Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto pessoas como nós

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Não podemos deixar que os rios sequem

Tudo muda depois de um furacão. Às vezes para sempre. Como naquela ilha, uma das mais belas do mundo, onde sonhei levar-te um dia, Caye Caulker, no Belize, esse paraíso entre o México e a Guatemala.
08 de dezembro de 2017 às 07:00
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Não podemos deixar que os rios sequem

Vamos viajar até o futuro, queres? Não vês como o mundo está a mudar cada vez mais
depressa? Qualquer dia os carros são todos eléctricos e alguns vão voar. Os miúdos vão
crescer, o clima vai ficar cada vez mais seco, o Verão cada vez longo e quente. Portugal será
um extenso postal virtual de turismo, uma espécie de Atlântida de gastronomia e de festivais,
mas não penses que por vivermos em paz que o tempo aqui passa mais devagar.
O que nos vai acontecer se os rios secarem? Olho para a tua expressão cansada, para as rugas que os últimos anos te sulcaram a pele, e penso muito nisso. Nos rios que podem secar.

Há rios que invertem o curso das águas, sabias? O Mississippi, por exemplo. Não faço a coisa por menos. Depois do furacão Isaac em 2012, o rio inverteu o curso das águas durante 24 horas.

Tudo muda depois de um furacão. Às vezes para sempre. Como naquela ilha, uma das mais
belas do mundo, onde sonhei levar-te um dia, Caye Caulker, no Belize, esse paraíso entre o
México e a Guatemala. Caye Caulker quer dizer ilha carinhosa. No início do novo milénio um
furacão partiu a ilha ao meio. Nesse canal saltam todas as noites peixes cintilantes. É um lugar maravilhoso. Um dia podemos lá ir, tenho a certeza de que te vais sentir leve, livre e feliz.

O que nos vai acontecer se os rios secarem? Se secarem as fontes, o desejo, a vontade, a
capacidade de sonhar e de mudar o mundo? Que mundo vamos deixar aos nossos filhos,
quando as ilhas de plástico crescem como monstros da mitologia e os pescadores do Tejo já
não podem viver do seu trabalho porque o peixe sabe a celulose? Não vês que há cada vez
menos coisas que estão nas nossas mãos? Não te assusta a loucura dos governantes
desgovernados que nem o cabelo sabem cortar?

Imagina que esses loucos conseguem fazer tudo o que lhes passa pela cabeça. Mísseis vão cruzar os céus e destruir cidades, Jerusalém vai mergulhar em ódio e sangue, se isso acontecer, não vamos poder mudar o mundo. Mas podemos mudar o nosso mundo, tu e eu, de mãos dadas antes que os rios sequem. Basta acreditar e não ter medo.

Não podemos deixar que os nossos rios sequem. Não nos podemos deixar ir na espuma dos
dias, no rame-rame do conformismo atávico, reféns da virgula maníaca e do modo funcionário de viver, numa sucessão apática de dias que nascem da miséria de uma noite gerada por um dia igual, sempre igual, e por isso mesmo, sempre triste. O o’Neill escreveu-nos este aviso, para ti e para mim, toma sempre atenção às palavras dos poetas, pois são eles os profetas do novo mundo.

Não quero acreditar que é esse o teu caminho, como o de um comboio que segue por uma
linha abandonada. Temos de ser mais fortes do que a vidinha. Temos de ser mais fortes do que as pequenas contrariedades do dia-a- dia, e sobretudo temos de ser mais forte do que o medo.

Vem viajar comigo, queres? Pode ser até à ilha carinhosa ou ao continente onde existem
maravilhosas quintas de borboletas. Pensas que tinha sido eu a inventá-las? Nada disso.
Existem no Belize, outra vez o Belize, os peixes cintilantes que saltam para iluminar a noite
como pirilampos aquáticos, outra vez a vertigem de respirar o teu ar, num tempo sem tempo,
em qualquer lugar do mundo onde caibam os nossos sonhos, ainda e sempre por realizar.

Outra vez o sonho, o desejo, o calor que me incha as veias e me aquece o corpo, o coração e a alma, aquele impulso de voar mais alto, sempre mais alto, até tocar as estrelas sem sair do
mesmo lugar. Outra vez a vontade de te abraçar, que se repete a cada dia que nasce.

Passado, presente e futuro, céu e terra, rios e oceanos, planetas e estrelas, carros voadores e
quartos abençoados pelo amor e pelo desejo, palavras e beijos, sorrisos e abraços, num tempo sem tempo, porque o tempo não existe, nós é que passamos por ele e qualquer dia já cá não estamos.

Vem, não temos tempo a perder.

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