Margarida Rebelo Pinto
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Margarida Rebelo Pinto: Cidades inventadas

Fechei os olhos e imaginei-me em Tóquio a passear com ele. O futuro está nas cidades inventadas, naquelas que vivem os nossos sonhos. O futuro podia estar ali, na minha mão.
16 de fevereiro de 2017 às 00:00
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Margarida Rebelo Pinto: Cidades inventadas

- Já foste ao Japão?

A pergunta veio do nada, enquanto estávamos a ter a nossa primeira reunião de trabalho numa dessas pastelarias modernas, com empregados joviais de carrapito e barba crescida, ali para os lados das Avenidas Novas. Fico sempre vagamente perplexa quando sou atendida por estes 'milennials' que se desdobram em sorrisos como se tivessem andado comigo na escola.

O Nuno podia ser um 'milennial' mas já anda pelos 40, embora não aparente. Consigo adivinhar que também deixou crescer a barba para parecer mais velho, e embora já tenha alguns cabelos brancos, tem cara de miúdo e um sorriso que não dá para esquecer.

- Quem me dera, ainda não. Às vezes penso nisso, desde que leio o Murakami que a minha imaginação me leva para lá em sonhos.

Respirei fundo e decidi contar-lhe algo que não partilho com qualquer pessoa, muito menos num primeiro encontro e ainda menos de trabalho, mas havia qualquer coisa na sua expressão que me fazia confiar e, por momentos, quis deixar-me ir ao sabor da minha intuição.

- Vou contar-te um segredo, não tem nada de especial, mas é uma coisa um bocado estranha, eu sonho muitas vezes com cidades que não existem.

O seu sorriso alargou-se e os olhos enormes misturados de verde, azul e castanho, abriram-se ainda mais.

- Explica lá isso melhor, Madalena.

- É um fenómeno recorrente, acho que começou ainda no liceu, quando escolhi Arquitetura. Deitava-me e sonhava com cidades inteiras: avenidas, edifícios, praças, jardins, hotéis, monumentos…

- Muito antes do 'Inception' então.

- Claro! Quando vi o filme nem queria acreditar. Era como se vivesse dentro da história, entendes?

- Sim, tive a mesma sensação, e até vi o filme várias vezes para ter a certeza que a impressão se repetia e repetiu-se sempre.

- Mas nunca sonhaste com outras cidades, pois não?

- Isso não. Mas tenho pena. Que sorte a tua, com uma imaginação tão fértil. E de todos esses sonhos, retiraste ideias para projetos?

- É evidente, mas nunca disse aos meus clientes, senão podiam pensar que sou maluca, ou que não sou deste planeta.

Fiquei sem saber o que dizer. O Nuno é um hoteleiro de renome no mercado, quer contratar-me para trabalhar com ele, "se calhar estiquei-me", penso mas não digo. Paciência.

- Espero que a minha confidência não tenha abalado a tua confiança no meu trabalho – deixo cair, olhando para o lado, para ele não perceber que fiquei aflita. O empregado 'millenial' aproxima-se, pensa que estou a chamá-lo.

- Deseja tomar mais alguma coisa?

- Pode ser mais um chá de menta por favor.

O Nuno continua calado, a sorrir.

- Diz qualquer coisa, bolas. Até me estou a sentir mal.

- Tu não és nada maluca, mas se calhar não és deste planeta. Nem eu. Viemos os dois de outro lugar. E quando fores a Quioto ou a Tóquio, se calhar vais sentir-te em casa como eu me senti.

Vi a sua mão sobre a mesa a avançar ligeiramente na direção da minha. Não mexi um milímetro do meu corpo. Sabia que nos próximos três segundos as duas mãos se podiam tocar. Se mexesse a minha, a dele avançaria. E agora? Mexo ou não mexo? Sinto a energia no ar, ele quer e eu também. Mas é tímido, bom rapaz, incapaz de um passo em falso. Sempre acreditei que ainda existiam homens assim, a vida acabou por me dar razão. Deixei escorregar a mão. O meu coração abriu uma janela muito pequena, o suficiente para entrar luz. Os nossos dedos tocaram-se ao de leve. Ele fixou o olhar na mesa e disse:

- Tens umas mãos muito bonitas. Não levas a mal, pois não?

Fechei os olhos e imaginei-me em Tóquio a passear com ele. O futuro está nas cidades inventadas, naquelas que vivem os nossos sonhos. O futuro podia estar ali, na minha mão. Sorri e deixei a minha mão aquecer-se na dele. O calor subiu até ao coração e lá dentro abriu-se outra janela.

Afinal o Dia dos Namorados não foi ontem, acho que vai ser quando eu quiser.

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