Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Cansei-me de ser Rapunzel

Casei com o Álvaro para esquecer o João, acreditando que o amor de um homem meigo e disponível iria reparar coração.
09 de novembro de 2018 às 16:21
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Cansei-me de ser Rapunzel

Não fui feita para esperar, no entanto a vida não me tem ensinado outra coisa. Demorei mais de cinco anos a engravidar, pelo caminho perdi dois bebés, quando a Alice nasceu nem acreditei na minha sorte. Tinha a miúda seis meses, o Álvaro foi enviado em missão para o Afeganistão sem data de regresso. Ficámos confinadas ao nosso ninho meio vazio, um terceiro andar sem elevador num prédio velho de um bairro triste na zona oriental da cidade, perto de um cemitério imenso que tem o nome do primeiro palerma que me partiu o coração. Nesse ano, a senhoria decidiu fazer obras de recuperação na fachada no pico do Inverno, tive de me mudar para o divã do quarto do fundo e encaixar lá a caminha de grades, senão a miúda e eu morríamos com uma pneumonia, ou uma gripe A.

Casei com o Álvaro para esquecer o João, acreditando que o amor de um homem meigo e disponível iria reparar coração. Era muito nova, talvez por isso muito ingénua. Acontece que o coração não é um motor de um carro, quando vai à revisão não se podem substituir os pistons nem o filtro do óleo. O meu tio Adérito faz isso na oficina todos os dias, com os carros e com as amantes. Está muito habituado a gerir problemas dentro e fora da oficina. Chegou a ter sete ao mesmo tempo, não sei como conseguia dar conta do recado. A verdade é que sempre viveu assim, e mesmo quando a minha tia Sãozinha descobriu tudo no telemóvel, ele não desarmou. A minha tia gritou, chorou, foi a casa de duas delas puxar-lhes os cabelos e insultá-las, meteu-se num cruzeiro com a vizinha Irene para esquecer a desfeita, e quando voltou, nunca mais tocou no assunto. Passa cada vez mais tempo em casa por causa da gota e toma conta da Alicinha nas noites em que vou servir às mesas numa casa de fados em Alfama. Vou às quintas e sextas, ganho uns trocos e assim vou praticando o meu inglês, francês e espanhol.

Formei-me na faculdade de letras, sempre fui boa em idiomas fiz o curso com uma perna às costas. O João andava em Direito, mesmo em frente ali na cidade universitária. Também fez o curso sem grande esforço, talvez tenha nascido para aquilo como o pai dele, um advogado conhecido que vai muito à televisão. Era muito magro, com um ar esgrouviado, guiava um descapotável prateado oferecido pelo pais. Meteu conversa numa tarde de Outono, o frio já se fazia sentir, mas ele teimava em andar de cabelos ao vento com um cachecol e um boné que faz lembrar os bandidos do Peaky Blinders.

Sempre gostei de ver homens de boné ou de boina desde criança, o meu pai era militar e morreu na Guiné, deve ter sido por isso que depois me casei com o Álvaro. Vejo um tipo de boné ou de boina e o meu cérebro desliga-se. Policias nem tanto, mas homens à civil ou fardas de verde- tropa dão-me a volta à cabeça e fico parvinha de todo, incapaz de me expressar e qualquer língua, incluindo a minha. Com o João foi o caos durante muito tempo, com o Álvaro nem tanto. Não era tão inteligente, e já se sabe que os inteligentes ganham quase sempre todas a guerras.

O Álvaro esteve seis meses fora, perdeu os primeiros dentes da Alicinha, os primeiros passos, eu ia dando em maluca com tanta solidão. Quando regressou vinha estranho, fechava-se no quarto às escuras, começou a beber, mandei-o embora ao fim de dois anos de martírio. Antes só que mal-acompanhada, pensei na altura. Ainda não tinha 30 anos, acreditei que a vida me trouxesse um homem melhor, nunca aconteceu. Depois de várias aventuras falhadas, fechei a loja e arranjei um segundo emprego para matar o tédio das noites de solidão.

Há dois anos o João apareceu na casa de fados com clientes franceses, pediu-me o número e desde então vem visitar-me quando calha. No início nem parecia um assunto sério, mas já andamos nisto há tanto tempo que às vezes dou comigo a pensar se nasci para Rapunzel, porque sempre que sobe as escadas num galope agitado, sinto trinta mil cavalos a galopar no peito e a mesma loucura que me deixava sem conseguir pensar em nada. Parece que nada mudou, perco a cabeça com ele, como quando tinha 20 anos. Depois ele vai-se embora e eu fico a olhar para o Mar da Palha e a pensar que um dia destes me vou cansar de ser Rapunzel, já que nem tranças tenho, nem nenhuma bruxa me fechou nesta torre de espera e de ilusão. Eu é que me fechei, talvez esteja na hora de mudar de vida. Mas só de pensar que vou ficar sozinha sem ninguém para ocupar o meu coração, fico tão aflita que não consigo escolher entre uma amor deficitário ou o nada. O nada mata mais. Deve matar. De certeza.

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