'
Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

Notícia

Dar a mão

Ao longo da vida aparecem poucos homens que fazem tudo por nós.
21 de junho de 2019 às 18:00
...
rosas, ramo de rosas, jardim, campo, flores Foto: D.R.

Não sei como escrever 75 anos, é uma idade que me parece uma enormidade. Olho para ele e aquilo que os meus olhos vêm é um homem com quarenta e picos, os olhos de um azul intenso e sorridente, os dentes imaculados e alinhados, a barba já branca e a careca assumida. Eu tenho vinte e poucos anos, sou uma miúda ambiciosa a acabar o curso de Direito na Clássica que tem o bichinho do jornalismo e é contratada por uma revista de negócios para entrevistar os homens com mais sucesso dos anos 90. Portugal está deslumbrado com a Comunidade Económica Europeia, o país está em crescimento s corre a notícia que seremos a capital escolhida para uma exposição gigante na zona oriente que de Lisboa está cheia de contentores e de terrenos baldios. Naquela época é difícil imaginar que vai nascer ali uma segunda cidade e no entanto, trinta anos depois, a zona da Expo é um novo mundo.

Viajo no passado para me ver de cabelo curto, óculos redondos de aros finos de metal à John Lennon e brincos de argolas do tamanho de pulseiras, ténis all stars e camisas largas, num tempo em que acreditava que ia encontrar o príncipe encantado, casar talvez sem véu, mas certamente de grinalda e constituir uma linda a penteada família de três rebentos como os meus pais tinham feito. Afinal o príncipe dos meus sonhos casou com uma loira parecida comigo, importada de um país nórdico, e eu chorei durante três dias. Foi então que conheci o homem que me arrancou da tristeza e me levou a passear pelo mundo. Com ele palmilhei Madrid, Barcelona, Londres, Paris, Berlim, Florença, Roma, Nova Iorque, Chicago e São Francisco durante quatro anos de um romance deliciosamente clandestino.

Nunca aprendi tanto em tão pouco tempo, embora quatro anos sejam quase metade de uma década, e afinal não vivemos assim tantas. O Luís foi o meu professor do mundo e da vida. Conhecia a condição humana como um mapa que cresceu a ver pendurado na parede da cozinha. Foi ele que me explicou que os homens ou estão apaixonados, ou andam nas apostas múltiplas, que um tipo é muitas vezes infiel apenas porque sim, que existem na cabeça dos homens várias gavetas sem vasos comunicantes, que os homens se arrependem sempre que magoam uma mulher, seja a sua ou outra, que as mulheres a partir dos 40 nunca fazem nem dizem nada sem pensar nas consequências, mas se por acaso se apaixonam, perdem a cabeça e a vergonha e levam tudo à frente. Também foi ele que me ensinou a dar sempre a mão a quem precisa, embora nunca me tenha dito que era assim que devia ser feito. Eu via-o fazer isso todos os dias com os amigos, os irmãos, as antigas namoradas. O telefone tocava, ele atendia, sorria e repetia invariavelmente a frase:

- Então diz lá o que é que precisas.

Do outro lado alguém lhe pedia ajuda e ele ajudava. Fazia pontes, contactos, usava o seu charme e simpatia para interceder a favor de terceiros. Raras vezes o vi pedir ajuda a outras pessoas para as suas questões e problemas. Nunca o ouvi queixar-se da doença da mãe, do irmão internado com problemas de drogas a quem ele pagava todos os tratamentos, do outro irmão que já lhe espatifara um carro e tentara enganá-lo num negócio. O Luís era assim porque nem lhe passava ser de outra maneira e foi com ele que aprendi a praticar a generosidade.

Os anos passaram e ficámos grande amigos. Nunca nos perdemos nem da vista nem do coração, almoçamos algumas vezes por ano. A nossa amizade não regressou ao território erótico, no tempo em que eu era ainda uma miúda à procura de emoções fortes e ele já um senhor de fato italiano e sapatos feitos à medida em Londres. Agora sou uma senhora de camisas de seda justas e conjuntos da Max Mara que se apresenta nas reuniões com carteiras de marca. Abandonei as ilusões jornalísticas, especializei-me em imobiliário e abri o meu escritório de advocacia. Os primeiros negócios, foi o Luís que mos ofereceu de bandeja, com o argumento que precisava de assessoria jurídica, quando na verdade o que ele me estava a querer dizer era:

- Então diz lá o que é que precisas.

Não sei se o vejo como um amigo extraordinário, o irmão que nunca tive ou o pai que perdi muito cedo, mas sei que ele, sempre que me leva a almoçar peixe grelhado numa tasca qualquer, ainda me vê como aquela miúda ambiciosa que o entrevistou numa tarde de Primavera e que ele ajudou a tornar-se mulher. Ao longo da vida aparecem poucos homens que fazem tudo por nós. Eu tive o Luís. Quando fez 75 anos enviei-lhe 75 rosas.

As flores nunca demais para aqueles que só querem o nosso bem.

Mais notícias de O Tal Canal

O futuro da TVI (também) passa pela união

O futuro da TVI (também) passa pela união

Cristina Ferreira anunciou uma série de novidades da estação para 2021 e acredita que é com elas que vai roubar a liderança das audiências à SIC. Para já, em Paço de Arcos não há uma reação. É natural, porque todos os cuidados são poucos… Afinal, um erro pode deitar tudo a perder.
Cristina Ferreira esticou-se e perdeu

Cristina Ferreira esticou-se e perdeu

Regressou à TVI, inventou um programa só para si, uma vez por semana, sem dia certo, gastou 300 mil euros e agora ‘Dia de Cristina’ chega ao fim em dezembro, após três meses de vida. Uma derrota em toda a linha para a apresentadora, diretora e acionista da estação.
A traição de Maria Cerqueira Gomes

A traição de Maria Cerqueira Gomes

A apresentadora fez um balanço da sua experiência em ‘Você na TV!’ e veio agora dizer que Manuel Luís Goucha nem sempre a ajudou, principalmente quando o colega estava "sem rumo" e "atiçado". Tudo escarrapachado na revista de Cristina Ferreira, diretora e acionista da TVI. Incrível!
A televisão salva vidas

A televisão salva vidas

Cristina foi ao 'Você na TV' e contou o seu isolamento profilático. Os afortunados espetadores terão aprendido mais sobre a Covid naqueles minutos do que em meses de comunicação institucional. O programa contribuiu para salvar vidas.
Mais pancada em Teresa Guilherme

Mais pancada em Teresa Guilherme

Apresentadora do ‘Big Brother’ volta a ser atacada, e dentro da própria casa: a TVI. Até quando irá ficar em silêncio? Ou até quando irá fingir que está tudo bem?
O "eu" perde sempre

O "eu" perde sempre

Quando me perguntam como é que vai acabar esta guerra, eu respondo: “Se nada mudar na TVI, acaba com a equipa do ‘nós’ a vencer". Ou seja, a SIC.

Mais Lidas

+ Lidas