Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas como nós

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Devíamos ir a Paris

Há um fio que nos une e esse fio é feito de uma matéria invisível e misteriosa, um fio de nuvem que perdura para lá do tempo e do espaço.
07 de dezembro de 2019 às 01:04
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Devíamos ir a Paris
Foto: D.R.

Sabes que já fui mais de dez vezes a Paris e nunca subi a Montmartre? Dizem que é o bairro mais belo da cidade, porque é o mais autêntico. E de lá de cima vê-se a cidade como quem viaja de balão. 

Quando penso em ti e na nossa amizade, vejo sempre uma luz branca, imensa e sossegada, um lugar sem terra onde os abraços são eternos e os sorrisos quase um pouco tristes. 

Sei que te andam sempre a cair as asas, que o peso da vida te é mais forte do que a beleza do mundo, mas é assim que te vejo, uma espécie de anjo em vias de extinção, a espécie a que pertencem os melhores amigos, aqueles que mesmo quando não têm tempo nos dias, guardam sempre espaço no coração. Os amigos que nos ouvem como quem ama, que nos abraçam como quem dorme, que nos consolam nas mágoas e desilusões como quem acalma uma criança depois de um susto. Deve ser por isso que quando estamos juntas, te vejo como uma menina que cresceu depressa demais e que nunca deixou de transportar o olhar líquido de quem precisa de atravessar a rua pela mão.

E quando olho para os teus filhos, és tu outra vez, um com o teu otimismo e o outro com a tua profundidade, e so dois com o teu coração gigante.

Nunca fui a Montmartre, mas gosto de imaginar que um dia podíamos ir juntas. Gosto de imaginar muitas coisas que sei que nunca vão acontecer, porque a benção que nos tocou e nos faz seguir juntas ano após ano, e tu sempre por perto, não vá eu precisar de um ombro. A nossa amizade é de uma beleza só nossa nas gargalhadas que trocamos, nos silêncios que tomam o lugar de tudo o que não dizemos por nos conhecermos tão bem. E deve ser essa a razão porque também me passas a mão pelas costas, para afagar umas asas que só tu sabes ver. 

Já pensaste que andamos cá as duas para fazer um ajuste de contas com aqueles que mais amamos? Há um fio que nos une e esse fio é feito de uma matéria invisível e misteriosa, um fio de nuvem que perdura para lá do tempo e do espaço. Andamos a par com o medo e a tristeza, com as dúvidas e as incertezas. Tu sempre à procura de respostas e eu sem nenhuma fórmula mágica para a felicidade. E as duas sempre na busca da essência, do significado mais profundo, da verdadeira importância das coisas e de uma razão maior que nos explique o que a vida nos vai trazendo. Qualquer dia casas-te com esse bom rapaz que apanhou o teu coração e vais viver para uma ilha no Oceano índico, e por isso devíamos ir a Paris antes que fiques longe mais tempo do que perto.

Apanhávamos o funicular até a bela igreja do Sacré Coeur, escondíamo-nos nas ruas onde Pablo Picasso e George Braque beberam copos, roubávamos as mais belas telas aos pintores de rua e apanhávamos a próxima nuvem que passasse por nós, como quem mergulha em uma outra dimensão. Uma dimensão só nossa, um lugar onde a eternidade não se saboreia em amostras e as respostas vêm todas em caixas de chocolates. Um mundo quase perfeito, como os teus abraços eternos e o teu sorriso quase triste.

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