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Carlos Rodrigues
Carlos Rodrigues Grelha da semana

Notícia

A televisão salva vidas

Cristina foi ao 'Você na TV' e contou o seu isolamento profilático. Os afortunados espetadores terão aprendido mais sobre a Covid naqueles minutos do que em meses de comunicação institucional. O programa contribuiu para salvar vidas.
12 de novembro de 2020 às 13:43
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cristina ferreira com máscara

No combate à Covid-19, tem crescido a ideia de que o governo falhou sobretudo na comunicação. Trata-se de uma afirmação errada, porque os dois grandes pecados das autoridades são a falta de planeamento do serviço nacional de saúde, e a falência da prevenção nos lares de idosos, fator crítico porque a mortalidade dispara nos mais velhos. Mas a incompetência dos responsáveis pela saúde e pelos lares não apaga, apenas atenua, os erros de comunicação, que os há, e graves. O vírus não é o fim do mundo. Não é preciso mudar a civilização para o combater. Ao contrário de outros grandes males, como o cancro, desta vez temos ao nosso alcance formas eficazes de travar a doença. Impõe-se explicar com total simplicidade, e de forma que todos entendam, como se apanha, o que se deve fazer para evitar a infeção – máscara, mãos lavadas, distância física uns dos outros -, como se deve reagir se tivermos contacto com pessoa infetada, quantos dias devemos ficar em casa para travar propagações, quando devemos fazer testes. Neste domínio, um elogio, esta semana, para Cristina Ferreira.  Cristina foi ao "Você na TV" e contou o seu isolamento profilático. Contou quantos dias esteve em casa, quais os riscos a que se tinha exposto, como se relacionou com o filho e com os pais, que cuidados teve, quais os timings para fazer o teste. Vi a gravação: os afortunados espetadores terão aprendido mais sobre a Covid naqueles minutos do que em meses de comunicação institucional. O programa contribuiu para salvar vidas. Envolver estrelas de televisão no trabalho de esclarecimento, e colocá-las ao serviço da prevenção: eis um precedente que a DGS deveria replicar.  

 

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José Rodrigues dos Santos

? José Rodrigues dos Santos 

É o pilar principal do Telejornal, que apresenta há décadas. Trata-se de um pivot com uma técnica inimitável, e que junta à crueza das notícias a acutilância das perguntas, tudo aliado a uma comunicação muito particular com o público. O Telejornal também se adaptou a ele, e é baseado no princípio de uma notícia-uma peça. Ganha quase sempre à TVI, e na sexta-feira foi o mais visto. Será um valor seguro por muitos anos.

 

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Donald Trump

? Televisões americanas

A maior parte das estações norte-americanas interrompeu o discurso de Trump, sob a alegação de que estava a dizer mentiras. Eis um precedente perigosíssimo. Se os media começam a cortar declarações, qual o limite? E quem estabelece o critério aparentemente extra-editorial? Transmitir a mensagem política e depois fazer jornalismo por cima dela, e sobre o seu conteúdo, é a mais correta opção editorial.

 

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António Costa

? António Costa

Pessoalmente, não tenho memória de uma conferência de imprensa de um primeiro-ministro à meia-noite. Pior: tratando-se de explicar as regras do estado de emergência, regras essas que inevitavelmente consistem na redução temporária das liberdades, não há justificação para ter sido feita a desoras. Sob o ponto de vista da comunicação política, trata-se do grau zero nunca atingido entre nós pelo poder democrático.

 

 

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Marcelo Rebelo de Sousa

Informação 

O monólogo 

A entrevista ao Presidente da República tem de ser analisada por si própria e pela sátira realizada pelo humorista Ricardo Araújo Pereira. Se proporcionou momento de génios no entretenimento, como veremos no texto ao lado, na informação foi o tópico da semana, e deu o tiro de partida para o estado de emergência e para as novas medidas de restrição da liberdade com que o poder político tenta corrigir erros e falhas no planeamento do combate à COVID. O desempenho de Marcelo como entrevistado foi dramática para o entrevistador, o diretor de informação da RTP. O Presidente perguntava e respondia a si próprio, relegando António José Teixeira para um papel cerimonial que o apoucou a ele, mas também a entrevista e a importância da ocasião. Assim, não, senhor Presidente da República.

 

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Ricardo Araújo Pereira

Entretenimento

O VARCELO 

Chama-se VARCELO e é uma das invenções do ano na tv. Depois de Marcelo ter afirmado, na entrevista à RTP, que foi o enfermeiro que lhe pediu para tirar a camisa, Araújo Pereira foi ver as imagens em bruto e chegou à conclusão de que foi ao contrário: foi o Presidente quem sugeriu ao enfermeiro tirar a camisa. O dispositivo cénico replicou com graça a consulta do videoárbitro no futebol. O trocadilho, VARCELO, esteve à altura do "sketch": o humor como arma para desconstruir o marketing político. Um momento delicioso no programa de Ricardo Araújo Pereira: ora, como tínhamos aqui assinalado que estava em perda, é justo reconhecer que o regresso do confinamento lhe fez bem. Fica a ganhar a SIC, que recupera arma fundamental na luta contra  a TVI, e ganham os espetadores, servidos com um momento superlativo de génio.

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