Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas Dicionário do amor

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Ocaso

Ocaso: s.m. Momento em que tudo se apaga no meio de nós; não precisamos de luz para ver o amor — precisamos do amor para ver a luz.
13 de novembro de 2017 às 09:55
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Ocaso

Há algo de estranho na voz do meu pai,

uma queda, talvez, como se doesse a parte de trás das palavras,

gostar de alguém é conhecer-lhe o interior das palavras, não é?, entender o que não se diz,

li ontem num livro que estava pousado na mesa da sala,

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a mãe sorri como se chorasse,

amar é também saber que é tão curta a distância entre o sorriso e a lágrima,

a casa cheia parece vazia, tudo se mantém na mesma mas sabe a mofo,

a mentira sabe a mofo, cheira a mofo,

amo-te haja o que houver,

os adultos não dizem com as palavras todas, usam quase-palavras, semi-frases, pedem que a dor doa menos quando as frases duram menos,

amo-te haja o que houver,

o meu pai abraça-me,

o meio dos teus braços é heróico, pai, nele nada me magoa, nada me toca,

o meio do amor é o único lugar do mundo onde nada nos magoa, onde nada nos toca,

só o amor, claro, mas quem nunca se magoou nunca foi gente,

não li num livro mas ouvi numa canção que passou no programa da manhã da rádio, aquele que ouvimos todos juntos a caminho da escola, o pai eufórico com mais um dia e a mãe ainda com o sono nos olhos, a acordar devagar, a sentir devagar,

aqueles senhores todos dizem piadas enlatadas mas às vezes sai uma frase que fica,

a vida é no meio das pessoas enlatadas às vezes encontrar uma pessoa que fica,

está tudo bem, um dia vais entender,

já entendo, mãe, já entendo,

vi o pai a esvaziar o guarda-fatos há bocado,

chorou tanto quando guardou a camisa que tu lhe deste pelo aniversário,

fui eu que escolhi, ele não sabe mas fui eu que a escolhi,

o meu pai tem muita pinta,

digo todos os dias às pessoas do colégio,

o amor tem muita pinta, mãe, e pai,

amar é ter pinta, porque não?,

o silêncio agora dói, e nunca doeu,

o fim do amor acontece no instante em que o silêncio começa a doer,

ama-se o que nos pacifica e o que nos descontrola, nunca o que não faz nada, muito menos o que nos dói pelo que já não é, pelo que já foi,

tudo o que nos magoa é a ausência,

ainda estás, pai,

amo-te,

ainda estás, mãe,

amo-te,

mas ainda não sei entender como vou amar-vos em separado,

somos filhos de um só amor, não é?, como havemos de aprender a separar partes de nós?,

quando for grande quero ser amado,

e amar, como é óbvio,

não posso escolher com quem ficar,

não se escolhe um braço, não se escolhe o melhor ângulo para morrer,

não se escolhe um pai, uma mãe,

quero que sejam felizes, só isso,

eu vou continuar, crescer,

quando for velho quero ter os meus velhos comigo,

e amar, não se já o tinha dito,

é este o amor para sempre que vem nos livros,

qual mais haveria de ser?

 

Ocaso: s.m. O mesmo que vazio. Deixas de ver quando deixas de sentir.

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