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Salvador salvou a Eurovisão. Veja os melhores momentos de sempre da história

O entusiasmo à volta de Salvador Sobral atraiu gente que há muito se afastara do Festival da Eurovisão. Memórias de outros festivais antecipando a final de hoje, como a vez em que Marie Myriam ganhou para a França e se saboreou em Portugal como se a vitória fosse nossa.
Por António Rodrigues | 14 de maio de 2017 às 14:13
Salvador Sobral na final da Eurovisão
Salvador Sobral, Eurovisão
Salvador Sobral, Eurovisão
Salvador Sobral, Eurovisão
salvador sobral
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Salvador Sobral dá o seu primeiro concerto hoje em Marco de Canaveses
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Salvador Sobral, Eurovisão
Salvador Sobral, Eurovisão
Salvador Sobral, Eurovisão
Salvador Sobral, Eurovisão
Salvador Sobral, Eurovisão
Salvador Sobral, Eurovisão
Salvador Sobral, Eurovisão
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Salvador Sobral, Eurovisão
Salvador Sobral, Eurovisão
Salvador Sobral, Eurovisão
Salvador Sobral, Eurovisão

Quando deixei de prestar atenção ao Festival da Eurovisão ainda a Austrália não fazia parte da Europa e o televoto estava longe de acontecer. Faziam-se votações em família, gerando discussões acaloradas em torno de favoritos. Eram menos os países, escusando as meias-finais, e só quem falava inglês o usava para cantar.

Entre 1973 e 1976 haviam liberalizado a história dos idiomas, mas em 1977, primeiro festival de que me lembro, a regra voltara a ser de cada um cantar na sua língua - ou línguas, tenho ideia de um ano em que a Suíça se apresentou com uma canção em romanche (Furbaz, em 1989).

Recordo o entusiasmo, nesse ano de 1977 em que Portugal mais perto esteve de ganhar - Marie Myriam (Lopes de apelido), filha de portugueses nascida na República Democrática do Congo, venceu pela França.

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E à falta de ajuda de Os Amigos, cujo "Portugal no Coração" se ficou pelo 14.º lugar, restava torcer pela luso-francesa.

Mesmo sem participação portuguesa no ano em que nasci – tal como Finlândia, Noruega e Suécia, em protesto contra a vitória quadripartida no ano anterior (por falta de sistema de desempate) – mantivemos relação estreita até à minha entrada na idade adulta. Um dos primeiros discos que os meus pais me compraram, ainda criança, foi uma coletânea dos vencedores desde o começo, em 1956.

À primeira canção que ganhou nunca prestei particular atenção. As minhas imberbes melomanias viravam-se mais para o "Non ho l’età (per amarti)", de Gigliola Cinquetti, que ganhou em 1965; o "Poupeé de cire, poupée de son", de France Gall (que ganhou pelo Luxemburgo e não pela França em 1965); o "Puppet on a string", de Sandie Shaw (1967); mas, sobretudo, "Un banc, un arbre, une rue", de Séverine, que me deixava sempre entusiasmado –  vencedor em 1971, na única vitória do Mónaco (ouvi muita canção francesa na adolescência).

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Hoje compreendo que havia no disco outras canções, melhores até, como o "Waterlooo", dos Abba, ou, principalmente "De Troubadour", da holandesa Lenny Kuhr, uma das quatro vencedoras de 1969.

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Por falar em holandeses, é muito curioso que Corry Brokken, a primeira a ganhar para o país, em 1957, ficou em último lugar no ano a seguir.

A relação com a eurovisão quebrou-se à entrada da idade adulta. São turvas as razões, embora como em todas os relacionamentos, o tempo encarregou-se do desgaste e as diferenças de crescimento foram-nos afastando.

Voltei agora atrás para perceber em que ano tudo aconteceu: se é certo que me lembro bem desse hino à união europeia de Toto Cotugno em 1990 ("Insieme: 1992"), a canção jugoslava vencedora em 1989 ("Rock Me") não me ativa nada na memória, ao contrário do penteado e do vestido inenarrável de Céline Dion a ganhar para a Suíça em 1988. Seja como for, o elo quebrou-se por essas alturas. Até agora.

Salvador Sobral e todo o entusiasmo gerado em seu torno trouxe-me de volta para uma espreitadela.

Salvador Sobral na Semi-Final da Eurovisão
A festa que fez junto à irmã Luísa Sobral
A felicidade do cantor
Momentos divertidos durante a Eurovisão
O espanto de Salvador quando foi apurado para a final da Eurovisão
O cantor interpretando
Salvador Sobral emocionou Portugal e o mundo
O cantor emocionou toda a plateia com a sua performance
salvador sobral
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O festival mudou, está todo modernaço, as coreografias multiplicaram-se e o espetáculo de luz e cor inclui tudo o que a televisão pode comprar. Uma produção televisiva em direto transformou-se numa maratona dividida por três noites, entre meias-finais (terça e quinta) e a final de hoje.

Os crónicos vencedores de antes foram perdendo peso à medida que o festival se foi estendendo para leste com a desagregação da União Soviética e a implosão da Jugoslávia. Daí que a Irlanda, o país com mais títulos (sete), não ganhe há 21 anos, a França (cinco) não vença desde Marie Myriam, faz este ano 40 anos, e a Inglaterra (cinco) há duas décadas redondas – a última vez que conheceu a glória foi com Katrina and the Waves em 1997.

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Dos países com quatro ou mais títulos, só a Suécia arrecadou primeiros lugares desde os anos 1990 (2012 e 2015).

A tendência dos jurados em votar por blocos tem ajudado a consolidar conquistas noutro lado. Jean-François Gleyze escreveu um artigo na revista europeia de geografia "Cybergéo", citado pelo "Le Monde", onde analisa estatisticamente as votações entre 1993 e 2008 e chega à conclusão que os votos por proximidade geográfica influenciam as votações, independentemente da qualidade das canções.

Os países da Europa Oriental com Chipre e Grécia formam um bloco, tal como os países balcânicos e os países escandinavos. Portugal não tem propriamente um bloco, mas encontra-se ligado a Bélgica, Holanda e, claro, Espanha (ainda me lembro de lá em casa se dizer que mesmo nos piores momentos podíamos contar com o voto espanhol, mesmo que nem sempre tenha sido assim).

Havendo ainda ligações menos óbvias como a existente entre Malta e Irlanda ou entre esta e a Noruega e outras mais óbvias entre Rússia, Moldávia e Ucrânia (estilhaçadas na atualidade depois da invasão russa da Crimeia – o que levou a Ucrânia a boicotar a presença da representante russa no festival deste ano, que se realiza em Kiev, por Yulia Samoylova ter, alegadamente, entrado na Crimeia.

Outra coisa que estranhei, neste regresso ao convívio com a Eurovisão, é a forma como o inglês se transformou no esperanto da pop ligeira celebrada neste festival – em contraste com o lema desta edição: "celebrar a diversidade". Dos 42 países participantes, apenas seis não cantam em inglês – Portugal, Itália, Bielorrússia, Hungria, França e Espanha. Destas, diga-se: o refrão espanhol é cantado em inglês (tal como próprio título da canção, "Do It For Your Lover") e a francesa tem uma parte em inglês.

Não é de admirar tendo em conta que desde que as regras foram alteradas, em 1999, apenas duas vezes (em 2007 e 2016) ganharam temas cantados em outro idioma que não o inglês. Se a vitória da Ucrânia com uma canção política em tártaro da Crimeia em 2016 der frutos este ano ("Occidental’s karma", do italiano Francesco Gabbani, é o grande favorito das casas de apostas) podemos estar a assistir ao princípio de uma inversão da tendência anglófila do certame.

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Realçando que a hegemonização do inglês como língua franca do festival coincide com o declínio de Irlanda e Reino Unido na Eurovisão. À medida que o número de canções em inglês se acumulava no pote, os dois países perdiam capacidade de chegar ao primeiro lugar. Este ano, os irlandeses tentaram com uma balada à Johnny Logan (que venceu duas vezes, em 1980 e 1987) mas Brendan Murray nem sequer passou da meia-final. Tal como, curiosamente, não passou a macedónia Jana Burceska que, no entanto, levou de Kiev razões para sorrir, já que foi pedida em casamento em direto pelo namorado – o sorriso (e o anel) ninguém lhe tirou.

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A diversidade apregoada pela Eurovisão neste festival resulta em algo menos palpável na realidade. E o que se ouviu nas duas meias-finais foi muito do mesmo, baladas a puxar pelos agudos, muita pop eletrónica, algumas canções festivas e Salvador Sobral. A diversidade eurofestiva tem no intérprete português o seu único argumento.

"Amar pelos dois" foi um ovni no palco estrelado do Centro Internacional de Espetáculos de Kiev. Até pela forma como Salvador Sobral, ao contrário dos outros, optou por cantar no palco mais pequeno, no meio do público, não recorrendo aos habituais efeitos exibicionistas, aos bailarinos, aos excessos e lantejoulas.

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Ele, só, com uma canção que a irmã escreveu e a sua técnica. Baixinho, num sussurro, numa atuação sem parafernálias, nem inglês, na fragilidade assumida de uma relação íntima, deixou ficar uma proposta pouco festivaleira, sem a rede do barulho das luzes, assente apenas na interpretação. As casas de apostas colocaram-no entre os favoritos. O júri e o público também. Pode ser afinal que a Eurovisão tenha remédio e se dedique à música e deixe a parafernália, como Salvador aproveitou para dizer no discurso de agradecimento da vitória.

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