Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto pessoas como nós

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Bolas de Berlim

Era uma senhora típica do Estado Novo: para fora vivia para o marido, a casa e os filhos, por dentro implodia de tédio, sem a capacidade de entender porque sentia tanta neura. Na época usava-se o termo neurasténica, uma espécie de genérico para as maleitas do espírito e do coração femininos.
13 de julho de 2018 às 07:00
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Bolas de Berlim

- As coisas em si não são têm mal, depende do significado que lhes damos.

Era ainda adolescente quando o meu irmão Miguel me disse esta frase que me marcou para a vida. Com a morte prematura do meu pai num acidente de carro à saída da Caldas da Rainha, assumiu de imediato o lugar de chefe de família, já que a minha mãe, uma depressiva crónica, pouco mais sabia fazer do que dar ordens à Albertina, ouvir Chopin durante a tarde enquanto fumava Português Suave e jogar bridge com as amigas duas vezes por semana. Filha única e herdeira de um latifundiário alentejano que se encantou com o genro e lhe foi passando ao longo dos anos a administração das propriedades, era uma senhora típica do Estado Novo: para fora vivia para o marido, a casa e os filhos, por dentro implodia de tédio, sem a capacidade de entender porque sentia tanta neura. Na época usava-se o termo neurasténica, uma espécie de genérico para as maleitas do espírito e do coração femininos. Dos quatro filhos, apenas o Miguel e eu não herdámos o gene da nostalgia. Os meus irmãos mais novos, crianças divertidas e briguentas, foram com o tempo perdendo a força e a alegria de viver. O Miguel fez tudo para puxar por eles, mas de pouco ou nada serviu: nenhum acabou o curso e vivem ainda hoje no andar da Defensores de Chaves onde crescemos os quatro, com os cuidados e mimos da Albertina que nos enchia os bolsos dos bibes de bolos de arroz e que Deus já levou para o paraíso onde deve viver numa suite com vista para a eternidade.

Algumas coisas não têm mal, talvez porque não signifiquem o mesmo para mim do que para ti.  Acordas todos os dias à mesma hora, tomas um duche, passa gel no cabelo, creme na cara, escolhes um dos teus fatos escuros, uma da tuas camisas brancas, um dos teus pares de sapatos pretos. De vez em quando entra uma mensagem minha, tu lês e encolhes os ombros. Uma ou duas vezes por semana tens paciência para me responder, a mesma que tens para perder um minuto e escolher um lenço de lapela e uma gravata que guardas num saco de pano e deixas no carro, caso te faça falta para um evento mais formal. Vais trabalhar, escreves tudo na agenda aberta em cima da secretária e nos cadernos de notas que colecionas com militância e carinho como eu. Às vezes imagino e os nossos caderninhos juntos numa biblioteca póstuma, descoberta pelos escafandristas que o Chico Buarque canta em Futuros Amantes.

Trabalhas de segunda a sexta, às vezes durante o fim-de-semana, às vezes durante as férias. Não conheço ninguém que use o trabalho para se abstrair do outro lado da vida como tu. O Miguel é igual, não é por acaso que vocês são amigos. Casou cedo com a Pilar, a primeira aluna do curso, ele era o segundo. A rivalidade na faculdade foi subindo de temperatura até explodir, sob a forma de paixão tórrida, numa madrugada enevoada de Agosto em São Martinho do Porto – e não são todas? – quando ele a confrontou, dizendo-lhe que, já que não conseguiam os dois viver sem aquela guerra de alecrim e manjerona, talvez fosse melhor tornarem-se aliados e ficarem juntos para a vida. Ficaram. Na mesma madrugada o carro do meu pai despistou-se, ao que parece, de regresso de casa de uma amante local que nunca deixou cair e da qual só soubemos que existia quando se apresentou um advogado na missa de sétimo dia a querer reunir com o Miguel.

Tenho ideia que seguias o Miguel pela praia e pela Rua dos Cafés como uma sombra, querias ser o melhor amigo dele, mas nessa época eu já tinha umas pernas quase tão compridas como as estacas das barracas da praia, queria namorar com os miúdos mais giros e ainda namorisquei uns quantos.

Os anos passaram, ambos nos cansámos do frio de São Martinho, esqueci-me da tua existência porque nunca tinha dado por ela, o Bola de Berlim, como a Pilar te chamava, tolerando a custo a tua amizade com o Miguel, sempre foi muito ciumenta com toda a gente.

Duas décadas mais tarde cruzei-me contigo e fiquei enfeitiçada. Nem sequer te reconheci, parecias outra pessoa, alto, magro, com cara de gladiador romano e o corpo domado por dietas rigorosas e idas frequentes ao ginásio. Numa tarde do Verão seguinte, quando explodi em prantos em casa do Miguel e da Pilar e confessei o nosso romance secreto, a minha irmã emprestada exclamou:

- O Bola de Berlim? Perdeste a cabeça?

- Já não está gordo – respondi.

- Mas nunca deixou de ser parvo – disse, com aquela expressão de quem tem sempre razão. E o Miguel, sempre a contemporizar, rematou:

- Ele não é mau tipo, sempre teve grande pancada por ti. Agora que conquistou o troféu, o mais certo é não saber o que fazer com ele. Os homens querem tudo e não querem nada. Não lhe dês importância, isso qualquer dia resolve-se.

E foi então que me veio à memória a tua presença discreta nas tardes de praia em São Martinho do Porto, o teu olhar fixo e penetrante de lobo esfomeado, sem nunca ousar uma aproximação física, enquanto devoravas bolas de Berlim.

Parece que os gordos nunca deixam de se ver gordos, mesmo quando emagrecem. Erros de perceção, quem não os faz, que atire a primeira pedra.

 

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