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Autárquicas 2017

Joana Amaral Dias: "Lutamos para que haja uma voz de vereação ativa e independente"

A conhecida psicóloga clínica é a candidata do Nós, Cidadãos! à presidência da Câmara Municipal de Lisboa. Garante que os principais problemas da capital - habitação, trânsito e transportes - estão identificados há mais de duas décadas e que só ainda não foram resolvidos por "falta de vontade política".
Por Ana Cristina Esteveira | 29 de setembro de 2017 às 08:11
Nos últimos anos Joana Amaral Dias tem tido uma crescente exposição mediática. Além de psicóloga clínica e política [já foi uma das dirigentes do Bloco de Esquerda] é também comentadora televisiva e colunista. Agora, é candidata à presidência da Câmara Municipal de Lisboa pelo Nós, Cidadãos!. Um movimento que define como "um movimento de cidadãos, pela cidadania, pela independência, pela possibilidade de ter uma voz mais ativa e que não seja tão espartilhada pelo sistema politico-partidário tradicional".

Joana Amaral Dias, que nunca diz não a um bom combate político, move-se essencialmente pelos seus ideais e pela sua vontade em dar um contributo "por muito pequeno que seja" à sociedade. Nesta entrevista, Joana, de 42 anos e mãe de Vicente e da pequena Luz, que têm 20 anos de diferença entre eles, fala-nos também das vantagens e desvantagens de ser uma mulher na política e de como ainda temos uma sociedade "conservadora e patriarcal". Mas o seu foco principal, são as propostas que tem para resolver os 3 principais problemas da capital: habitação, trânsito e transportes.
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Joana Amaral Dias no topo do Parque Eduardo VII Foto: Carlos Ramos

Escolheu o Parque Eduardo VII por ser um dos seus locais de eleição, em Lisboa.
É verdade, gosto muito do Parque Eduardo VII. Claro que como candidata à Câmara Municipal de Lisboa gostava de ver algumas alterações no parque, nomeadamente que fosse mais amigável, mais amigo do utilizador, além de ter zonas pouco arborizadas. Mas na verdade, e foi por isso que escolhi este local, é muito central e tem uma vista absolutamente magnífica sobre a cidade.

É um jardim que lhe diz muito, então.
Como fica no coração da cidade, coração esse que vai do Lumiar à Baixa, acaba por me dizer muito, sim. Também gosto muito do casco histórico da cidade, do qual fazem parte muitos dos bairros mais antigos, como o Bairro Alto, por exemplo. Também me diz muito por se tratar de uma zona da cidade que, como toda a gente sabe, foi reconstruída depois de ter sido muito afetada pelo terramoto de 1755. Marquês de Pombal, provavelmente o maior presidente da Câmara Municipal de Lisboa, reconstruiu a cidade tentando imprimir-lhe um foco mais urbano e cosmopolita. Ele que era um estrangeirado e que tinha estado muitos anos como diplomata na Europa, vinha com o rasgo e a visão de dar uma maior dinâmica a Lisboa. Para resumir, considero que esta zona é muito inspiradora precisamente por tudo isso, embora o Marquês de Pombal seja uma figura um tanto controversa. Ainda assim, teve essa audácia e isso não pode deixar de ser inspirador, como disse.

O que a levou a aceitar o desafio de se candidatar à Câmara Municipal de Lisboa pelo movimento Nós, Cidadãos?
Em primeiro lugar porque gosto de desafios. Se me chamam à liça, tenho alguma dificuldade em resistir. Além de gostar muito de política, claro, gosto do combate, de travar uma boa discussão de ideias, de poder fazer propostas e de as ver a ser pensadas, argumentadas e contra-argumentadas. Também aprecio pegar no jogo dos outros e fazer essa mesma discussão. Além do mais, Lisboa diz-me muito.

Mas esta não é sua cidade.
Não foi a cidade onde nasci, mas tal como acontece com a maior parte dos lisboetas, é a cidade de coração, de adoção e a que escolhi para viver com os meus filhos, com a minha família. Os meus pais e todas as minhas irmãs também moram em Lisboa. Como cidadã, também tenho  vivido e sentido na pele algumas das dificuldades da cidade, dificuldades que os "alfacinhas" vivem diariamente se quiserem  ter alguma qualidade de vida. Conheço bem essa luta e, portanto, fazia sentido aceitar o desafio do ‘Nós, Cidadãos’.

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Que movimento é esse?
Um movimento de cidadãos, pela cidadania, pela independência, pela possibilidade de ter uma voz mais ativa e que não seja tão espartilhada pelo sistema politico-partidário tradicional. É evidente que isto me diz muito, pois muito antes de ser deputada fui dirigente associativa durante muitos anos, estive muito ligada a movimentos sociais, a movimentos no fórum mundial e, portanto, isso é-me orgânico e faz parte do meu código genético. Tudo razões pelas quais não poderia deixar de aceitar este desafio.

Ser uma mulher bonita contribui para melhores resultados nas urnas?
Tanto ajuda como desajuda, porque ser mulher tem sempre vantagens e desvantagens. Vantagens porque para algumas pessoas continua a ser motivo de curiosidade dado que continuam a existir menos mulheres na política, aliás em todas as esferas de poder. Entre as  devantagens está o facto das mulheres serem rapidamente apoucadas e diminuídas quando estão a exercer ou a gladiar-se por esses mesmos cargos de poder. Por exemplo, as observações sobre as indumentárias que vão deSégolène Royal, passando pela mulher do atual presidente francês, Brigitte Macron, até à chancelarina alemã, Angela Merkl, são constantes.

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Joana Amaral Dias Foto: Carlos Ramos

O eleitorado olha de diferentes formas para um homem e para uma mulher, é isso?
Começa logo por nunca se perguntar a um homem como é que conjuga a sua vida familiar com a política e essa pergunta é recorrente nas mulheres. As mulheres estão sujeitas a outros tipos de questões e observações. Não faço disso o alfa e ómega da minha luta política, embora  o feminismo e o combate pela igualdade dos direitos das mulheres estejam entre as minha prioridades. Mas não faço disso uma vitimização, porque nem sequer faz parte da minha personalidade.

Já a mandaram ira para casa coser meias, por exemplo?
Claro. Já fizeram todo o tipo de observações. No meu Facebook, por exemplo, todos os dias levo com comentários como ‘és demasiado bonita para a política’, ‘não deverias estar em casa a tomar conta dos teus filhos?’, ‘onde estão os teus filhos?’… isto é permanente.

Acredita que são comentários que se estendem a todas as mulheres que estão na política?
Não é só comigo, tenho a certeza. Grande parte das mulheres na política são alvo deste tipo de chacota, tentativas de vexame e de assédio. Isto não é aceitável! Portugal ainda tem o grave problema de machismo, racismo e o de uma sociedade muito conservadora e patriarcal, além de agressiva para quem não seja homem branco de classe média, digamos assim.

É utente dos transportes públicos?
Muito. Sou essencialmente frequentadora da linha amarela e verde (metropolitano). Sou moradora da freguesia de Alvalade e sinto muito na pele os problemas do metro e dos transportes públicos em geral. Uso muito o metro por pragmatismo, ecologia, civismo e também para fugir à EMEL que é uma entidade persecutória do cidadão lisboeta. Faço-o por todas estas razões, e não por razões económicas, pois os transportes públicos em Lisboa são caríssimos. Se fizer  as contas ao meu passe, ao do meu marido e ao do Vicente [filho de Joana Amaral Dias], acaba por sair mais barato andar de carro.

Para além do preço, que outros problemas identifica?
Olhe, fico imensas vezes apeada na plataforma porque as carruagens passam cheias; se por acaso vou a chegar à estação e saiu um comboio, tenho de esperar 8, 10, 15 minutos, tempo de espera que aumenta substancialmente ao fim-de-semana; nem sempre existem as condições de salubridade desejadas; depois, uma mãe como eu, que ande com carrinhos de bebés. tem imensos problemas de acessibilidade dado que nem todas as estações têm elevador. E ainda há a questão das pessoas de mobilidade reduzida. É urgente melhorar o que já existe e depois, sim, avançar para o alargamento as linhas de metro. E a mesma coisa aplica-se também à Carris.

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Joana Amaral Dias Foto: Carlos Ramos

Que cidade preconiza?
Uma cidade inclusiva, uma cidade para toda a gente, onde todos possam viver com tranquilidade e qualidade. Há uma coisa que me faz muita confusão nesta campanha por Lisboa que é assim: os 3 principais problemas, habitação, estacionamento e transportes, já estão diagnosticados há pelo menos 20 anos. A questão que se coloca é porque é que isto não se resolve?

A seu ver porque é que não se resolve?
Por falta de vontade política. Têm-se feito outras opções, têm-se alocado verbas para outros destinos, tem-se priorizado outras matérias e, portanto, não se tem tido em conta aquilo que é verdadeiramente essencial para o residente lisboeta. A população, que é das mais envelhecidas, está completamente abandonada. Temos de cuidar mais e melhor das pessoas que cá vivem.

E dos que chegam todos os dias para trabalhar?
Podemos e devemos continuar a receber toda a gente e, evidentemente, aquele 1 milhão de pessoas que vêm todos os dias para a capital para trabalhar e estudar. Só que nisto, como em tudo, temos de começar a casa pelas fundações. Isto de começar a construir a casa pelo telhado não dá resultado. Não tenho nada contra o embelezamento da cidade e que se façam obras para o cartão-de-visita, mas antes de tudo há que começar pelo que é básico e necessário.

De quanto é que precisamos para conseguir pagar a renda de um apartamento em Lisboa?
A renda média é 830 euros, mas isso inclui autênticos buracos para as pessoas viverem. Quem conhece minimamente o mercado imobiliário em Lisboa, sabe bem que eu não estou a brincar, pois há mesmo buracos a alugar por 700, 800, 900. Portanto, 1000 euros é quanto precisamos para ter uma casa minimamente decente. A isto somam-se 200 ou 300 euros de transportes públicos para uma família, as despesas de alimentação, mais água, gás e electricidade. Recordo que o salário médio dos portugueses ronda os 700 euros.

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Chega-se à conclusão de que não é fácil viver na capital.
É por isso mesmo que as pessoas não vivem em Lisboa e não por não gostarem da cidade. Optam pelos concelhos limítrofes porque Lisboa acaba por ser incomportável.

O turismo veio piorar esta questão?
O turismo tem sido uma bênção, um bálsamo para a cidade. Precisávamos muito de dinamizar a economia da capital, a economia do país, de resto, e por isso sou muito recetiva a esta ideia. O que não podemos deixar é que seja essa onda a levar-nos. Nós é que temos de cavalgar a onda do turismo, ou seja, pegar as rédeas e decidir que tipo de turismo queremos, como queremos e em que zonas da cidade. Por exemplo, não podemos permitir que sejam as operadoras de turismo a decidir que tipo de turistas é que vêm para cá e que zonas das cidade é que vão ocupar. Convém ainda que haja uma articulação com os concelhos limítrofes para que as pessoas possam usufruir de outras coisas fora da capital. A dispersão, tanto dentro da cidade como fora dela, só favorece Lisboa.

Independentemente do resultado alcançado, como vai dormir na noite de 1 de outubro?
Lindamente. Obviamente que a probabilidade de ser eleita para presidente da Câmara Municipal de Lisboa é muito reduzida, mas estamos a lutar para que haja uma voz de vereação ativa e muito independente, em Lisboa. Esse é o nosso grande objectivo e ficaríamos muito felizes se elegêssemos uma vereadora independente para a câmara ou para a assembleia municipal [Joana Amaral Dias encabeça as duas listas], mas se não formos eleitos continuaremos o combate o melhor que sabemos e podemos.

E há dinheiro para prosseguir esse combate?
Claro que temos muitas restrições a esse nível. Não temos campanhas milionárias, como acontece com os 5 grandes partidos, nem a estrutura de uma máquina partidária. Ainda assim, acredito que fazemos uma campanha digna, séria e com boas ideias. Voltando à sua pergunta anterior, vou dormir como um bebé.

E se for eleita?
Nesse caso vou dormir mal [risos]. Mas fica o aviso que vou assumir integralmente seja como deputada municipal, seja como vereadora e vou mostrar até à última como valia a pena ter uma vereação independente ou uma representação independente na assembleia municipal.

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Joana Amaral Dias Foto: Carlos Ramos

Ainda está zangada com o Bloco de Esquerda?
Nunca estive zangada com o Bloco. Parece-me que é o Bloco que esteve e está mais zangado. Nunca estive zangada, mas neste momento estou mais desiludida. Já estive uma fase mais indiferente, neste momento mais desiludida porque acho que Portugal deixou de ter uma oposição lutadora e, portanto, qualquer democracia precisam de oposições fortes e ativas. Sou apologista que da discussão nasce a luz. Neste momento, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista batem palmas ao António Costa e ao Fernando Medina às segundas, quartas e sextas, e às terças, quintas e sábados criticam-nos.

Quem é Joana Amaral Dias?
Sou uma pessoa inquieta, adoro a vida, gosto muito da minha família e dos meus amigos; adoro fazer desporto, adoro cães, adoro água e comer, gosto muito de ir à praia. Também me senti sempre uma privilegiada porque venho de uma social privilegiada, os meus pais são médicos, e sempre tive uma vida muito confortável e sempre senti que devia, de certa forma, retribuir à sociedade, e dar um contributo mesmo que pequeno. É essencialmente  isso que me move a participar.

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