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Francisco Moita Flores
Francisco Moita Flores Piquete de Polícia

Notícia

Os velhos

Estamos a produzir uma sociedade do efémero. Do consumo. Da emergência de mitos e de ritos fúteis onde a memória não desempenha qualquer papel, onde o amor se reduziu a um fogo fátuo.
15 de janeiro de 2023 às 06:00
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Idoso, terceira idade Foto: Pixabay/sabinevanerp

Agora, que me aproximo dos 70 anos e tenho o direito de me incluir no grupo daqueles que chegaram à Terceira Idade, pergunto-me: o que é ser velho nos dias de hoje? A resposta que me surge, sem refletir muito sobre o assunto, é galgar exatamente os 70 anos e perder qualquer das faculdades intelectuais, físicas ou motoras que nos tornam dependentes de terceiros. Dizendo por outras palavras, é o momento da vida em que julgávamos já termos corrido todos os riscos para chegar até aqui, os nossos quotidianos se tornam mais arriscados e onde a morte é o menor deles.

Bem pior é vermos a nossa dignidade, o direito à paz interior e física, tratada à estalada, desprezados, empurrados para um qualquer canto, sem reconhecimento pela vida que se já andou e pelo poderoso testemunho sobre ela que cada velho transporta.

Esta semana saiu um estudo, divulgado pela APAV, onde se assinala que a violência sobre os velhos não para de aumentar. Em diversos contextos. Os nossos dependentes idosos tratados como lixo, muitos deles esquecidos ou depositados em hospitais, sem um pingo de afeto, sem um gesto de respeito.

Estamos a produzir uma sociedade do efémero. Do consumo. Da emergência de mitos e de ritos fúteis onde a memória não desempenha qualquer papel, onde o amor se reduziu a um fogo fátuo, sem raízes, nem vínculos sólidos, vencidos pela sofreguidão do instante, pela volatilidade do individualismo sem sustentação moral, pela utopia da felicidade conquistada sobre espasmos de prazer. Esvai-se o sentido de família pela secularização dos costumes e pela insurreição contra as relações verticais de solidariedade. A 'auctoritas' sucumbe na família, na escola, na vida social. E os velhos cada vez mais são qualquer coisa incómoda que deviam compreender que o melhor caminho é morrerem quando se tornam dependentes.

A violência contra os velhos deixa, assim, de ser apenas um crime. É o sinal perfeito de uma sociedade decadente e amoral que despreza o valor dos afetos e da memória. Tão efémera quantos os valores que aprecia. Sem estar em paz consigo própria.    

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