'
Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

Notícia

À nossa maneira

O Rui era uma peste, mas naqueles meses de sonho e de esperança fomos felizes à nossa maneira.
01 de março de 2019 às 08:00
...
ponte vasco da gama, rio tejo, lisboa, portugal Foto: D.R.

Sempre admirei as pessoas que usam as artes culinárias para descontrair e fazer felizes aqueles que com eles vivem. O Rui possuía essa qualidade, adorava aventurar-se no maravilhoso mundo da gastronomia, sempre com resultados notáveis. Aturou-me como um herói durante toda a minha primeira gravidez. Apesar do feitio imprevisível e intempestivo, estava apaixonado por mim e encantado com a ideia de ser pai. Passei os primeiros seis meses enjoada como uma pescada: recusava iguarias, umas atrás das outras, acabando invariavelmente por jantar massa com ovos mexidos. A primeira gravidez foi a pior, na segunda foi tudo mais fácil, apesar de estar muito mais cansada porque o Domingos ainda estava de fraldas e tinha mais energia do que um batalhão de para-quedistas. Nas manhãs de sábado, o Rui levava-o numa cadeira às costas e ía ao mercado de Alvalade comprar frescos: fruta, vegetais e peixe e eu dormia as melhores horas de toda a semana.

O único problema de tanto desvelo em modo Pantagruel do bairro era o estado em que deixava a cozinha. Na escola de hotelaria ensinam os alunos a limpar tudo enquanto estão a confecionar os pratos, o Rui nunca foi aluno em Glyon, nem sequer na Escola de Hotelaria do Estoril. Aquilo parecia uma aldeia devastada por um tsunami, era eu que tinha de dar conta do recado, ele já fizera a sua parte. Além disso conseguia sempre estragar coisas, como a porta da máquina de lavar roupa que ele forçou e que se partiu, ou a mancha imensa de tinta que ficou no sofá porque se sentou com a uma caneta de tinta permanente no bolso. No final dos anos 90 já ninguém usava canetas de tinta permanente, mas ele tinha a mania, devia achar que lhe dava estilo. A mania do estilo deixou-me o estofo manchado de azul-escuro da marca Pelikano para sempre.

Durante a segunda gravidez enjoei o cheiro da pele dele, provocava-me náuseas e vómitos. Discutíamos cada vez mais. Ele embirrava comigo do nada e por nada, acusando-me de ser uma mãe desatenta porque deixava o Domingos a fazer birras na cadeirinha em vez de lhe pegar ao colo, entre muitas outras implicâncias sem razão nem sentido.

Um dia eu estava na cozinha a descascar maçãs para cozer, ele olhou para mim e disse, nem maçãs sabes descascar, deixas metade na pele. A crítica estava lá sempre lá pra me minar a autoconfiança e me minar os dias. Por melhor que eu fizesse, encontrava sempre uma forma de me criticar e de me deitar abaixo. Claro que nessa época ele já andava a fazer merda, metido com a Ana Cristina, eu é que não percebi logo. A melhor defesa é o ataque. Se me fizesse sentir culpada do que quer que fosse, talvez sentisse que podia esconder melhor a sua culpa. Levou a culpa com ele quando a morte o apanhou na curva, não teve tempo de se redimir.

Dois anos depois do Gonçalo nascer, quando já estávamos separados, obviamente por causa da Ana Cristina e de outra que se atravessaram na nossa vida, o Rui encontrou a morte numa madrugada do domingo de Páscoa. Debaixo de chuva forte, perdeu o controlo da Honda CBR no final de um dos túneis que ligam a ponte Vasco da Gama à segunda circular. Demorei sete anos a voltar a falar dele. Foi meu marido e era o pai dos meus filhos, o embate contra a parede matou-o instantaneamente e matou-me a alegria dentro do peito, talvez para sempre.

Vinte anos depois, agora que o Domingos lhe deu para gostar de cozinhar, ainda lembro o seu sorriso iluminado quando me trazia massa misturada com ovos mexidos. O Rui era uma peste, mas naqueles meses de sonho e de esperança fomos felizes. À nossa maneira, mas fomos mesmo, afinal como tantos casais que se aguentam apesar das discussões, apesar das mentiras e das traições, apesar de tudo.

Mais notícias de Pessoas Como Nós

A menina Clarinha e eu

A menina Clarinha e eu

Não sei quantas vezes tentei esquecer-te, talvez menos do que tu e mais do que o meu coração aguenta, a única que sinto é que, cada vez que a dou espaço à razão, o meu coração começa a encolher-se como um bolo sem fermento, a vida fica sem açúcar e os dias sem sabor.
Mergulhar no futuro

Mergulhar no futuro

Agora, enquanto a ameaça da pandemia pairar sobre Portugal e o mundo, espero pacientemente por aquele momento mágico em que vou poder voltar a mergulhar no mar. A vida ensinou-me a mergulhar no futuro, mesmo quando o futuro é um lugar vago e incerto.
Com cinco letras apenas

Com cinco letras apenas

É engraçado como as palavras mais belas e mais importantes têm três, quatro ou cinco letras. Mãe, pai, avô, avó, tio, tia, filho, paz, saúde, sonho, amor, fado. Beijo, abraço, toque, sim, não, já, agora, calma, vem, fica.
Claras em Castelo

Claras em Castelo

Estar fechada em casa não me custa, o que me custa é não ver o meu filho e os meus pais, as minhas sobrinhas e os meus irmãos, as minha amigas e amigos. Na verdade, o que me custa ainda mais, é não acreditar que, quando a pandemia passar, as pessoas não vão mudar. Agora acreditam que sim, estão paralisadas pelo medo, mas são apenas boas intenções, porque as pessoas não mudam.

Mais Lidas

+ Lidas