Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Algodão doce

No último dia de aulas, tínhamos o hábito de ir à feira popular. Quando lá cheguei para me encontrar com o meu grupo do Maria Amália vi o Gustavo aos beijos com a Raquel, os dois muito derretidos, escondidos atrás de duas nuvens cor-de-rosa de algodão doce. As pernas falharam-me e o queixo começou a tremer.
25 de outubro de 2019 às 20:05
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Algodão doce
Foto: D.R.

Às vezes, é preciso morrer alguém para reencontrares velhos amigos, ou para fazer as pazes com alguém com quem te zangaste. Às vezes não se trata ninguém importante, foi só um desentendimento, uma desavença, uma embirração, um dia mau, um comentário infeliz. Cruzas-te com a pessoa à saída da missa de sétimo dia do pai de um amigo, na verdade demoras algumas décimas de segundo a reconhecer a cara, há anos que não te lembravas da existência daquele ser humano, a zanga ficou esquecida no fundo de um baú, a vida meteu-se pelo meio e tu percebes que aquele reencontro acidental não tivesse ocorrido, o mais provável era nunca mais te lembrares que existia. Outras vezes, a zanga é com alguém que já viveu no nosso coração. E quando é assim, os momentos maus para alguns podem ser bons para outros.

Foi há muitos anos, talvez uns quinze, quando reencontrei o Gustavo. O Gustavo era meu amigo de adolescência, durante os anos 80 saíamos à noite três qua quatro vezes por semana. Ele guiava o Autobianchi da mãe e morava na rua de cima, por isso eu tinha boleia garantida para o Bananas, o Stones, o Ad-Lib, o 2001, o VanGogo e o News. Nos anos 80 era assim, saíamos de casa pouco antes da meia-noite, dávamos a volta às capelinhas e chegávamos a casa depois das 6 da manhã. Era comum mudar de boleia a meio do percurso, éramos sempre os mesmos 300, como dizia o escritor José Gomes Ferreira já não sei em qual livro, a noite de Lisboa e de Cascais era uma aldeia de amigos e de conhecidos. No fundo, era uma espécie de feira popular, mas sem póneis nem roda gigante. 

Lembrei-me da feira popular, porque foi lá que as coisas correram mal. O Gustavo aproveitava para me dar um beijinhos à porta de casa, uma coisa leve e fugaz, sem pretensões românticas nem intenções sérias, mas eu tinha 18 anos e ouvia os discos das histórias da Disney desde criança, tinha chorado com o Bambi, com o Dumbo e com o Bernardo e a Bianca no cinema, acreditava mesmo no Príncipe Encantado, e quando uma pessoa acredita muito numa ilusão, tende a vê-la um pouco por todo o lado. Vais beber um café e o rapaz que está encostado ao balcão pode ser o tal. Mudas de liceu e o primeiro giro com quem se cruza no intervalo das 11 pode ser o tal. Apanhas o 15 de regresso a casa e quando sobes as escadas (sim, eu ainda sou do tempo dos autocarros de dois andares) e o jovem despenteado que se senta ao teu lado a ouvir Smiths no seu walkman ( também sou do tempo dos walkman) também pode ser o tal. 

Nenhum foi, nem o Gustavo, claro está, que, apesar de me dar lânguidos beijos no carro ao raiar do dia, nunca me falou em namoro nem nada dessas coisas porque andava embeiçado pela Raquel, a boazuda do bairro cuja mãe tinha uma loja de lãs na esquina ao lado da pastelaria. A Raquel tinha tudo o que eu não tinha: maminhas, um grande cabelão, curvas, saias curtas e uma grande lata. 

No último dia de aulas, tínhamos o hábito de ir à feira popular. Quando lá cheguei para me encontrar com o meu grupo do Maria Amália vi o Gustavo aos beijos com a Raquel, os dois muito derretidos, escondidos atrás de duas nuvens cor-de-rosa de algodão doce. As pernas falharam-me e o queixo começou a tremer como se estivesse a ser acometida por um ataque de hipotermia. Eles nem deram por mim, tão entretidos que estavam a lamber a cara um do outro graças a todos aquele açúcar que os rodeava. Estavam na fila do roda gigante e eu vim-me embora. Durante anos imaginei que tinham ficado lá para sempre, estupidamente felizes como parecem ser os casais apaixonados.

Não ficaram na roda gigante nem namoraram durante muito tempo, a história acabou depois do Verão – é extraordinária a quantidade de namoros e casamentos que acabam depois do Verão, nos anos 80 ou agora – e quinze anos depois o Gustavo estava a sair da missa ao mesmo tempo do que eu e deu-me um abraço tão caloroso que me deixou desarmada. 

Ficámos a conversar na rua durante mais de uma hora. No dia seguinte convidou-me para jantar. E no dia a seguir também. E por aí fora. Daqui a uma semana festejamos o décimo aniversário de casamento.  Nunca lhe perguntei se ainda tinha contacto com a Raquel. Para quê? Prefiro imaginar que ficou presa na roda gigante, envolta em algodão doce, como uma estátua de sal.

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