Notícia

História de vida

Eusébio: As lendas não morrem

Eusébio da Silva Ferreira faria, esta quarta-feira, 75 anos. Em jeito de homenagem, o site FLASH! revela os detalhes secretos que conduziram o 'Pantera Negra' ao sucesso.
Por Sandro Bettencourt | 25 de janeiro de 2017 às 09:58
A carregar o vídeo ...

A morte do pai, Laurindo António, vítima de tétano foi o primeiro sinal pungente de que Eusébio da Silva Ferreira haveria de ter de lutar a pulso para vencer. O desaparecimento precoce do chefe de família acabou por deixá-lo, à sua mãe, Elisa Anissabene, e aos sete irmãos numa situação financeira muito complicada. Eusébio morava numa casa de madeira e zinco, no bairro pobre de Xipamanine (Mafalala).

No interior existiam duas salas e mais duas outras divisões exíguas, onde a família dormia em esteiras. Para conseguir alimentar oito filhos, a mãe, doméstica, fazia um esforço sobre-humano. Nunca faltou comida sobre a mesa, mas o dinheiro, esse, escasseava sempre. Os estudos ainda foram uma alternativa ponderada para o futuro de Eusébio. No entanto, esse projecto morreu à nascença uma vez que exigia, logo à partida, a compra de roupas e sapatos adequados.

Ciente das dificuldades financeiras da família o menino da Mafalala agarrou-se às memórias do seu pai, um branco angolano muito respeitado pelos feitos realizados nos campos pelados da sua terra. Os momentos gloriosos de Laurindo António, com a bola nos pés, chegavam-lhe sobretudo através de relatos dos amigos mais velhos. "Cheguei a vê-lo jogar. Tinha classe. Senti muito a sua falta", acabaria por revelar anos mais tarde. O futuro "monstro" do futebol português sempre foi humilde e sociável, daí o facto de nunca lhe faltarem amigos e também uma bola para brincar, nas ruas de Xipamanine.

...

A PAIXÃO PELO FUTEBOL

De manhã à noite o Pantera Negra jogava até à exaustão e sempre descalço. Parte do seu tempo era também passado com os vizinhos e os amigos de infância a ler os recortes de jornal que iam encontrando na rua e que continham os feitos gloriosos dos seus ídolos. Liam-nos vezes sem conta. No final, depois de devidamente informados sobre o mundo desportivo, recortavam cuidadosamente as fotos dos craques preferidos e colavam-nos, com goma que extraiam das árvores, em velhas listas telefónicas que serviam de álbuns.

Com os estudos completamente colocados de parte-fez o exame da quarta classe já em Lisboa- foi ainda em criança, incentivado pela própria mãe, que Eusébio percebeu que o seu futuro era indissociável do futebol. A paixão pelo argentino Alfredo Di Stefano, o génio do Real Madrid, começou a ganhar forma precisamente nessa altura. Como estava longe Eusébio de imaginar que um dia conseguiria alcançar a sua fama e prestígio.

Elisa Anissabene foi uma pessoa determinante para que conseguisse cumprir o sonho de se tornar primeiro, jogador profissional, e mais tarde um dos melhores do mundo. Católico praticante Eusébio ainda hoje, com 71 anos dá graças a Deus por ter seguido os conselhos da mãe para se aplicar no futebol. Ele sabe que, se hoje em dia o seu nome figura entre os dez melhores futebolistas do mundo, a ela deve parte desse estrondoso sucesso.

...

 

O CRAQUE DA MAFALALA

Acabou por ser um cauteleiro, o Sr. Chico, o primeiro homem a descobrir o talento de Eusébio nas famosas peladinhas da Mafalala. Entre os 12 e os 15 anos defendeu com abnegação as cores de uma equipa do bairro, Os Brasileiros Futebol Clube e não precisou de muito tempo para se afirmar como sendo o melhor jogado do plantel. Era chegada a altura de dar o salto e quando decidiu escolher um clube de monta, em Moçambique, não hesitou.

O pai Laurindo era benfiquista dos sete costados e em várias entrevistas que deu ao longo da carreira, Eusébio nunca escondeu que a afeição pelo Sport Lisboa e Benfica foi, em parte, uma espécie de herança paterna. Nesse sentido, começou por tentar a sorte no Desportivo de Lourenço Marques, a filial do Benfica. Surpreendentemente é rejeitado por duas vezes. A desilusão de imediato se transforma em revolta.

Acompanhado por cinco amigos da Mafalala enche-se de coragem e bate à porta do Sporting de Lourenço Marques. O treino ministrado por Nuno Martins já havia terminado quando de repente o roupeiro avisa o mister que haviam chegado seis miúdos para treinar. Como que a adivinhar o futuro, o técnico pede aos jovens para se equiparem. O drible curto e o sentido de baliza de Eusébio deixaram-no atónito e decidiu logo inscrevê-lo.

A candura e a humildade de espirito sempre foram duas das principais características do craque moçambicano. E nesse dia, isso ficou bem provado. Nuno Martins rejeitou ficar com todos os atletas que haviam prestado provas dentro das quatro linhas, mas Eusébio intercedeu de forma implacável: "Ou são todos inscritos ou não é nenhum." Acabaram por integrar todos o plantel do Sporting de Lourenço Marques.

...


HUMILDE DESDE O INÍCIO

Com 17 anos Eusébio chega a equipa principal e começa a deslumbrar todos quantos o vêem jogar. A estreia acontece precisamente com o clube que havia dispensado os seus préstimos. O craque vinga-se com três golos, mas no final chora pelo facto de ter humilhado o emblema do seu coração. A admiração pelo menino era tão grande que os sócios do clube lhe davam 10 escudos por cada golo que marcava e aos 18 anos era a grande figura do futebol moçambicano e uma enorme esperança para o futebol português.

A paixão pelo desporto rei, apesar de ser cada vez mais intensa, nunca lhe toldou o espírito relativamente às tremendas dificuldades financeiras da mãe. Por esse motivo, ao mesmo tempo que brilhava nos relvados de Moçambique, arranjou emprego no arquivo da Guérin, uma empresa que vendia acessórios para automóveis. Por mês ganhava 1.200 escudos e mais de metade desse dinheiro dava-o à progenitora. O resto gastava-o com idas ao cinema acompanhado por Flora, o grande amor da sua vida com quem viria a casar, em Portugal, depois de se transferir para o Sport Lisboa e Benfica.

Ao invés do que se possa pensar, o primeiro clube português a demonstrar interesse em Eusébio da Silva Ferreira foi o Belenenses. Quando o pantera tinha 17 anos, a equipa de Belém fez uma digressão a Lourenço Marques, actualmente Maputo, e o treinador, Otto Glória, ficou deslumbrado com as suas qualidades. No entanto, a paixão nunca foi consumada e foi efectivamente o Sport Lisboa e Benfica a conseguir ficar com a jóia africana que, nesse ano, fez 29 golos no campeonato moçambicano. Ainda assim, a operação de charme levada a cabo pelas águias levou um ano até chegar a bom porto.

...


DIAMANTE EM BRUTO

A destreza, a técnica fora do comum, a inteligência e sobretudo os golos de Eusébio, amplamente divulgados pela imprensa e crítica moçambicana, começam a ressoar, em Portugal. Já ninguém duvidava de que existia um diamante em África, pronto para ser delapidado, inclusive em Alvalade. Hilário jogador do Sporting, na altura, e também amigo de infância de Eusébio informa-o de que existe interesse do clube em fazer-lhe alguns testes de observação, em Lisboa.

Os emissários leoninos quiseram jogar pelo seguro e o tiro acabou por sair-lhes pela culatra. Eusébio, e sobretudo a D. Elisa rejeitaram a proposta e não quiseram falar com mais nenhum dirigente do Sporting Clube de Portugal. Conhecedores deste episódio e também do interesse do FC do Porto, os responsáveis do Benfica não quiseram perder tempo e aproveitaram uma viagem com a equipa à capital moçambicana para tratar do negócio com celeridade.

Em Junho de 1960, o major Rodrigues de Carvalho, representante das águias em Lourenço Marques, marca encontro com a mãe de Eusébio e oferece inicialmente 110 contos (550 euros) pelo jogador. Elisa Anissabene, desacostumada a ver tanto dinheiro, assinou, tal como o irmão mais velho do Pantera Negra, o contrato. Sentido que o assédio estava a aumentar, no mês de Novembro, os encarnados oferecem mais 140 contos (700 euros) a D. Elisa.

...


O TELEFONEMA SECRETO

Dia 13 de Dezembro de 1960. No Talho nº 5 do Mercado Central de Lourenço Marques, em Moçambique, envoltos numa onda de total secretismo, o talhante benfiquista Mário Tavares de Melo; o representante do clube da Luz em Moçambique, major Rodrigues de Carvalho; Eusébio da Silva Ferreira e o seu primo Armando Silva, limavam os últimos pormenores sobre a transferência do menino da Mafalala para o Benfica.

De súbito a conversa entre estes quatro homens é interrompida pelo barulho estridente do telefone. Do outro lado da linha estava Gastão da Silva, director do departamento de futebol do Benfica: "Está tudo tratado. Ruth tem de embarcar hoje." Sim, Ruth Malosso, foi o nome de código com que Eusébio viajou entre Lourenço Marques e Lisboa, para despistar os dirigentes do Sporting, que estavam longe de desistir da sua contratação. Mário Tavares de Melo e o major disparam a correr do talho. Compram uma mala para que Eusébio possa arrumar as suas roupas e quando chegam a sua casa já Elisa Anissabene tinha a roupa dobrada e pronta a ser guardada.

Eusébio sente um aperto no peito. Ele queria passar o Natal com a mãe, no entanto, valores mais altos se levantavam. De facto, o negócio estava a ficar cada vez mais intrincado e polémico. O Sporting de Lourenço Marques exigiu ao representante do Benfica 150 contos (750 euros) pela carta de desobrigação do jogador, um documento fundamental para que tudo fosse feito de forma legal e transparente. Quando o major arranjou a quantia, o clube africano deu um passo atrás e deixou a transferência em suspenso.

...


 


SPORTING TENTA TRAVAR O NEGÓCIO

Entretanto, a partir da capital portuguesa, a direcção leonina tenta aliciar a filial em Moçambique com o pagamento de 250 contos (1250 euros) para obter a carta de desobrigação. Neste, como em todos os momentos de uma novela que deu frutos durante um ano, a mãe de Eusébio foi crucial para que o filho se tornasse jogador do Sport Lisboa e Benfica. "Benfica deu dinheiro grande. Sporting deu 20,50 escudos. Nunca dinheiro grande como o Benfica", revelou mais tarde D. Elisa que se mostrou sempre irredutível em voltar com a palavra atrás.

De supetão e a toda a velocidade Eusébio foi levado para o aeroporto num Volkswagen e só quando entrou para o avião é que se apercebeu que ia viajar com um nome falso. O craque embarca a 14 de Dezembro de 1960 e chega a Lisboa no dia seguinte, uma quinta-feira, às 23:30. À sua espera estava o drigente Domingos Claudino e mais dois funcionários do Benfica. Ainda hoje se conta em Moçambique que o dono do Talho nº 5, Tavares de Melo, chegou a enviar dois telegramas ao mesmo tempo para Portugal e assinados como Conceição Malosso.

O que seguiu para o Sporting dizia que Eusébio viajava no navio Príncipe Perfeito. Já o que chegou à Luz confirmava a viagem do jogador de avião. O resto da história, recheda de êxitos e glórias dentro das quatro linhas, todos a conhecem. O legado de Eusébio, que esta quinta-feira, dia 25 faria 75 anos. é imortal.

...




Comentários

Comentários
este é o seu espaço para poder comentar as nossas notícias!

Mais Lidas

+ Lidas

Newsletter

Newsletter

Subscreva a newsletter e receba diáriamente todas as noticias de forma confortável