Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas como Nós

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O Grito

É sabido que o Romantismo foi um movimento cultural que só contribuiu para atrasar o mundo. Todo o herói romântico sofre muito, seja de solidão, de desamor ou de doença. E sofre porque se entrega à sua desgraça de quem, podendo escolher entre vários destinos, se atira de cabeça para o pior de todos, como quem se atira para uma piscina vazia quando se apaixona pela pessoa errada.
19 de janeiro de 2018 às 07:00
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O Grito

O meu prédio está em obras há seis meses. Não é bem o meu prédio, é o prédio onde vivo, porque na verdade nada é nosso, nem os filhos, nem os pais, nem os irmãos. A família é um porto de abrigo seguro, é aquilo que podemos ter como mais próximo da sensação de pertença, por isso precisamos tanto do seu colo, dos seus alicerces, das suas casas sempre quentes, onde lareiras e corações crepitam de carinho por nós.

A minha família é a melhor do mundo, o meu prédio também não está mal de todo, mas nos últimos meses virou o caos. As obras decorrem em três frações ao mesmo tempo, e como se isso não bastasse, as partes comuns do edifício entraram em trabalhos de recuperação e de melhoramentos. Agora, entrar e sair de casa é como atravessar um campo de trabalhos forçados com andaimes difusos por nuvens de pó que concentram o odor a resinas e vernizes. Homens esbranquiçados pela sujidade falam aos gritos entre patamares e fumam cigarros à porta depois do almoço, beatas jazem no passeio público como baratas mortas e invade-me aquela sensação de impotência que sobe ao nariz e me dá vontade de ser mal-educada com pessoas que nem conheço.

Mas o pior é o barulho. Começa às 8 da manhã em ponto e acaba às 7 da tarde. Os malandros ainda tentaram importunar o meu sossego ao fim-de-semana, mas correu-lhes mal porque além de levarem com as minhas queixas em português falado a alto e bom som, chamei a polícia duas vezes e a policia veio. Ora tudo isto parecem minudências, e seriam, se trabalhasse em casa. O último romance já foi terminado no escritório da editora e temo que o próximo seguirá o mesmo destino.

A minha morada tornou-se uma prisão, estou sempre a lembrar-me de "O Grito", o quadro mais famoso de Munch, o que não pode ser bom sinal. Para tentar disfarçar o caos sonoro oiço Chopin, porque Chopin acalma sempre. Fréderic Chopin era um homem tão triste quanto sonhador e Munch, que fez quatro versões do mesmo quadro, sem contar com a litografia a preto e branco ainda mais perturbante, também tinha vários parafusos a menos, ou fora do lugar. Cresceu familiarizado com a loucura que corria nas veias da sua família. "A doença, a loucura e a morte foram os anjos negros que me vigiarem desde o meu berço e me acompanharam durante toda a vida". Quem for mais atento reconhece no cartaz do filme 'Sozinho em Casa' as referências do quadro.

Mas voltemos a Fréderic, um dos ícones do Romantismo, criança prodígio, autor de inesquecíveis prelúdios, noturnos e valsas que se apaixonou por uma mulher mais velha, a escritora George Sand, e que morreu de tuberculoso apenas com 39 anos de idade. Ora é sabido que o Romantismo foi um movimento cultural que só contribuiu para atrasar o mundo. Todos o herói romântico sofre muito, seja de solidão, de desamor ou de doença. E sofre porque se entrega à sua desgraça de quem, podendo escolher entre vários destinos, se atira de cabeça para o pior de todos, como quem se atira para uma piscina vazia quando se apaixona pela pessoa errada. O amor ao erro e a paixão pelo trágico contaminaram dezenas de gerações de pessoas inteligentes cujo único defeito inicial era a sensibilidade. As canções americanas dos anos 30 e 40 remataram este quadro de miséria voluntária e consciente dos românticos inveterados. Só Deus sabe quanto tempo a Humanidade vai precisar para limpar os destroços de tanto disparate sentimental, penso eu enquanto as britadeiras não param de me massacrar os ouvidos, devem ser várias ao mesmo tempo.

Não, eu não escolhi o caos do prédio, mas sinto-me como o Caully McCulkin quando se viu sozinho em casa na comédia que o catapultou para o estrelato e para a desgraça. Não há paciência nem tampões para os ouvidos que resistam a tanta tortura.

Na impossibilidade de usar a varinha do Harry Potter para mudar a realidade, talvez um avião para o outro lado do planeta seja a solução, um lugar onde o canto dos pássaros e o murmúrio suave de aguas correntes acalmem o grito que guardo no peito.


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