Margarida Rebelo Pinto
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A criada do Ditador

Dona Maria metia o dedo para fazer a vida do Senhor Doutor, como ela se referia a ele, mais confortável e agradável. Era um capacho feliz com a sua condição.
13 de julho de 2019 às 19:13
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A criada do Ditador
Foto: D.R.

O Ditador achava-se uma pessoa de bem e à conta dessa ideia cristalizada que tinha de si próprio, punha-se acima de todos só fazia o que queria. Era um déspota por vocação com veleidades de santo. Mandou matar Humberto Delgado e deu-se ao luxo de pedir a Rosa Casaco que o acordasse a meio da noite com uma visita inusitada a São Bento para lhe dar a novidade. Até a Maria, que era louca por ele, mas que não era cega e de estúpida não tinha nada, lhe apanhou a patranha. E como boa e fiel criada, calou o bico.

Quem nasce para criada, por mais promoções e favores que receba, nunca lhe cai a crista. Mesmo sem avental, armada em grande senhora no enterro, nunca deixou de ter aquele ar subserviente e lambido das classes que encontram nobreza em servir os outros. Cama, mesa e roupa lavada, os ideais domésticos do regime levados ao extremo. As toalhas de linho sem um vinco com os guardanapos a condizer em mesas de requinte e bom gosto, as iguarias refinadas e as sobremesas francesas, os arranjos de flores, em tudo a Dona Maria metia o dedo para fazer a vida do Senhor Doutor, como ela se referia a ele, mais confortável e agradável. Era um capacho feliz com a sua condição, nasceu criada e morreu criada, doente e abandonada na casa de Saúde de Benfica. Soube-se pelos médicos da casa que a pobre, dada a infeções urinárias, afinal era virgem. Lá se foram por água abaixo as calúnias que alimentavam o mito que era amante do Senhor Doutor e que as catraias que o celibatário acolhia no palácio eram filhas do chefe da Nação e da governanta.

Talvez fosse estéril, pois embora a existência não lhe tenha sido parca em amantes, nunca se apanhou o rasto de nenhuma descendência, o que não deixa de ser bizarro e até, original. O cérebro que arrumou o país, o salvou da segunda grande guerra e lhe endireitou as contas e os costumes morreu só, pois um homem que não planta uma árvore, não escreve um livro nem faz um filho, não tem, por decreto popular da condição humana, cumprido a sua missão neste mundo. A árvore plantou-lhe a francesa em São Bento, ofereceu-a de presente, e ele gostava de olhar para ela e sonhar com o seu vendaval perfumadocom quem trocou correspondência apaixonada durante décadas, facto que contribuiu para que o casamento da francesa acabasse. Uma coisa é fechar os olhos a uma aventura de Verão em troca de um livro, outra é tolerar gestos continuados de traição com o travo da paixão proibida à mistura, escrito e rescrito, fechado e selado para depois ser aberto. As juras de amor escritas cravam nos corações traídos espinhos mais fundo que a imaginação do acto fugaz. Quando é só carne e desejo, mulheres e homens podem fechar os olhos, mas se tais atos forem reforçados com cartas e mensagens que falem de amor e de paixão, aí é que o caldo está entornado.

A governanta fazia a vida negra às pretendentes mas nunca desarmou. Quando ele confirmou casar com uma senhora da alta sociedade, pediu a uma das protegidas que o dissuadisse de tal ideia. Conseguiu tal façanha. Viveu para o seu amo até ele morrer, com os miolos avariados, convencido que ainda governava o país. 

Eram assim os tempos de Salazar, com cheiro a mofo e a ranço, embebidos num moralismo que superava a vontade própria. Maria morreu só mas virtuosa e vitoriosa. Afinal, foi ela a grande dama da nação no tempo do ditador. 

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