma boa música, um bom filme…sou muito permeável a isso e não tenho vergonha. Permito-me estar muito alegre e a estar triste, chorar por uma coisa boa e chorar por uma coisa menos boa.

É bom chorar?
É óptimo. Muitas das vezes é catártico e outras é só bom.

A idade dá-nos a coragem de assumir que também choramos?
A mim deu. Acho que as pessoas fazem percursos diferentes na vida e, realmente, a idade não é um posto. Temos pessoas com 50 anos que continuam a ser adolescentes e outras, com 20 que parecem muitas mais velhas do que são. O caminho que fazemos é que é determinante.

O seu caminho tem sido difícil?
Não posso dizer que tenha sido um mau caminho. Mesmo as coisas menos boas, transformaram-me para melhor.

Tem essa certeza, de que hoje é uma pessoa melhor?
Gosto muito mais de mim agora do que gostava aos 20 ou aos 30.

Tem orgulho na pessoa em que se transformou?
Sim, embora ache que há sempre coisas para melhorar. Continuo a ser muito autocrítico e acabo por ser o pior inimigo de mim próprio por ser tão exigente. Neste momento estou na fase de relativizar.

Isso também vem com a idade?
Ou com a maturidade.

Já assumiu que passou por um período complicado quando esteve sem trabalhar. Foram os tempos mais difíceis?
Foram garantidamente os mais proveitosos. Foram tempos de grande aprendizagem. As coisas acontecem, se foi justo ou injusto isso é completamente indiferente. O importante é saber o que fazer com aquilo que nos bateu à porta. Mal comparado é ter todos os ingredientes para fazer um bolo, mas quando o vamos começar a fazer verificamos que afinal nos falta um deles. O que fazer? Não fazer mais nada? A saída está em perceber o que é que se pode fazer com aquilo que temos à mão. Foi isso que aprendi a fazer sozinho.

Nessa altura pensou em fazer outra coisa que não televisão?
Claro que sim. Assustador é quando a ideia não vem. Mantive-me ativo… fui fazer o mestrado e outras coisas. Só que não era uma profissão. Assustador é pensar no que podemos fazer, pois parece que não sabemos fazer absolutamente mais nada. Hoje em dia, já há muitas coisas fora da televisão que quero fazer e vou fazer. O que aprendi dessa fase foi capacidade de aceitar, pois não há mais nada a fazer do que aceitar.

Como se vive cada final do mês quando não se tem trabalho? Como é que se pagam as contas?
Não passei por esse problema porque sempre fui uma pessoa organizada… é algo que já vem de família.

Nunca se zangou por isso estar a acontecer consigo?
Dei-me tempos, sabe? Começa por haver uma vitimização e isso faz parte e é normal. Os primeiros 15 dias foram para viver essa vitimização e o pânico. Depois, foi criar uma disciplina já que sou uma pessoa muito metódica. Como até ali tinha tido uma vida muito cheia de compromissos profissionais, o difícil foi olhar para a minha agenda e ver que ela estava vazia. Aí comecei a trabalhar a minha cabeça e a organizar as pequenas coisas do dia a dia na tal agenda. Por exemplo, se tinha de passar pela lavandaria anotava na agenda e isso fazia-me sentir bem. Acredita que ao fim de umas semanas, tinha a agenda preenchida? O mais importante é não nos deixarmos ficar no sofá a deprimir. Mas não há uma fórmula, pois o que funcionou comigo pode não funcionar com outra pessoa que está a passar pelo mesmo.

Nessas alturas bata-se às portas para pedir trabalho?
A primeira coisa que eu e a minha agente da altura, a Catarina Moura, decidimos foi não bater à porta. Era público que tinha saído, portanto se o mercado não me veio buscar é porque não queria. Há um momento para tudo até para não ouvir ‘nãos’. Optamos por esperar e ficar parado.

Diz-se que é difícil fazer amizades neste mundo da televisão. Contudo, uma viagem ao seu instagram nota-se que isso não é verdade. Tem muitos e bons amigos?
Tenho alguns belíssimos amigos. E neste processo de transição sei quem são.

E nestas alturas que se revelam?
Não só, mas também. Agora voltando à sua pergunta. As minhas amizades do mundo televisivo vieram depois do trabalho. Nunca vou com o intuito de agradar e fazer amigos. As coisas acontecem ou não… tal como foi na escola e na universidade. Não vale a pena forçar nada. Todas as amizades que fiz neste meio e mantenho há já muitos anos foram assim.

Nunca se aproximou de alguém por interesse? Porque sabe que essa pessoa o poderá ajudar a ter mais trabalho, a dar um impulso maior à sua carreira?
Só mesmo por amor, porque interesse não temos nenhum um nos outros.

Nunca foi vítima de inveja, rivalidade, traições?
Se fui vítima de traições, não sei e agradeço manter-me na ignorância. Em relação às invejas, é uma coisa que não se pode condicionar. Portanto, deixa de ser um problema. Invejas e o que dizem ou pensam de mim, não posso condicionar, pois não? Logo, é um não-problema.

Estou rendida a essa capacidade de aceitação.
Haverá sempre alguém que vai dizer alguma coisa que não é verdade, haverá sempre alguém que não gosta daquilo que faço ou da pessoa que sou… faz parte. Isso conta para o meu dia a dia? Não, portanto não me incomoda ou deixa desconfortável. Se me perguntar se foi sempre assim? Não, não foi. O importante e o que me deixa verdadeiramente feliz é o rasto ou a marca que vou deixando e as relações que vou criando.

Isso é o melhor?
Sem dúvida alguma. Nesta fase de transição, posso dizer que fiquei surpreendido com a quantidade de pessoas que está a torcer para que corra bem e não para que mal.

Nenhuma dessas mensagens de apoio lhe soou a falso?
Sinceramente, não.

A sua mãe fez anos há poucos dias. O Nuno fez-lhe uma bonita dedicatória nas redes sociais. A família é o seu pilar mais sólido?
Sou caranguejo de signo, penso que está tudo dito. Embora seja um filho tardio, portanto a diferença de gerações, especialmente na altura, era muito evidente. Há uma data de coisas que perdi e não tive acesso, admito-o. Por exemplo, não convivi com avós porque já tinham morrido. Mas sim, a família continua a ser um pilar e isso é muito bom.

Tem uma família grande?
Pelo contrário, somos uma família relativamente pequena. Fomos quatro, agora somos três porque o meu pai já morreu. Há mais uns tios e uns primos mas que não vivem em Lisboa, portanto fomos muito só nós. Não sei se por necessidade ou feitio acabei por transformar alguns amigos em família.

Por falar em família. Continua solteiro e bom rapaz… O seu público, maioritariamente feminino, não o questiona sobre o assunto?
Não, não perguntam nada disso. O público mais velho é um público mais maduro e já não está preocupado com isso. O paradigma mudou e mesmo as pessoas mais velhas já assumem isso.

Se o seu público não pergunta, pergunto eu: o casamento e/ou ser pai faz parte dos seus planos de vida?
Já fui casado, já tive outros relacionamentos…

Há poucas pessoas que sabem que já foi casado.
Não torno isso público porque considero que ser uma figura pública não é o garante para que toda a minha vida seja pública. Preciso de ter uma parte da minha vida só para mim e para os meus, em privado. Quando abrimos portas, depois já não as podemos fechar. Quando nos permitimos esventrar a nossa intimidade, uma, duas ou três vezes… com que direito é que fechamos a porta quando isso não nos dá jeito? É essa a razão pela qual nunca abri a porta da minha vida particular.

Está um homem mais vaidoso? Agora já partilha os seus looks…
Vou explicar: isso vem por duas razões. Primeiro, porque realmente me sinto muito melhor agora do que alguma vez me senti. E porque não aceitar, que estou bem? Por outro lado, quis tanto tudo isto que está a acontecer agora que também senti que deveria haver uma clivagem na imagem do antes e do agora. Por fim, uma terceira razão, o meu gosto por moda vem da rádio onde fui jornalista de moda. Em televisão também fui autor de programas de moda. Vaidoso? Sim, mas não no sentido mais fútil da questão. Acho que é por gostar deste homem, quero acreditar, interessante em que me transformei.

É um homem realizado?
Vou-me realizando um pouco mais todos os dias. Ainda não cheguei ao final do caminho.

O caminho ainda é longo?
Espero bem que sim.

O que lhe falta para ser totalmente feliz?
Esse não é o objetivo. Vou sendo feliz todos os dias, um bocadinho mais, um bocadinho menos. O importante é o equilíbrio.

Quem é o Nuno Eiró que se olha hoje ao espelho?
Que bela pergunta… Esta é a semana em que é ainda mais difícil responder porque todos os dias me olho de uma forma diferente ao espelho. É um homem bem-disposto mas que, sobretudo, tenta ser sensato e que hoje em dia, felizmente, já não se preocupa tanto com o futuro como se preocupava.

O lema é um dia de cada vez?
Sim. É muito mais fácil e mais real. 

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Migalhas 04.03.2017

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