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A celebrar 90 anos, Ruy de Carvalho tem de continuar a trabalhar para viver

Oficialmente reformado, o veterano ator, a celebrar 90 anos de idade, diz que o consideram rico, mas que só o é “no pequeno ecrã”. E que lhe “dói” ter de trabalhar para poder conseguir viver com comodidade, ao fim de quase 70 anos de carreira. Leia a entrevista.
Por Sandro Arruda | 27 de fevereiro de 2017 às 18:54
A celebrar 90 anos, Ruy de Carvalho tem de continuar a trabalhar para viver
Ruy de Carvalho faz 90 anos de idade
O ator Ruy de Carvalho
O ator Ruy de Carvalho celebra 90 anos de idade a 1 de março
Ruy De Carvalho
Ruy De Carvalho
Ruy De Carvalho
Ruy de Carvalho, ator
Ruy de Carvalho, ator
Ruy de Carvalho, ator
Ruy De Carvalho
Ruy De Carvalho
Ruy De Carvalho

Oficialmente reformado, o veterano ator – que comemora 90 anos na próxima quarta-feira, 1 de março – diz que o consideram rico, mas que só o é "no pequeno ecrã". E que lhe "dói" ter de trabalhar para poder conseguir viver com comodidade, ao fim de quase 70 anos de carreira. Confessa que os portugueses lhe fazem justiça, ao contrário dos políticos, e que encara a morte com naturalidade: "Ninguém fica cá para compota..."

A 1 de Março, o Ruy comemora os 90 anos. A esta altura da vida, olha mais para a frente ou mais para trás?
Sempre para a frente. Mas, não é de agora, sempre fui assim. Não sou saudosista. Sei que um dia acabo, como todos nós acabamos um dia, porque ninguém fica cá. Mas não me preocupo com isso… Vivo e trabalho com o mesmo prazer, e enquanto puder e me quiserem. E quando não me quiserem terei de encontrar outra forma de me entreter, porque não sei estar quieto. Quem não mexe, fica estacionado na vida…

Não se reforma em definitivo, pese embora seja reformado…
A reforma é uma coisa má que acontece às pessoas. Quem deseja a reforma, se soubesse o que vai custar depois, não a desejava. Três meses depois de estar reformado, sem nada para fazer, sentem necessidade de estarem entretidos. Quem nunca foi preguiçoso vai sentir essa necessidade. Por isso é que aconselho os mais idosos a prepararem-se para o período da reforma, para terem qualquer coisas para fazer. E não chega cuidar dos netos e jogarem às cartas.

É por isso que nunca parou?
Essa é principal razão.

Ou também não o deixaram parar?
Também, felizmente. Só faço o que faço porque não permitem que fique quieto. Não peço nada a ninguém, as coisas é que vêm ter comigo. Não me ponho à frente de ninguém para trabalhar. Nem escolho a importância do trabalho. Seja um protagonista ou uma personagem secundária, o que é preciso é que o espetáculo não pare. E que seja bom. A minha vaidade é representar menos mal.

Em si, isso também é difícil…
Obrigado, mas procuro servir bem as pessoas que me gostam de ver. Essa é uma das minhas máximas de vida.

"SOU RICO... NO ECRÃ"

O Ruy confirma a máxima do vinho do Porto: quanto mais velho melhor?
Curiosamente, ainda há pouco falei nisso. Sim, acho que sou um Porto muito vintage, quatro vezes vintage… [risos] Com a idade e a experiência, vamos apurando as coisas, embora o peso da idade também seja maior. O corpo envelhece, mas a mente não. Devo dizer que tenho um miúdo de 18 anos dentro de mim, o que me dá um grande orgulho.

Quando se vê ao espelho, como lida com essa "contradição"?
Às vezes, admiro-me. Vejo um velhote no reflexo, mas não é assim que me sinto. E como tenho uma pele óptima e não tenho muitas rugas, além dos olhos inchados…

É das noitadas?
Noitadas, mas em casa, quando aproveito para ler e estar sozinho.

Lida bem com a solidão?
Adoro a solidão provocada por mim. Mas, também não tenho muitas oportunidades de estar só, porque tenho filhos, netos e bisnetos. Tenho uma vida preenchida. Sou um homem feliz.

O Ruy teve uma pequena experiência política, quando presidiu à Comissão Nacional para as Políticas da 3.ª Idade...
É verdade, foram-me buscar por ser o mais velho e porque achavam que tinha um contato ótimo com os idosos. E acho que não foi uma atividade inútil, porque andei a dizer aos velhos que ainda eram úteis e que não desistissem de viver.

Este país é para velhos? Cuida bem dos seus idosos?
Já cuidou melhor. E ainda não está aprovado o estatuto, que protege os mais velhos, da ingratidão dos filhos ou das maldades que lhes fazem. Há muita coisa que ainda está por fazer. Esse trabalho foi iniciado no meu tempo, mas ainda não foi aprovado pela Assembleia da República, como aconteceu, agora, com os animais, que passaram a ser seres vivos e eram "coisas". Mas os velhos ainda não estão protegidos, ainda lhes fazem muitas maldades…

Dada a sua visibilidade, não teve pretensão de ter uma carreira política?
Não, de todo. Porque não gosto de mandar, custa-me muito. Gosto de dar o exemplo, faço o meu trabalho com a maior honestidade. Sacrifico-me um bocadinho pelo meu povo, ajudo no que puder…

Recebe muitos pedidos de ajuda?
Alguns são até bastantes grandes, até… Julgam de sou rico, que é a parte engraçada. De facto, às vezes faço de rico, mas não o sou. Já me pediram para pagar uma operação que custava 1500 euros. Pedi desculpas à pessoa e disse-lhe que não podia pagar e ela respondeu: "Ah, não, mas não é tão rico?" Sou rico, mas é só no ecrã.

"AS HONRAS NÃO PAGAM CONTAS"

Está reformado. Tem alguma pensão do Teatro Nacional?
Nenhuma.

Mas esteve tantos anos na companhia…
Pois estive, mas não adiantou nada. Tenho uma pensão de reforma como toda a gente tem. Tenho de continuar a trabalhar porque não chega… Também não gostava de voltar atrás em termos de qualidade de vida, mas as Finanças vão-me tirando o que podem. Não perdoam… Sabe que, para as Finanças, não sou ator, mas um prestador de serviço? É curioso, não é…

Tem uma carreira longa, começou em 1947, como profissional. Não ganhou o suficiente para ter uma velhice tranquila?
Não ganhei o suficiente, e do que ganhei tiraram-me muito. Vivo com alguma comodidade, mas há medida que me tiram vou ficando com cada vez menos. E não queria perder as coisas que ganhei com o meu trabalho. Porque as Finanças levam o dinheiro, a mim e aos outros portugueses, claro…

Acha que o país faz-lhe a justiça que a sua longa carreira merece?
O povo faz, mas o governo ignora. Não todos, porque não fui condecorado depois de morto. Já me deram muitos reconhecimentos em vida, mas isso não são bens materiais. Honram-me, dão-me palmadas nas costas, mas isso não paga as contas. E se não as pagar, tiram-me as condecorações… [risos]. Mas o povo reconhece-me…

Veja a entrevista a Ruy de Carvalho, na íntegra, na edição desta semana da TV Guia.

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