Margarida Rebelo Pinto
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Diretora do meu coração

Continuei a pedalar e a cogitar como podemos treinar o cérebro e o coração para pensar mais naqueles que nos fazem bem do que naqueles que nos magoam. O cidadão ordeiro que durante tanto tempo ocupou o meu coração nunca me deu nenhum presente além de chocolates comprados na estação de serviço quando vinha ter comigo a voar baixinho, louco por estar ao meu lado num Verão mais azul do que todos os que já vivi. Depois a vida levou-nos por caminhos diferentes.
29 de junho de 2018 às 07:00
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Diretora do meu coração

Quando chega o fim-de-semana, em vez de ir sair à noite com o meu grupo de amigas para beber gins e observar os gatos que andam pelos bares em busca de sexo fácil, gosto de me levantar cedo e dar uma volta com a Maria Luísa. A Maria Luísa é a minha bicicleta, presente de um amigo com quem quase namorei, um rapaz equipado com boa cabeça e um coração ainda melhor que nunca deixou de ser meu amigo, mesmo quando numa tarde de sol numa esplanada na Praia Grande lhe expliquei que o coração não é um lugar democrático e que não podíamos namorar porque o meu estava ainda refém de uma ocupação selvagem por parte de um cidadão aparentemente ordeiro que ali tinha assentado arraiais contra a minha vontade e para lá do meu controlo.

- Tenho muita pena, mas entendo-te. Obrigada por seres honesta comigo. – disse-me o Miguel, em voz baixa, com os olhos muito abertos, como quem está à espera que a vida mude.

- E poderia ser de outra forma? – respondi, com um sorriso triste enquanto mergulhava o pão saloio no molho das ameijoas à bulhão-pato – Agora é assim, mas não te preocupes, qualquer dia vou ser outra vez diretora do meu coração.

Ele deu-me a mão por cima da mesa, apertou os meus dedos com força, depois voltámos para Lisboa em silêncio, deixou-me à porta de casa com um abraço fraterno e no dia seguinte mandou entregar a Maria Luísa sem um cartão, nem nada que me desse uma pista da sua proveniência.

Demorei algum tempo a perceber quem me enviara uma nova amiga verde-clara, com cesto de compras e faróis. 

Cheguei a pensar que fora outro rapaz, um palerma novo-rico que era obcecado por tudo o que estava na moda e queria fazer a rota completa dos restaurantes do Avillez. Foi despachado em grande estilo quando numa tarde de Inverno me confessou que não sabia se era boa ideia termos uma relação porque eu era mais velha e o meu prazo de validade podia acabar. Dito assim mesmo, como seu eu fosse uma embalagem de iogurte grego. Como nem sequer me passara pela cabeça ter alguma coisa com ele, engatilhei a minha Magnum 45 mental e disparei:

- Qualquer dia quem está fora de prazo és tu, quando já não levantares essa caneta Bic que deves ter entre as pernas, e vai ser mais cedo do que pensas, ó palhaço.

Virei-lhe as costas e nunca mais o vi, mas como é sabido que os homens gostam de ser maltratados, o palerma andou meses e arrastar-se em mensagens escritas que incluíam poemas, músicas foleiras e fotografias que ele considerava interessantes. 

Dois dias depois de ter recebido a Maria Luísa peguei nela e fui dar uma volta junto ao rio onde o Miguel costuma correr ao final da tarde. Quando me cruzei com ele, percebi pelo seu sorriso rasgado que tinha sido ele quem me oferecera o velocípede e agradeci-lhe o gesto.

- Pelo menos sempre que passeares de bicicleta, vais lembrar-te de mim.

Continuei a pedalar e a cogitar como podemos treinar o cérebro e o coração para pensar mais naqueles que nos fazem bem do que naqueles que nos magoam. O cidadão ordeiro que durante tanto tempo ocupou o meu coração nunca me deu nenhum presente além de chocolates comprados na estação de serviço quando vinha ter comigo a voar baixinho, louco por estar ao meu lado num Verão mais azul do que todos os que já vivi. Depois a vida levou-nos por caminhos diferentes, demorei mais tempo do que a razão manda a aceitar que dificilmente voltaríamos a cruzar-nos por terra, por mar ou no ar. Mesmo que desse a volta ao mundo e saltasse todos os muros, seguiríamos sempre por estradas paralelas.

Um ano depois, continuo a levantar-me cedo e a passear com a Maria Luísa. O Miguel continua meu amigo e o meu amor perdido continua do outro lado da vida. Mas agora tenho o coração leve, agora já reconquistei o meu lugar de direção. Talvez tenha chegado o momento de admitir um novo assessor amoroso, daqueles que gostam de andar de mão dada e me trazem chocolates mesmo quando não peço. 

Talvez, quem sabe, alguém que também ande de bicicleta, porque a Maria Luísa também tem direito a namorar.

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