Margarida Rebelo Pinto
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Golfinhos no Tejo

Só me interessam os amigos com quem atravessei a vida e que vão ficar para sempre.
07 de setembro de 2019 às 12:43
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Golfinhos no Tejo
Foto: Colina Media

- Queres vir dar uma volta de barco no rio este fim-de-semana? 

O barco é um catamaran que eu batizei com a minha imaginação de copy-writer e a mensagem é do Ricardo, meu ex-diretor na agência, que o comprou há um ano. Desde que vendeu a sua quota à casa-mãe, não sabe bem como se ocupar. Andou duas décadas a dizer se fosse rico andava atrás do Verão e agora que já é, sinto que anda a correr atrás do tempo e da vida, porque quem nunca viveu sem fazer nada, talvez nunca aprenda.

Tive tanta sorte no trabalho como não tive no amor. Conheci o Ricardo há mais de 20 anos. Entrevistou-me para o lugar de copy-junior, eu já tinha algumas campanhas engraçadas no meu portfolio, trabalhava para a concorrência, tinha 26 anos, vivia sozinha, comprara o meu segundo carro e ia ao Plateau dançar às quartas-feiras até às tantas. O Ricardo fez-me várias perguntas e no fim, rematou com aquele cliché típico, muito em voga do final dos anos 90:

- Então e qual é a tua filosofia de vida?

E eu, que tinha a mania que era esperta, respondi:

- Sexo, cremes e lingerie.

Ele sorriu, levantou a sobrancelha direita, apertou-me a mão, no dia seguinte ligou-me a dizer que estava contratada. Trabalhámos quase 20 anos juntos. O Ricardo foi ao meu casamento e mandou-me flores quando o Gonçalo nasceu, e depois quando a Luisinha chegou ao mundo, ouvi-lhe os desabafos sobre o seu casamento infeliz e dei-lhe o meu ombro quando descobriu que a mulher o enganava com o irmão mais novo. Fui testemunha no processo de divórcio, conheci-lhe a segunda mulher e todas as namoradas subsequentes e inconsequentes. Quando anunciou há três anos que ia casar com uma russa que conhecera em Ibiza, temi o pior.

- E a Oxana, não vai?

- Achas? Ela detesta o barco, e agora com a miúda, fecha-se em casa e não quer ver ninguém. Anda, vou convidar mais malta da agência, for the old times sake.

Fot the old times sake. Quando a rapaziada não tinha cabelos brancos nem lombalgias, quando eu aguentava ir para o Plateau às quartas à noite dançar como se não houvesse amanhã, e no dia seguinte acordava com a cara lisa, fresca que nem uma alface. Acho que ainda acordo, o tempo é a dimensão mais estranho do mundo, olho para o Ricardo e a minha percepção não me diz que está mais velho, mas está, estamos todos, não há volta a dar.

O Catamaran recebeu como nome Karma porque o Ricardo é daquelas pessoas que podia ter tudo e afinal lhe falta muita coisa. Não dá para perceber como um tipo tão esperto e com tanto sucesso, sempre teve tanta falta de jeito para escolher as mulheres. A primeira, Ana Paula, enganava-o com o irmão. A segunda era neurótica e quando se separaram, arrancou-lhe todas as tomadas e maçanetas de casa, além de lhe limpar a conta bancária. E a terceira é o que se sabe: detesta todos os amigos dele, engravidou um mês depois de o conhecer e vive obcecada com a filha, a alimentação da filha, os horários da filha e tudo o que está relacionado com a sua função de mãe. A última vez que perguntei ao Ricardo se ainda funcionavam como casal, levantou a sobrancelha direita e respondeu:

- Achas? 

Amanhã é sábado, vai fazer um calor mortal, o Verão chega sempre cada vez mais tarde e vi nas notícias que os golfinhos voltaram ao Tejo. Não sei que colegas e antigos colegas vão estar no barco, nem me interessa. Só me interessam os amigos com quem atravessei a vida e que vão ficar para sempre. Vou acordar com a pele lisa e, pela primeira vez em anos, não vou ver se estás on-line nem sentir saudades tuas. Não é porque não goste ainda um bocadinho de ti, mas já não me acendes as luzes todas. Com amigos tão bons, de que me serve um tipo que não me escolheu? 

Há mais vida, dentro e fora do Tejo. Há mais vida e eu já passei a rebentação.

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