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Entrevista exclusiva

Assunção Cristas: "Rezo várias vezes por dia"

A presidente do CDS e candidata à Câmara de Lisboa revela à FLASH! o seu lado mais pessoal.
Por Ana Cristina Esteveira | 04 de janeiro de 2017 às 17:48
Assunção Cristas tem 42 anos, é mãe de quatro filhos, vive um casamento feliz e é presidente do CDS-PP, um partido ao qual foi parar quase por acaso. Revelações feitas ao longo de um passeio pelas ruas de Lisboa.

A par de tantas outras funções anunciou recentemente a sua candidatura à Câmara Municipal de Lisboa. Não são coisas a mais para uma só mulher?
Se fosse para uma só mulher, provavelmente seria a mais, mas neste não estou sozinha. Há uma equipa, um conjunto de gente mobilizado e pessoas muito entusiasmadas com este projeto. Penso que trabalhando em equipa e, sobretudo, tendo em conta o trabalho que o CDS já fez nestes últimos anos na cidade de Lisboa, com um vereador extraordinariamente ativo, atento e muito interventivo nos vários domínios, acho que temos o trabalho facilitado. Não vamos começar do zero, mas sim de uma base de trabalho bastante consolidada e, portanto, acho que é um desfaio extraordinário embora muito exigente.

Mas o facto de ser exigente nunca foi um impeditivo para si.
É verdade. Gosto das coisas exigentes, acho que é para isso que cá estamos. Se fosse muito fácil também não nos entusiasmava. Com trabalho já feito com muita vontade de construir um projeto mobilizador para a cidade, com muitas pessoas que se vão aproximando e nos quer ajudar e ainda agora iniciamos um ciclo de conferências ‘Ouvir Lisboa’, que é coordenado pelo Prof. Carmona Rodrigues, que é um independente, e no qual vão falar independentes para nós ouvirmos. Não é o CDS a falar para fora, é o CDS a ouvir das pessoas que estão na cidade e que fazem trabalho nos vários domínios.

Colocando o cenário de não ganhar as eleições, aceitará ficar como vereadora?
Certamente. Perguntaram-me isso logo no início e nestas coisas procuro sempre ter grandes doses de realismo e humildade. Sei que é difícil ganhar, é muito difícil tirar um presidente de câmara em exercício, por alguma coisa foi preciso aprovar a lei de limitação de mandatos para o poder autárquico. É difícil, mas não acho impossível. Estamos muito preparados e entusiasmados para fazer o melhor e conseguir ganhar a confiança dos lisboetas. Mas se os lisboetas considerarem que é não é o momento, há que ter a humildade para exercer aquilo para o qual fomos eleitos. Se é para funções executivas, vamos a isso; se é para colaborar na oposição fazendo uma oposição forte e construtiva, pois lá estaremos também. Isso é o que já fazemos a nível nacional e faremos o mesmo na cidade de Lisboa.

Já que fala nisso, como têm decorrido estes últimos meses como presidente de um partido que está na oposição?
Tem sido, uma vez mais, um trabalho muito exigente. A nossa postura tem sido sempre forte, onde achamos que devemos ser fortes denunciando o que está mal, mas sempre procurando bases de consenso e de forma construtiva encontrar pontos para que as coisas possam melhorar.

Disse que quando escolheu ser professora, era porque isso lhe permitia ter uma vida mais disponível para a família e ter maior flexibilidade. Mas acabou por enveredar por um outro caminho.
É verdade e com isso deixei de ter o tempo que desejava. Na verdade, quando comparo o tempo pós doutoramento em que fiquei professora em exclusividade na faculdade, de facto não houve melhor tempo do ponto de vista de conciliar a família com o trabalho. Não estou a dizer que trabalhava menos, trabalhava era de uma forma diferente, mais programada, sem sobressaltos e podia fazer aquilo a que chamava os "três turnos". Isso passava por fazer quase jornada contínua de manhã até à hora que as crianças deixavam as aulas. Esta era altura do dia em que começava o segundo turno. Ia buscar os meus filhos à escola, acompanhava-os às atividades extracurriculares e jantávamos. Depois, começava o terceiro turno, ou seja, quando tinha tempo para estudar, escrever e corrigir exames. Hoje em dia já não é assim. Apesar de tudo, como não tenho um trabalho de entrar e sair todos os dias à mesma hora, também me permite alguma flexibilidade. Os meus dias são todos diferentes; uns mais exigentes em que não estou, mas depois procuro compensar com outros que podem ser um bocadinho mais aliviados. Por exemplo, a comissão executiva do CDS passou a ser à hora de almoço precisamente para não prejudicar as noites.

Os seus filhos nunca cobraram as suas ausências?
A minha filha mais velha era muito crítica. Quando fui para o parlamento ela tinha oito anos e reclamava imenso. O parlamento foi para mim uma fase muito dura, especialmente pelo contraste que existia em relação à faculdade e porque estava na Comissão do Orçamento e Finanças, que me obrigava a estudar imenso porque não ser uma área que dominava. Com a chegada da Troika logo a seguir foram dois anos de intensidade máxima. Foi especialmente nessa altura que a minha filha mais velha reclamava dizendo que para o parlamento só deveriam ir pessoas sem filhos. Entretanto, isso já lhe passou. Está reconciliada e acha que é importante.

E a sua exposição pública nunca causou desconforto na família, especialmente nos seus filhos?
Não. Eles reagiram sempre de maneira diferente à minha exposição. O meu segundo filho, por exemplo, estava sempre muito preocupado quando eu era abordada na rua pelas pessoas. Queria sempre saber se vinham ter comigo para falar bem ou mal. Mas regra geral nunca passei por situações menos agradáveis porque os portugueses são sempre bem-educados nas suas abordagens. Pelo que me lembro, houve um caso ou outro mais desagradável na altura da Troika. A minha filha mais velha ficava mais envergonhada com estas abordagens, enquanto para o terceiro está sempre tudo bem. A mais pequenina, já ‘nasceu’ neste ambiente pelo que para ela é tudo normal.

O seu percurso político seria possível sem a ajuda do seu marido?
Não diria ajuda, mas sim a partilha constante de tudo. Ele é o meu porto de abrigo, o suporte fundamental da nossa vida. Sem o meu marido, não é a ajudar mas a partilhar as responsabilidades conjuntamente, era absolutamente impossível estar na política ou numa vida profissional mais ativa. Ter quatro filhos representa muitas responsabilidades e uma grande organização prática da rotina familiar que exige a repartição de tarefas ou, então, é impossível. Nesta fase da nossa vida, as coisas acabam por sobrar mais para o meu marido embora procure que não seja muito duro também para ele.

Numa sociedade ainda um tanto machista, o seu marido nunca se importou que as atenções estejam todas sobre si?
Isso terá de lhe perguntar a ele, mas acho que ele vive bem com isso apesar de sentirmos que a sociedade ainda é machista.

Que benefícios tira de ter nascido numa família de cinco filhos?
O maior de todos é saber que posso contar com ela para tudo. A minha família é um suporte muito grande para mim. Ao sábado, por exemplo, há sempre um almoço em casa dos meus pais onde nos encontramos todos. Este é daqueles almoços a que faltamos apenas se houver algo maior. Isto para mostrar o quanto a família é para mim um pilar muito relevante. É uma forma mais alargada de estar em família, de descansar e é tão bom ter sobrinhos da idade dos meus filhos. A minha vida não se organiza sem pensar neste apoio familiar.

Se tivesse que escolher entre a família e a carreira?
Se me exigissem uma decisão com esse radicalismo, ficaria com a família sem hesitações. Mas deixe-me dizer que sempre me rebelei contra isso. Já em miúda lembro-me de ficar furiosa com o meu pai quando ele dizia que as mulheres na prática são as que acabam sempre por ter mais responsabilidades familiares. Dizia-lhe que isso não poderia ser assim já que as responsabilidades têm de ser iguais. Sempre achei que é possível conciliar tudo e continuo a batalhar para que assim seja.

Nunca se sentiu prejudicada por ser mulher?
Não, isso não.

Que importância é que Deus tem na sua vida?
Não me imagino numa vivência sem Deus. Rezo várias vezes por dia e temos uma conversa contínua e inacabada. É um desejo de conhecer mais, de estar mais próxima e de me aperfeiçoar. Lembro-me de ser miúda e de ter um feitio apelidado de ‘difícil’ por ser muito pespineta e ser do contra. Razões para a minha mãe me sinalizar e dizer que não podia ser assim. Respondia-lhe: ‘Não tenho a culpa, nasci assim’. Aí, respondia-me: ‘Tens a vida toda para te modificares’. Isso foi ficando e eu continuo a achar que isso é verdade. Temos de perceber que, com a ajuda de Deus, temos uma vida inteira para melhorar.

Os seus pais já lhe adivinhavam um futuro de sucesso devido a esse feitio ‘difícil’?
O meu pai dizia que me deixava falar mais por achar graça à forma como eu argumentava e esgrimia posições. Diziam que era muito persistente. Embora fosse corrigida muitas vezes, acho que os meus pais apreciavam uma série de características que, bem orientadas, podem ser positivas. Era boa aluna, aliás sempre fui boa aluna, e nesse aspeto os meus pais sempre tiveram um sentimento que não tinham que se preocupar muito comigo, o que não quer dizer que me lhes passava pela cabeça que iria ter sucesso. Era mais isso…

Foi parar à política quase por mero acaso.
Foi isso mesmo, um acaso. O meu pai ainda hoje se lembra de uma professora de português que o alertava a ter cuidado comigo, pois se eu virasse para o partido Comunista iria ser um horror. Estava eu longe de pensar que a minha vida iria passar pela política.

Mas sempre se identificou por esta área política?
Os meus pais, curiosamente, sempre votaram CDS, portanto era normal que me identificasse mais com esta área. Quando o Paulo Portas me desafiou estava muito longe da política. Tinha estado em movimentos mais ligados à Igreja e à acção social. Achava até que essa seria sempre a minha ação mais cívica. Quando fui convidada a entrar para o CDS não fazia a menor ideia como funcionava um partido político. Ponderei muito e falei com muitas pessoas antes de dizer que sim.

Nunca se arrependeu?
Não, pelo contrário. Acabei por gostar e de achar que as coisas faziam sentido. Agora, sinto esta dívida para com a política e para com o CDS.

Se tivesse escolhido o PSD não seria mais "vantajoso" para si por ser um partido maior?
Não andei à procura de partido, foi o partido que veio ter comigo. E como já disse, o CDS sempre foi o partido com o qual mais me identifiquei. Nunca houve da minha parte uma ambição ou interesse.

Foi a primeira mulher a estar grávida no decorrer das suas funções governativas e a primeira mulher a ser ministra da agricultura. É sempre a primeira em tudo?
Nem nunca fui a primeira em tudo. Na escola era boa aluna mas não era a primeira. Nunca fui líder, nunca fui a mais popular da escola, pelo contrário, era tranquila.

Mas tornou-se uma líder. Foi a vida que a levou para isso?
Tenho uma coisa que, herdei dos meus pais, que é achar que temos o dever na vida de dar o melhor de nós. Se é para fazer, é para fazer bem.

É uma mulher feliz?
Muito, muito…

Não lhe falta nada?
Acho que nas nossas vidas há um desassossego permanente, mas seria se assim não fosse. Mas o meu desassossego tem muito a ver com a fé, com um caminho que nunca está completo e com uma procura de fazer mais e melhor. Não tem a ver com angústias profundas.

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